terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Gente da Ataíja de Cima - o José Barata

O José Barata não era da Ataíja de Cima mas faz parte integrante da minha idéia da Ataíja. Era um vagabundo natural de Aljubarrota que corria os lugares da região com uma ceira às costas, asas enfiadas num cajado, onde transportava os parcos haveres e as ferramentas do ofício. Vivia comendo muitas vezes o que lhe ofereciam, ou pagando a refeição na taberna e dormindo onde calhava, sendo que havia sempre alguém pronto a dar-lhe abrigo. Na Ataíja de Cima era cliente assíduo do palheiro do Petinga.
Geralmente toldado, toda a gente se ria dele à custa de uma suposta paixão por uma filha de um tal Pinhão. Acumulava com a sua profissão de ferrador, as qualidades de um exímio tratador de doenças de burros e outros animais. Era, ao que ouvi, filho ou neto de um veterinário ou estudioso das coisas da veterinária e por aí teve acesso a alguns livros antigos da especialidade (livros esses que, às tantas, alguém lhe terá roubado) que leu com proveito, dele e dos proprietários de muitos animais de que tratou.
As farmácias de Alcobaça não hesitavam em aviar as receitas que, a lápis, passava no primeiro papel que encontrasse.
Era célebre a sua frase ""O Dr. Lavrador é burro!".
Lembro-me de uma ocasião em que um homem, de uma aldeia vizinha, correu a Ataíja montado numa mula, perguntando desesperadamente pelo Barata que queria lhe visse um animal doente. Como me lembro de o ver sangrar um burro e fechar a incisão com um alfinete de dama. Neste caso, ou noutro, já não recordo, esfregou vigorosamente a língua do bicho com sal e cebola albarrâ e, como em muitas mais vezes, os animais ficaram curados.

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