sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O Moleiro



Ainda estão vivos alguns que se podem lembrar de ter ouvido os seus búzios assobiar ou de ter visto as suas velas a rodar ao vento, mas as memórias começam a ficar difusas e, dele, não se conhecem fotografias ou desenhos, mas não havia de ser muito diferente (ao menos no que diz respeito ao mecanismo de moagem) do que se mostra no desenho abaixo, o moinho de vento que, algures pelos finais dos anos 30 ou inícios dos anos 40 do século passado, o ti Manuel Luís mandou construir no quintal.

Teve curta duração e dele não há ruínas ou quaisquer indícios que atestem a sua existência, já que se erguia no lugar onde depois foi construída a casa de João Frade, filho do proprietário, mesmo ao lado de onde agora está a do neto Zé Frade, um lugar alto aonde o vento podia chegar, sem obstáculos, de todas as direcções.

Ali se moía o milho de que se fazia a broa dos vizinhos e o próprio e das maquias com que se alimentava a numerosa prole e algum trigo para o pão-alvo dos domingos e dias santos.

Mas, naqueles dias de Agosto, havia mais de uma semana que sobre a terra tinha caído uma calmaria tal que nem as folhas das nogueiras buliam. Nada, nem uma brisa ligeira. Apenas, dia sobre dia, aquele calor seco que tão bem conhecemos, quando o sol queima na pele, os pássaros não voam, os cães se arrastam nas sombras e só o canto das cigarras rasga o silêncio.

Era Domingo. Talvez no ano de 1941 ou 1942, quando a Europa sofria sob a guerra e Portugal sofria sob a pobreza de sempre, agora agravada pelo racionamento. Na casa da ti Maria da Graça o pão, fossem os restos do pão-alvo do domingo passado, fosse a broa semanal, já tinham acabado. Nem uma côdea sobrava na arca.

O Padre Casimiro marcava as missas em São Vicente para muito cedo, quase de madrugada, o que por outro lado era bom que, assim, não tinha a gente de torrar sob o sol naquela viagem de seis quilómetros, ida e volta. 

Estava todo o povo na missa, as mulheres e as crianças pequenas no corpo da igreja, os homens ocupando a capela-mor e o coro, como era uso naquele tempo e ainda me lembra e o meu pai contava-me que, quando ele era pequeno e ainda ficava com a mãe no corpo da igreja, que se os homens se ajoelhavam, (apenas o joelho esquerdo no chão, mão direita segurando firmemente o pau, cotovelo apoiado na coxa) ficava a capela-mor feita uma floresta de paus. Nos anos cinquenta os paus já tinham desaparecido – pelo menos da missa - mas o resto mantinha-se muito parecido.

Estava o povo na missa, dizia eu, e o ti António da Graça, então um jovem dos seus dezoito ou dezanove anos, assistia no coro quando ouviu lá fora o rumor de uma rabanada de vento. Benzeu-se à pressa, desceu à rua e, não havia dúvidas, fazia um vento suão que levantava a poeira seca dos caminhos.

 Não pensou duas vezes: desatou a correr quanto pode e, num ápice, galgou os três quilómetros que o separavam de casa e do moinho. Despiu a camisa domingueira que o suor colara ao corpo e foi-se ao moinho. Verificou brevemente o engenho. Desenrolou as velas e amarou-as às varas das escotas.  Despejou a saca de trigo no tegão. Manobrou o sarilho, fazendo girar o capelo para alinhar as velas com a direcção do vento.
Sob a força da entrosga todo o engenho rangeu e a mó andadeira começou a rodar, o grão a escorrer pela calha e a farinha a surdir no panal.


Acabada a missa, a ti Maria da Graça vasculhou o adro em busca do filho que não encontrou. Levantou o rosto para sueste e os seus olhos saltaram o vale e chegaram ao seu moinho e pode ver, destacando-se no cenário de fundo da serra dos Candeeiros, as velas brancas a girar.

Graças a Deus!

O meu António já tem o moinho a trabalhar!

Estugou o passo e, também ela, chegou ofegante a casa e ao moinho onde o António já tinha a farinha suficiente. Peneirou-a e amassou-a brevemente, abafou-a com uma manta para levedar mais depressa e, usando o azeite que, esse, felizmente, ainda abundava na talha, fez filhoses que polvilhou moderadamente com açúcar e esse foi o almoço de todos.


Corte longitudinal de um moinho de vento, permitindo ver o mecanismo 
(imagem retirada, com a devida vénia, de Museu da Memória Rural, uma realização da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, com um excelente site na internet, in https://museudamemoriarural.pt/)

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Há um problema de segurança em Alcobaça?



Motivados por uma desusada vaga de assaltos a residências na Ataíja de Cima, publicámos no semanário Região de Cister, de 22 de Março de 2018, um texto com o título acima.
Depois disso, têm-se multiplicado quer na imprensa local quer, sobretudo, nas redes sociais, relatos de uma persistente criminalidade, relativa a assaltos, roubos e tráfico de drogas, entre outros.
Tudo perante o silêncio das autoridades municipais e policiais e a ausência de notícias que nos digam que os criminosos vão sendo apanhados, julgados e condenados, ou de estatísticas que nos mostrem que as coisas estão a melhorar (e não a piorar como parece ser o sentimento geral).
É por tudo isso que me parece que mantém pertinência a pergunta e se justifica a republicação, aqui no blog, do referido texto.



Há um problema de segurança em Alcobaça?

Há muitos anos, calhou-me integrar a associação de pais de uma escola secundária, então frequentada pelos meus filhos.
Uma das questões recorrentes era o enorme rol de queixas relativas a pequenos furtos que afectavam os alunos e, quase sempre, apontavam numa direcção: um ou dois bairros próximos da escola onde, a par com habitação social, existiam muitas casas clandestinas e algumas habitações precárias.
Um dos colegas da direcção era um prestigiado militar que não só conhecia bem as questões de segurança como quem tinha o dever de a garantir naquela área e lá fomos ambos falar com o então Chefe da esquadra da PSP do Campo Grande, a quem demos conta dos problemas existentes, solicitando-lhe que reforçasse o patrulhamento no local.
Depois de nos escutar atentamente, o responsável deu-nos conta dos meios que tinha à disposição, em homens e viaturas e um mapa da parte da cidade cuja segurança pública era sua responsabilidade. O dito mapa mostrava com clareza as zonas onde realmente existiam os problemas de segurança a que a PSP tinha de dar atenção. A área da escola dos meus filhos não era uma dessas áreas, porque o volume de queixas, fossem relativas a furtos e roubos fosse a outros crimes contra as pessoas ou a propriedade, era absolutamente residual.
Resumindo, havia muitas queixas na associação de pais e poucas na PSP.
Não sei qual é a situação no que respeita a Alcobaça e aos crimes contra a propriedade. Não sei se a PSP e a GNR têm muitas ou poucas queixas, nem as zonas do concelho onde são mais ou menos frequentes.
Mas sei que no curto espaço de cerca de treze meses, entre os primeiros dias de fevereiro de 2017 e meados de março de 2018, numa única aldeia do concelho, numa única rua e na curta distância de 300 metros, houve seis furtos com arrombamento, a um estabelecimento comercial e a cinco residências e seus anexos.
Nesses furtos, além dos danos provocados nos edifícios para arrombamento, desapareceram dinheiro, alimentos e bebidas, ferramentas, máquinas, e até a porta do estabelecimento assaltado e veículos motorizados, tudo no valor de muitos milhares de euros.
Num dos casos, quando a GNR chegou ainda o ladrão se encontrava dentro da casa assaltada.
Não muito longe, há uns poucos meses atrás, furtaram equipamentos em pedreiras. Num caso, com ameaças a uma pessoa. Noutro caso, foi identificada a viatura em que se deslocavam os assaltantes e, consequentemente, os próprios assaltantes.
Ou seja, em pelo menos dois dos casos referidos conhecem-se os autores e sabe-se onde habitualmente param e com quem andam.
Na época da azeitona foi furtado pelo menos um motosserra que, por pouco tempo, tinha sido deixado num olival.
E, há outros casos, como aquele do estrangeiro residente no Casal do Rei a quem, - obviamente sabendo que ele se tinha ausentado para ir à sua terra, - levaram todo o recheio da casa, incluindo a mobília.
Ou o estabecimento comercial, na mesma aldeia, onde furtaram as bilhas de gás que ali estavam para venda.
Talvez a GNR não tenha tido conhecimento da totalidade destes furtos, mas sei que recebeu as correspondentes queixas da maioria deles.
Talvez não haja um problema de segurança em Alcobaça. Mas, os factos que acabo de relatar mostram, inequivocamente, que existe um problema de segurança em algumas partes do concelho de Alcobaça.
Na Ataíja de Cima, claramente, há um problema de segurança.
18-03-2018

sábado, 30 de junho de 2018

Ainda sobre o nome Ataíja




(Ataíja e Atalaia, em Vestígios da Língua Arábica em Portugal)


Quando andava à procura de coisa absolutamente diferente, tropecei no 3º volume do curioso livro intitulado TENTATIVA ETYMOLOGICO-TOPONYMICA ou Investigação da Etymologia ou Proveniencia dos Nomes das Nossas Povoações, por Pedro Augusto Ferreira, bacharel formado em Teologia, continuador do Portugal Antigo e Moderno e Abade de Miragaya aposentado, Terceiro Volume, Porto, Typographia Mendonça (a vapor), Rua da Picaria 30, 1915.

Só o longo título é todo um programa pelo que não resisti a dar uma vista de olhos e, a páginas 64, deparei com uma, para mim, nova explicação para a origem do nome Ataíja, a qual não resisto a partilhar com os leitores do blog.

Atalaia é, diz o nosso abade aposentado, vigia, torres maiores ou menores que se faziam outrora em sítios altos e algo distantes das praças de guerra, como vedetas[i], sentinelas ou guardas avançadas para vigiar o movimento dos invasores e evitar surpresas. Aproveitavam-se mesmo algumas vezes penhascos nativos, próximos das praças e com vistas largas, para suprir as atalaias.[ii]

Quanto à origem da palavra, cita Cândido de Figueiredo que ”no seu Novo Dicionário da Língua Portugueza diz que atalaia vem do árabe at-talia” mas, contrapõe, Viterbo diz que dos árabes nos ficou esta palavra que eles pronunciavam atalaia, vinda do verbo tália que na oitava conjugação significa vigiar” e, acrescenta o nosso autor em nota que, nos Vestígios da Língua Arábica em Portugal[iii] lê-se Atalaia, Attallaâ. Vila da Província da Estremadura, Patriarcado de Lisboa. Significa lugar alto. Torre de onde as vigias descobrem o campo. Lugar eminente. Deriva-se do verbo tálea, subir, e na VIII conjugação é vigiar, olhar ao longe, descobrir com a vista. Também se chamam atalaias os homens que vigiam os campos, fortalezas, praças e presídios.

Delas (as atalaias) tomaram o nome talvez mais de cem povoações nossas, mencionadas na Chorographia Moderna.[iv] Taes são: Atalaia, Atalaias, Atalainha, Ataia, por Atalaia, ; Ataija por Ataya, o mesmo que Ataia ; Taias por Ataias ; Taijas por Ataijas ; Talaeiros por Atalaeiros ; Talaia por Atalaia ; e Tayão, aferese do Atalaião, augmentativo de Atalaia.[v]


E, aqui está como o nome Ataíja pode provir da palavra árabe attllaâ, atalaia, com o significado de vigiar, olhar ao longe, descobrir com a vista e, também, os homens que vigiavam os campos, ou os lugares altos donde o faziam.

É com o mesmo significado que a palavra subsiste, até hoje, na língua portuguesa. Veja-se o Priberam:
a-ta-lai-a (árabe atalai’a, plural de talaaiâ, lugar alto para vigilância, sentinela) substantivo feminino 
1. Torre, guarita ou lugar alto donde se vigia. substantivo de dois géneros 2. Pessoa que está de vigia. = SENTINELA
(Estar de) atalaia • De vigia a ou à espera de algo ou alguém. Numa posição ou postura que permite estar a espreitar ou alerta para algo.[vi]


Ora, em toda esta região não há melhor atalaia que a serra dos candeeiros. De facto, dela se alcança o mar e, por muitos quilómetros em redor, uma vastíssima extensão de território.

É, pois, bem plausível que o nome Ataíja venha daí, como é igualmente plausível que provenha, como sustentou Frei João de Sousa[vii],[viii], de uma outra palavra árabe, como já dissemos no post A Origem do Nome Ataíja, aqui publicado em 17de Novembro de 2009.

Em qualquer caso, será à serra que a Ataíja vai buscar o seu nome.






[i] Vedeta, diz-nos o dicionário online Priberam, é italiano e significa lugar elevado onde se colocava uma sentinela mas, também, em terminologia militar antiga, sentinela a cavalo.
[ii] Pág. 61.
[iii] Vestígios da Língua Arábica em Portugal, ou Lexicon Etymologico das palavras e nomes portuguezes que tem origem arábica, por Fr. João de Sousa, Lisboa, na oficina da Academia Real das Sciências, anno MDCCLXXXIX. Edição (fac-smille) de A. Farinha de Carvalho, 1981.
[iv] Chorographia Moderna do Reino de Portugal, por João Maria Baptista, Coronel de Artilharia Reformado, Coadjuvado por seu filho João Justino Baptista de Oliveira, Volume I, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias. Obra em vários volumes, o primeiro saído em 1864 e o quarto, que contém a Província da Estremadura, em 1876.
[v] Pág. 64.
[vi] "atalaia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/atalaia [consultado em 14-06-2018]
[vii] Op.Cit. na Nota iii
[viii] Ver (ler) imagem acima.

terça-feira, 19 de junho de 2018

5º Aniversário da Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça




A Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça nascida da curiosidade do Zé da Ilda que, passados já os sessenta anos, quis realizar o desejo de aprender a tocar concertina, tornou-se um projecto sério que cresceu de um modo que os seus iniciadores nunca terão previsto e, passados apenas cinco anos, mantém essa vertente de escola de música,  agora mais viva do que nunca e despertando mais interesse do que nunca e, por outro lado, é um grupo de concertinistas capaz de se apresentar em publico com êxito e agrado geral, o  que vem acontecendo cada vez mais amiúde e em diferentes palcos.

Este pessoal das concertinas, digamos assim, é gente que gosta de se divertir e de conviver e, por isso, o convívio entre grupos de concertinistas é uma vertente importante da actividade.

É assim que, para comemorar o 5º aniversário da Escola, foi possível reunir no passado domingo, dia 17 de Junho de 2018, no Largo do Cabouqueiro, na Ataíja de Cima, um grande número de muitas dezenas de concertinistas, pertencentes a 14 grupos diferentes, que abaixo listamos como forma de agradecimento pela excelente tarde que lograram propiciar às centenas de pessoas que acorreram a assistir ao espectáculo.

Escola de Concertinas aldeias de Alcobaça
Grupo de Concertinas de Machio (Pampilhosa da Serra)
Grupo de Concertinas da Barrenta
Grupo de Concertinas de Santa Maria da Feira
Grupo de Concertinas Sons da Serra (Oliveira do Hospital)
Grupo de Concertinas da Casa do Benfica da Charneca da Caparica
Concertinas João Tomás
Grupo de Concertinas de Dornes (Ferreira do Zêzere)
Grupo de Concertinas Michel Neves, de Vila Facaia (Pedrógão Grande)
Grupo Verde Minho (Loures)
André Vieira (Pero Negro)
Escola de Concertinas Filipe Oliveira (Sintra)
Augusto e Filipe Martinho
Escola de Concertinas da Cabeça Veada

Há igualmente que agradecer todos os apoios e patrocínios, quer os institucionais, Câmara Municipal de Alcobaça e Junta de Freguesia de Aljubarrota, quer as muita pessoas da Ataíja que com o seu trabalho e esforço contribuíram para a realização do evento quer, ainda, às cerca de quarenta empresas sem cujo patrocínio tudo teria sido mais difícil.

Ficam algumas fotos que fizemos durante a festa.



 




segunda-feira, 4 de junho de 2018

Na Rua dos Arneiros



Regularmente me tenho queixado neste blog da escassez de fotografias capazes de documentar o quotidiano ataijense e a sua evolução.

Muito gostaria de poder publicar mais fotos mas para isso é necessária a colaboração dos leitores ataijenses que as possuam.

Todas têm interesse, quando mostrem pessoas ou situações do passado ataijense. Sobretudo, têm muito interesse para as gerações mais jovens que devem poder conhecer o passado porque, sem se conhecer o passado não é fácil perspectivar o futuro.

Não desisti, ainda, de aqui reunir um repositório, também fotográfico, do que foram, na nossa aldeia, as décadas mais recentes e todo o século XX.
Talvez, com a colaboração de todos, seja possível fazer sobre a Ataíja de Cima algo como está a ser feito para Turquel e pode ser visto em:  https://sites.google.com/site/turquelvelhinho/

Por hoje, ficamos com uma excelente fotografia da autoria do fotógrafo Rogério Coelho, da Maiorga, o qual em Agosto de 2013 fotografou na Rua dos Arneiros uma cena que não nos é desconhecida, mas que ele encenou com grande qualidade e apuro estético.

Ao Rogério Coelho os nossos agradecimentos por ter autorizado a reprodução no blog deste seu excelente trabalho.




De pé, três amigos franceses do fotógrafo Rogério Coelho. Sentados, da esquerda para a direita: Zé Delfino, Zé Maçarico, Avelino, Chico Nazaré [já falecido] Almerindo, João Pérídes e Diogo.

domingo, 27 de maio de 2018

Um comerciante ataijense na Lisboa do Séc. XIX





A Rua do Amparo em Lisboa é, hoje, uma curta passagem entre o Rossio e a Praça da Figueira ao lado norte desta, e paralela à igualmente curta Rua da Betesga que, ao sul, liga o mesmo Rossio à dita Praça[i] da Figueira.
Mas, nem sempre foi assim.

Até 1950 a Rua do Amparo, cujo nome vem de uma Capela de Nossa Senhora do Amparo que, antes do terramoto, por ali existiu fazendo parte do Hospital de Todos-os-Santos, começava na Rua do Arco do Marquês do Alegrete (actual Poço do Borratém), prolongando-se pelo lado norte da Praça da Figueira até ao Rossio.
Foi nos terrenos libertados pela ruína do Hospital Real de Todos-os-Santos que a seguir ao terramoto se começou a comerciar na zona da actual Praça da Figueira e, no projecto de reconstrução pombalina da Baixa, foi esse espaço destinado a mercado.
Esse mercado foi evoluindo e, pelo menos desde meados do Séc. XIX era já uma área de cerca de 8. 000 m2 fechada por um muro encimado por gradeamento a cujo interior se acedia por oito portas ocupando todo o quarteirão formado pelas ruas do Amparo, da Betesga, dos Correeiros e Nova da Princesa (actual Rua dos Fanqueiros). [ii]
Nesse tempo já o espaço era, como hoje, limitado pelos prédios do projecto pombalino que definem uma área de cerca de 12.000 m2.
Foi aí que se ergueu, entre os anos de 1882 e 1885, um grande edifício da chamada arquitectura do ferro, a “praça da Figueira”, que foi durante 64 anos, desde 1885 até 1949, (a par do mercado abastecedor da 24 de Julho inaugurado três anos antes, em 1 de Janeiro de 1882 e, ainda, parcialmente em funcionamento)[iii] um dos mais importantes mercados de Lisboa (no dizer de Fernando Pessoa, in “Lisboa – O que o turista deve ver”, o mercado central de Lisboa).

Em 1949 a “praça da Figueira” foi demolida e, no ano seguinte, a Câmara Municipal decidiu dar ao troço inicial da Rua do Amparo o nome de Rua João das Regras e integrar o troço central na nova Praça da Figueira, agora um grande espaço público, reduzindo a Rua do Amparo ao troço sobrante, de ligação com o Rossio.

Era aí, no nº 21 da Rua do Amparo, na hoje designada Rua João das Regras, numa porta onde há pouco funcionava (não sei se ainda funciona), sinal dos tempos, o Istanbul Kebab, comida Halal[iv], que o ataíjense Francisco Caetano Branco tinha o seu estabelecimento

Sabemos muito pouco deste Francisco Caetano branco. Apenas, que em 3 de Janeiro de 1883 foi celebrada a escritura de ratificação e confirmação da doação intervivos que fizeram Mariana Branca viúva e seus filhos Luísa, Francisca e Francisco, todos da Ataíja de Cima, e outra sua filha Maria e seu marido, a favor destes últimos,  Maria Branca e Sabino dos Santos Trindade, alfaiates, de “umas casas com seu pátio confrontando de norte e sul com ruas, nascente com José António de Castro e poente com Joaquim Felizardo”, que haviam sido verbalmente doadas pela Mariana Branca a sua filha Maria, uns seis anos antes, a título de dote pelo seu casamento com o referido Sabino dos Santos Trindade.

Qual seria a casa objecto da doação, só o poderemos saber quando soubermos quem eram os vizinhos José António de Castro e Joaquim Felizardo. Certo, certo, é que ela se situava no coração da aldeia, ente as ruas de Trás e a do lagar dos Frades, porque só aí há ruas próximas paralelas, só aí há casas que se confrontem a norte e a sul com ruas.

A escritura foi celebrada, como se disse, em 3 de Janeiro de 1883, em Alcobaça, no cartório do tabelião Francisco Eliseu Ribeiro e, nela, o Francisco Caetano Branco foi representado, mediante a competente procuração, por João Ângelo da Silva, casado, também da Ataíja de Cima. Na dita procuração o Francisco Caetano Branco é identificado como “solteiro, maior e sui juris[v], comerciante, morador na Rua do Amparo vinte e um”.

Tendo estabelecimento junto ao principal mercado de Lisboa, tinha a passar-lhe à porta um grande número de potenciais clientes e, por isso, talvez, um próspero negócio. Se assim era ou não, não o sabemos, nem sabemos qual era o ramo do seu negócio, nem mais nada sabemos sobre ele.

Duas curiosidades, para terminar:
Ao tempo da celebração da escritura, em 1883, a Mariana Branca era já duplamente viúva: Das 1ªs núpcias com Caetano dos Santos, casamento do qual lhe ficaram dois filhos, os referidos Francisco e Maria. Das 2ªs núpcias com António Dias, das quais lhe ficaram as filhas Luísa e Francisca.
A Mariana Branca e o Caetano dos Santos foram trisavós do nosso amigo Américo de Sousa Sabino.



 A praça da Figueira.



[i] Neste texto vai ser frequente o uso da palavra praça quer no sentido de mercado quer no de espaço público
[ii] Ver Carta Topográfica da Cidade de Lisboa, levantada entre 1856 e 1858 por Filipe Folque, in http://purl.pt/index/cart/aut/PT/44818.html
[iii] Embora ainda funcione como mercado – retalhista e já não abastecedor – o mercado 24 de Julho foi parcialmente transformado pela empresa multinacional Time Out num Food Market de grande êxito, com mais de 40 espaços gastronómicos diferentes.
[iv] Comida Halal refere-se aos alimentos autorizados e preparados de acordo com os preceitos da religião islâmica.
[v] Sui juris, é uma expressão latina usada em Direito Civil para significar que a pessoa é autónoma e livre, capaz de determinar-se sem depender de outrem. Em Direito Canónico refere-se às igrejas particulares, autónomas, que se encontram em comunhão com o Papa.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Naturais de Aljubarrota na Grande Guerra de 1914 - 1918



 Porta-Bandeira do Corpo Expedicionário Português. 
Aguarela do pintor e cenógrafo alcobacense Augusto Pina,
originalmente publicada na Revista Quinzenal ilustrada. Ano I, n.º 1, de 1 de Junho de 1917


Cumpriram-se ontem cem anos sobre a desastrosa batalha de La Lys[i] na qual o Corpo Expedicionário Português foi desbaratado por um poderoso exército alemão que, empenhando na ofensiva cerca de 55.000 homens bem armados, não teve dificuldade em vencer um cansado exército de cerca de 15.000 combatentes portugueses, na maioria, pobres camponeses analfabetos que não compreendiam as razões por que combatiam.  

Não é aqui o lugar para discutir a, ainda hoje, controversa participação portuguesa na 1ª Guerra Mundial, mas apenas para homenagear os soldados naturais de Aljubarrota (freguesias de S. Vicente e de Nossa Senhora dos Prazeres) que nela participaram e abaixo se identificam por nome, estado civil, posto, naturalidade (indica-se a naturalidade tal como consta da respectiva ficha)[ii] e filiação.

Foram eles:

António Alberto, solteiro, soldado, S. Vicente                                  
António Bernardo, solteiro, soldado, Casal do Rei                                          
António Carreira, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa                                       
António Carvalho, casado, soldado, Casais, (na morada da mulher - parente mais próximo - escreve-se Casais seguido de "da Fonte", rasurado).
António da Costa, casado, soldado, Prazeres (casado, mas indica como parente mais próximo um irmão residente na Maiorga)
António da Silva, 1º cabo, Aljubarrota                                 
António Ferreira, 2º cabo, Molianos                                     
António Gomes, solteiro, soldado, Prazeres, filho de Francisco Gomes Froes e de Joaquina de Souza     
António João, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa, filho de João António e África de Jesus
António Joaquim dos Santos, solteiro, soldado, Chequeda, filho de Joaquim dos Santos e Agripina Joaquina      
Bernardino Coelho, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa, filho natural de Joaquina Coelha. Foi ferido em combate. Punido, por duas vezes, com prisão disciplinar (25 + 4 dias)
Domingos Plácido, solteiro, soldado, Chequeda, filho de Plácido dos Santos e Maria Luiza. Ferido em combate, veio a falecer três dias depois, em 23 de Outubro de 1917, sendo sepultado no cemitério de Merville, coval B.24 (a cerca de 10 km do Cemitério Português de Richebourg)
Elias Gomes, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Manuel Gomes e de Maria Rita
Ernesto da Silva, solteiro, soldado, Boavista, filho de Francisco da Silva e Maria da Encarnação 
Francisco de Oliveira, solteiro, soldado, Boavista, filho de Luis de Oliveira e de Maria Roza (no índice consta como Francisco Silveira). Ferido por gases em 7-8-1917
João de Oliveira, solteiro, soldado, Boavista de Baixo, filho de José de Oliveira e Gertrudes Dionízio. Ferido em combate em 4-2-1918. Louvado. Condenado em múltiplas penas de prisão e de detenção
João de Sousa, casado, soldado, Cadoiço, filho de Francisco de Sousa e Maria Luisa (a ficha diz que é natural de Prazeres, sendo a mulher residente no Cadoiço). Ferido em combate, em 3-4-1917.
João Natalino, solteiro, soldado, S. Vicente, filho de José Natalino e de Teresa André. Punido com 5 dias detenção por conduzir a galope o carro de que era condutor. Punido com 8 dias detenção por castigar com brutalidade uma das muares que lhe estava distribuída.
João Nogueira, solteiro, soldado, Aljubarrota, filho de Manuel Nogueira e Roza de Almeida       
João Ribeiro, casado, soldado, Chãos, filho de João Ribeiro e de Idalina dos Santos, casado com Palmira de Oliveira. Punido com 15 dias de detenção por desrespeito a um sargento.
João Vicente, solteiro soldado, S. Vicente, filho de Vicente dos Santos e de Maria Josefa.            
Joaquim Alexandre, solteiro, 1º cabo, Chãos, filho de António Alexandre e de Maria José. Ferido em combate em 3-7-1917. Faleceu na 1ª linha em virtude de ferimentos recebidos em combate em 20-10-1917. Sepultado no cemitério de Pont du Hem, coval n.º 18 (há-de, como os demais portugueses aí inumados, ter sido trasladado para o Cemitério Português de Richebourg-l'Avoué).
Joaquim Bernardo, solteiro, soldado, Prazeres, filho de José Bernardo e Gertrudes Veríssima   
Joaquim Carlos, solteiro, soldado, Ataíja de Cima, filho de José Carlos e de Rosa Coelho. Ferido por gases em 7-8-1917. Em 1-1-1919 punido com 30 dias de prisão correcional (a ficha não indica o motivo).
Joaquim Clemente, solteiro, 1º cabo, Ataija de Baixo, filho de José Clemente e Respícia dos Santos        
Joaquim da Horta, casado, soldado, Aljubarrota, filho de Luís da Horta e de Guilhermina Martins, casado com Teresa Ribeiro. Foi dado por incapaz para todo o serviço e evacuado para Portugal chegando a Lisboa em 1-10-1917.
Joaquim de Carvalho, solteiro, soldado, Chãos, filho de José Rito de Carvalho e de Francisca Teresa       
Joaquim Machado, solteiro, soldado, Carvalhal, filho de António Machado e de Gertrudes Luísa. Ferido em combate, por estilhaços de granada, em 13-3-1918.
Joaquim Manuel, 1º cabo, Prazeres                                      
Joaquim Marques da Silva, solteiro, soldado, Prazeres, filho de Teodoro Marques da Silva e de Ana Pedro dos Anjos. Condecorado com a medalha comemorativa da expedição a França.
Joaquim Martins, soldado, S. Vicente                                  
José António dos Santos, solteiro, soldado, Prazeres, filho de António dos Santos e de Maria da Piedade.           
José Baltazar, solteiro, soldado, Aljubarrota, filho de António Baltazar e de Maria Rita  
José Branco, solteiro, soldado, Lameira, filho de José Francisco Branco e de Josefina de Jesus. Feito prisioneiro na Batalha de La Lys ou Batalha D'Armentières em 9-4-1918.
José Clemente, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de José Clemente e de Respícia dos Santos. Por razões de saúde que a ficha não indica, foi internado pelo menos 5 vezes no hospital, tendo sido expatriado em Fevereiro de 1919. Era irmão do Joaquim Clemente atrás listado.
José Coelho, solteiro, soldado, Cumeira de Baixo, filho de João Coelho e de Mariana Almeida   
José Constantino, solteiro, soldado, Ataíja de Cima, filho de Constantino dos Santos e de Serafina dos Santos. Embarcou em 10-10-1917 em Lisboa com destino a França. De regresso embarcou com a 12ª Bateria de Artilharia Pesada, em 11-5-1919, no "Pedro Nunes" e desembarcou em Lisboa em 14-5-1919. Por razões que a ficha não menciona, em 12-4-1918 embarcou para Inglaterra onde chegou no dia seguinte e, 7 meses depois, voltou a França onde desembarcou a 14-11-1918. Em 7-2-1919, foi punido com 10 dias de detenção "porque estando o Sargento de dia à Bateria perguntando a outra praça a razão por que não descascava batata, aquele sem que o Sargento de dia a ele se dirigisse, declarou que "se fosse com ele não a descascava".
Uma vez que a sua ida para Inglaterra se deu 3 dias depois do desastre deLa Lys, é de presumir que há relação entre os dois factos.
José da Silva, solteiro, soldado-corneteiro, Molianos, filho de Joaquim da Silva e de Maria Joaquina. Embarcou em Lisboa em 20-1-1917. Ferido em combate em 28-7-1917. Julgado incapaz para todo o serviço e de angariar meios de subsistência. Repatriado, desembarcou em Lisboa em 12-11-1917.
José Dias, solteiro, 1º cabo, Quinta do Mogo, filho de António dos Santos e de Joaquina Dias. Promovido a 1º cabo do quadro permanente em 26-2-1918
José Joaquim, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Maria Quitéria. Ferido em combate em 18-3-1918. Em 23-9-1918 foi punido com 10 dias de detenção por ter faltado à revista sem motivo justificado. (em PT AHM-DIV-1-35A-2-02-00591, as imagens m0004.jpg e seguintes são de documentos que se não referem a este soldado).
José Ribeiro, casado, soldado, Aljubarrota, filho de Ermelinda de Jesus. Casado com Maria Nazária. Louvado pela forma como desempenhou os trabalhos de reparação de uma trincheira. Punido com 20 dias de prisão disciplinar por ser encontrado numa casa abandonada, abrindo armários e com algumas garrafas nas mãos. Punido com 5 dias de detenção por ter faltado aos trabalhos nas trincheiras.
José Rodrigues Correia, soldado, Aljubarrota                                    
Luís Dias, casado, 1º cabo, Ataíja de Cima, filho de António Dias e Maria Lourenço. Casado com Ana Dionísio. Promovido a 1º cabo miliciano em 20-8-1918. Conheci-o velho e alcoólico. Faleceu um dia em que, vindo da taberna na noite escura, se terá enganado no caminho para casa, tendo sido encontrado pela manhã, já morto. Sempre ouvi que tinha sido gaseado mas a ficha não o refere. Também usava o nome de Luís Dias Vigário e era conhecido por "Luís Barra". Quando eu era miúdo, era voz corrente que o seu alcoolismo derivava do facto de ter sido “gaseado” na guerra de França mas, a sua ficha não menciona que tenha sido gaseado.
Luís dos Reis, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Izidro dos Reis e de Maria Joaquina. Ferido por desastre em serviço, em 24-10-1918.
Luís dos Santos, solteiro, soldado, Prazeres, filho de José dos Santos e de Maria Feverónia        
Manuel Augusto Pereira, solteiro, soldado-ferrador, Chequeda, filho de Augusto Joaquim e de Maria Fortunata Pereira. Punido com 4 dias de detenção por ter o arreio sujo. Punido com 4 dias de detenção por ter saído do aquartelamento sem polainas, em péssimo estado de asseio. Punido com 4 dias de detenção por ter mais de uma manta e a não entregar quando houve ordem para isso.
Manuel Carvalho, soldado, Chequeda, filho de Joaquim Carvalho e de Narcisa de Jesus. Desaparecido desde 3 de Junho de 1917, sendo feito prisioneiro, apareceu em 16-1-1919.
Manuel Faustino, solteiro, soldado, Molianos, filho de Manuel Faustino e de Adelina Santos. Em 14-2-1918 baixou ao hospital e em 18 seguinte foi considerado incapaz para todo o serviço. Repatriado, desembarcou em Lisboa em 10 de Abril seguinte.
Manuel Norberto, solteiro, soldado,  S. Vicente, filho de António Norberto e de Maria Benta    
Manuel Rodrigues, soldado, Prazeres                                  
Manuel Teodoro de Sousa, casado, soldado, S. Vicente, filho de José Teodoro de Sousa e de Paulina dos Santos. Casado com Elísia Mónica. Julgado incapaz para todo o serviço regressou a Portugal em Julho, a bordo do "Gil Eanes".
Matias dos Reis, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Isidoro dos Reis e de Maria Branca. Ferido em combate em 3-7-1917. Hospitalizado diversas vezes num total de mais de 250 dias. Punido, em 7-8-1918, com 8 dias de detenção por, tendo sido nomeado para a polícia do QGB, ter faltado alegando ter adormecido.
Nicolau Duarte, solteiro, soldado, Carvalhal, filho de António Duarte e de Maria Joaquina. Punido com 4 dias de detenção por pretender iludir para quem se destinava um pouco de fruta verde que foi encontrada sobre um abrigo.
Silvério Augusto, solteiro, soldado-clarim, S. Vicente, filho de Augusto dos Santos e de Mariana Joaquina. Punido com 10 dias de prisão disciplinar por na noite de 5 para 6 de Janeiro de 1919, ter num estabelecimento provocado distúrbios, ameaçando a dona da casa com uma navalha e dizendo que lá voltaria e faria ir pelos ares. Punido com 10 dias de prisão disciplinar por no dia 2-2-1919 ter ameaçado duas francesas dentro do seu estament.
Silvestre Sousa, solteiro, soldado, Molianos, filho de José de Sousa e de Maria José. Punido com 6 dias de detenção por ter faltado à formatura para serviço nas trincheiras.



Esta lista está eventualmente incompleta.
Faltam, talvez e além de outros, militares que sendo naturais de outras freguesias, tinham residência nas de Aljubarrota. Eu próprio tenho notícias de um Bento, talvez nascido no concelho de Porto de Mós mas que seria então residente na Ataíja de Cima, o qual não é incluído nesta lista por falta de prova documental.
Aos eventuais leitores que conheçam mais elementos relativos ao objecto deste texto, agradecem-se todas as informações que possam contribuir para o seu desenvolvimento e melhoramento



[i] La Lys, o rio Lis, é um rio no Norte de França, na região hoje denominada Hauts-de-France (Altos de França), na fronteira com a Bélgica.
[ii] Boletins Individuais de Militares do CEP. Disponíveis online no site do Arquivo Histórico Militar.