Nos anos de 1918 e 1919, no rescaldo da primeira guerra mundial, o mundo foi assolado por uma epidemia de gripe provocada por um vírus da estirpe A (tal como a actual gripe) que ficou conhecida por gripe espanhola ou, mais vulgarmente, por pneumónica, a mais mortífera de todas as epidemias da história.
As grandes epidemias são de todos os tempos e a mais famosa delas é, talvez, a peste negra que assolou a Europa no Século XIV e terá reduzido a população europeia a cerca de metade, tendo sido precisos quase duzentos anos para recuperar a população perdida.
Nesse tempo Portugal teria cerca de dois milhões de habitantes.
As pessoas do meu tempo aprenderam na escola sobre as epidemias de cólera-morbo e febre-amarela que afectaram Portugal em meados do Século XIX, entre 1853 e 1857, com gravíssimas consequências, tendo, só em Lisboa, falecido mais de 5.000 pessoas. Quatro anos depois, em 1861, o próprio Rei D. Pedro V viria a falecer de febre tifóide, outra das doenças infecciosas que atormentou o século.
Os navegadores e conquistadores espanhóis levaram para a América Central a gripe, que os índios locais desconheciam, e há quem diga que isso foi uma das maiores causas do quase total desaparecimento daqueles povos.
Em contrapartida, logo na primeira viagem de Colombo, no Haiti, adquiriram esses navegadores a sífilis, doença que era desconhecida na Europa onde se veio a disseminar com tanta rapidez e intensidade que no hospital Real de Todos-os-Santos, mandado construir por D. Manuel I em Lisboa, já havia uma “casa das boubas” para internar os doentes por ela afectados.
Da Europa, a doença espalhou-se rapidamente por todo o mundo e dela sofreram milhões de pessoas, durante 450 anos, até à descoberta da penicilina, em 1941.
Desta doença veio a morrer o rei Filipe IV de Espanha, III de Portugal.
As pessoas da minha geração lembram-se de um homem do Cadoiço que sempre conheci por Joaquim Doente, o qual nasceu cego e com a pele escamosa em razão da sífilis de que o seu pai sofria.
A sífilis atormentou a Europa durante cerca de 450 anos, até à descoberta da penicilina, mais a mais porque, sendo privilegiadamente transmitida por via sexual, a doença acarreta uma forte condenação moral e o estigma do portador, por devasso ou promíscuo.
Aliás, depois de uma forte queda associada à descoberta da penicilina, a prevalência da síifilis encontra-se em crescendo em vários países, falando a revista especializada de medicina Lancet em milhões de infectados e cerca de 100.000 mortos de sífilis em 2015.
A pneumónica, essa, correu o mundo no final da Grande Guerra num curto período de pouco mais de 18 meses e os seus efeitos foram devastadores:
Terão morrido, em todo o mundo, entre vinte a quarenta milhões de pessoas, estudos mais recentes, falam em números mais elevados, alguns em cem milhões de mortos, o que, em qualquer caso, torna a pneumónica na doença epidémica mais mortífera de todos os tempos.
Em Portugal, segundo o professor João Frada in “A gripe pneumónica em Portugal Continental – 1918”. 1ª edição, Lisboa: Sete Caminhos, 2005, terão havido um pouco mais de sessenta mil falecimentos provocados pela pneumónica, mas outros cálculos falam em cem mil e, até, em duzentos mil mortes.
A incidência da pneumónica no distrito de Leiria foi particularmente grave, o que levou à proibição de feiras e romarias na tentativa de limitar as situações de contágio:
Também a Ataíja de Cima não ficou imune à doença, tendo eu conhecimento de a pneumónica aqui ter provocado, pelo menos, cinco mortes:
- António Matias que era proprietário da casa alta do Outeiro, avô e bisavô dos Matias actuais;
- Delfina, sua filha, solteira;
- Francisco Sabino, avô do nosso amigo Américo Sabino e de muitos outros;
- Tomás (só sei o apelido) que era casado com Maria Constantino e foi avô dos "delfinos";
- Maria, de17 anos, filha de Bernardino dos Santos (irmã, portanto, de Manuel e António "Casal")
As condições sanitárias e os conhecimentos da medicina são, hoje em dia, completamente diferentes do que eram em 1918 (só cerca de 1930 é que se estabeleceu que o vírus da pneumónica era um vírus da estirpe A já que, em 1918, os conhecimentos da medicina o não permitiam).
A capacidade de isolar o vírus muito cedo e de produzir rapidamente vacinas e medicamentos e, talvez mais importante, a monitorização a nível mundial da evolução da doença, a massiva divulgação de informação sobre os comportamentos a adoptar pelos doentes e os sistemas que por todo o lado se estabeleceram com vista a prestar assistência às pessoas afectadas e, ainda, no caso de Portugal e da generalidade dos países desenvolvidos o acesso universal a cuidados de saúde, tem permitido limitar drasticamente os efeitos mortais das doenças contagiosas.
Mas isso não dispensa que cada um de nós tenha os cuidados adequados para evitar ou limitar as possibilidades de contágio.
Hoje, confrontados que estamos com a pandemia do Covid-19, é nosso dever tomar os cuidados adequados para evitar contagiar e ser contagiados e, quando nos sentirmos menos confiantes, de nos lembrarmos do que os que nos antecederam tiveram de enfrentar.
O texto, que agora republicamos com ligeiras actualizações, foi originalmente publicado neste blog em 22 de Dezembro de 2009.
Nota: A notícia da 5ª vitíma acima referida foi-nos confirmada hoje mesmo por um seu sobrinho-neto, o nosso amigo Jorge Bernardino, a quem agradecemos. 31.3.2020 JQ
terça-feira, 31 de março de 2020
domingo, 29 de março de 2020
A Imagem e a Capela de Nossa Senhora da Graça da Ataíja de Cima – Lenda e História
Nos “Tesouros Artísticos de Portugal”[i]
a imagem de Nossa Senhora da Graça é mencionada nos seguintes termos:
“ERMIDA
DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA. Situa-se em Ataíja e guarda uma escultura de
pedra quinhentista[ii]
representando o orago, prejudicada por uma infeliz repintura. Neste lugar
existiu um convento de frades, hoje reduzido à fachada setecentista,
brasonada.”
A infeliz repintura, como lhe chama o autor, que dá à imagem
o aspecto que actualmente lhe conhecemos, foi, segundo contava o meu pai que o
terá ouvido ao seu, feita em finais do séc. XIX, ou inícios do séc. XX, porque
a anterior se encontrava muito degradada, por Manuel Ferreira da Bernarda ou um
outro pintor da sua fábrica.
O convento de frades, esse, nunca existiu. Na Ataíja nunca houve um convento de frades. Apenas, um lagar de azeite da Ordem de Cister construído em meados do séc. XVIII e que é a construção a que o autor se refere
O convento de frades, esse, nunca existiu. Na Ataíja nunca houve um convento de frades. Apenas, um lagar de azeite da Ordem de Cister construído em meados do séc. XVIII e que é a construção a que o autor se refere
Naquele tempo,
andavam a construir uma casa e foram tirar a pedra a um sítio, a que agora chamam a Pia da Senhora ou a Cova da Santa.
Carregaram num carro
de bois uma grande pedra que daria um bom cunhal e deixaram-na no local da
obra. No dia seguinte a pedra não estava onde a tinham deixado mas, perante a incredulidade geral, no sítio de onde a tinham tirado.
Tornaram a carregar a
pedra e o acontecido voltou a acontecer e repetiu-se, ainda, uma terceira vez.
Não havia dúvidas. Era um milagre.
Perante tal maravilha, logo o povo ali decidiu que haviam de
mandar a um imaginário que fizesse da pedra uma bonita Nossa Senhora que,
atentando bem, já ali se vislumbrava e, do mesmo passo, decidiram que a casa
que queriam construir já não seria para nela habitar uma família, mas seria a
Capela onde passariam a venerar a imagem.
A minha avó Maria Lourenço que me contou esta história e
muitas outras, era analfabeta e não podia saber que entre os anos de 1545 e
1563 decorreu em Trento, cidade situada no norte de Itália, um dos mais
importantes concílios da história da Igreja Católica, o Concílio de Trento ou
Tridentino, convocado pelo Papa Paulo III em reação às divisões provocadas pelo
surgimento do protestantismo, na sequência da publicação, em 1517, das 95 Teses
de Lutero.
Lembremo-nos igualmente – e a minha avó também o não podia saber – que, por esses tempos, por toda a primeira metade do séc. XVI, se travou em Portugal uma longa disputa em torno da criação e consolidação do Tribunal do Santo Oficio[iii].
Lembremo-nos igualmente – e a minha avó também o não podia saber – que, por esses tempos, por toda a primeira metade do séc. XVI, se travou em Portugal uma longa disputa em torno da criação e consolidação do Tribunal do Santo Oficio[iii].
Ou seja, na segunda metade do séc. XVI, estavam reunidas
todas as condições para que na nossa região, como por todo o Portugal, se
fizessem sentir os ventos da Contra-Reforma, erguendo-se nesse tempo a maioria
das capelas que ainda hoje existem nas nossas aldeias.
É neste contexto da Contra-Reforma e da acção do Santo
ofício que os milagres se multiplicam:
Ao milagre da imagem de Nossa Senhora da Graça, que terá
acontecido algures na segunda metade do séc. XVI, época de fabricação da
imagem, acrescem pelo menos três milagres supostamente acontecidos em
Aljubarrota.
O Couseiro dá-nos conta do aparecimento miraculoso da imagem
da Senhora do Laço, acontecido em 1568[iv].
O mesmo milagre é contado em diferente versão nas Memórias Paroquiais[v] onde, por outro lado, se acrescentam outros milagres imputáveis à mesma imagem. No entanto, sem adiantar data, o pároco limita-se a dizer que o milagre do laço “é tradição antiquíssima”.
O mesmo milagre é contado em diferente versão nas Memórias Paroquiais[v] onde, por outro lado, se acrescentam outros milagres imputáveis à mesma imagem. No entanto, sem adiantar data, o pároco limita-se a dizer que o milagre do laço “é tradição antiquíssima”.
- Um crucifixo que abriu os olhos e suou, milagre este que foi presenciado por “António Coelho, natural da Ataíja de Cima, homem de boa via e honestos procedimentos”, diz o Padre Cardoso.
E, não ficam por aqui os milagres locais.
Em 1611, num mesmo dia, mais dois milagres:
- Uma imagem do Senhor Preso à Coluna que saiu incólume do incêndio que devorou os panos sobre que se encontrava.
Os “milagres”, muitas das vezes consistindo em imagens
aparecidas ou semoventes[viii] ou as duas coisas,
“aconteceram”, ou foram “recuperados”, em grande quantidade, entre o final do
séc. XVI e por todos os séc. XVII e XVIII e estão na origem de muitos edifícios
religiosos, por vezes imponentes santuários. (é o caso – e para dar, apenas, três
exemplos da nossa região – do Senhor Jesus da Pedra, em Óbidos, do Senhor Jesus
dos Milagres, na localidade do mesmo nome, perto de Leiria e do Santuário de
Nossa Senhora da Nazaré, no Sítio)[ix].
A veracidade da maioria destes milagres é, no entanto
e hoje em dia, objecto de dúvida generalizada, inclusive por parte da Igreja
Católica que não reconhece muitos deles.
Seja como for, o nosso modesto milagre deu origem à
também modesta capela. Tão modesta que, ainda em meados do Século XVII, quer dizer, mais ou
menos quando o Duque de Bragança, depois D. João IV e os seus companheiros
puseram fim à união com a Espanha filipina e recuperaram a independência de
Portugal, era descrita no Couseiro, um importante repositório da
realidade da Diocese de Leiria o qual contém, designadamente, um completo
inventário e descrição das igreja, capelas e ermidas do bispado, nos seguintes termos:
“… (no lugar da Ataíja de cima há uma ermida) da
invocação de Nossa Senhora da Graça, a cuja fábrica são obrigados os moradores
do mesmo Lugar; a imagem da Senhora é de vulto, pintada, sem nicho, nem
retábulo, nem capela, nem igreja forrada, nem sino.”
A imagem era a que conhecemos, eventualmente com
diferente pintura. A capela, essa era bem mais pobre. Quatro modestas paredes
cobertas de telha vã sem, sequer, um sino que chamasse os fiéis à oração.
Não sabemos quando é que a imagem de Nossa Senhora da Graça ganhou o seu nicho. Talvez, como indicia a sua traça, ainda na segunda metade do Séc. XVII ou na primeira do Séc. XVIII. Esse nicho está agora como peça decorativa do Adro (será, brevemente, incorporado no Centro Paroquial em construção), depois de em 2003 ter sido substituído por uma cópia em mármore, aliás fielmente executada.
Não sabemos quando é que a imagem de Nossa Senhora da Graça ganhou o seu nicho. Talvez, como indicia a sua traça, ainda na segunda metade do Séc. XVII ou na primeira do Séc. XVIII. Esse nicho está agora como peça decorativa do Adro (será, brevemente, incorporado no Centro Paroquial em construção), depois de em 2003 ter sido substituído por uma cópia em mármore, aliás fielmente executada.
Sobre o que seria a arquitectura da capela em meados
do Séc. XVIII não se pronuncia o pároco
de São Vicente que, em resposta ao inquérito pombalino[x], apenas diz que:
“… (a
freguesia de São Vicente) Tem mais a cappela de Nossa Senhora da Graça cuja
imagem parece bem antiga e hé de pedra e do povo daquele lugar que se chama a
Athaeja de Sima. Esta cappela está em um largo no meyo do lugar[xi];
tem seu juis e mordomos que lhe administram alguns rendimentos que tem que servem
para a fabrica da ditta capella e festa da mesma Senhora que se faz em hῦas das
oitavas do Natal, e nesse dia acode a ella bastante gente dos povos vizinhos e
tem também esta cappela em o altar a imagem do Menino Jesus.”
Por este tempo estaria a ser plantado o olival dos
frades e a ser construído o lagar, de que hoje apenas sobram as ruinas da cerca
da quinta em que se inseria e as da casa do monge lagareiro. Factos que
não deixaram de ter grande importância na vida Ataíjense e, portanto, também na
sua capela.
Mas isso, terá de ficar para uma outra vez.
[i] Tesouros
Artísticos de Portugal, orientação e coordenação de José António Ferreira de
Almeida, edição Selecções do Reader’s Digest, Lisboa, 1980
[ii]
Quinhentista. Relativo ao séc. XVI.
[iii] V.
Marcocci, Giuseppe, A Fundação da Inquisição em Portugal: um novo olhar, in Lusitania
Sacra. 23 (Janeiro-Junho 2011) 17-40
[iv]. Couseiro
ou Memórias do Bispado de Leiria, Transcrição da 2ª edição de 1898. Colecção
Tempos & Vidas, Textiverso, Leiria, 2011. Pág. 263 e nota 23.
[v] Memórias
Paroquiais (1758), Volume III, Introdução, Transcrição e Índices, José Cosme e
José Varandas, pág. 11, Edição Caleidoscópio e Centro de História da
universidade de Lisboa, 2011.
[vii] “há
cerca de trina anos”, diz ele.
[viii] Que
se move por si própria
[ix] No
Brasil, uma Senhora da Nazaré semovente, aparecida em 1700, deu origem ao Círio
de Nossa Senhora da Nazaré de Belém do Pará que é, por muitos, considerado a
maior manifestação religiosa católica do país, nela participando mais de 2
milhões de fiéis.
[x] V.
Memória Paroquiais (1758), Volume III, edição
Caleidoscópio e Centro de História da Universidade de Lisboa, 2011.
[xi] Lugar esse
(Ataíja de Cima) que, diz o padre noutro lugar, tem cinquenta e três vizinhos
(casas habitadas) e cento e setenta e sete pessoas.
sábado, 14 de março de 2020
Anos trágicos na Ataíja de Cima - O surto de Tifo de 1832 e a Epidemia de Cólera de 1833
(a propósito dos tempos que correm)
Em 1832, verificaram-se na Ataíja de Cima 10
falecimentos, um número invulgarmente alto face à média normal de três mortos
por ano.
Entre os dias 10 de Março e 21 de Abril, ocorreram a
maioria das mortes do ano: 6 pessoas. Destes, o falecimento em 20 de Março de
uma inocente sem nome, nascida nesse mesmo dia, filha de Custódia Maria, a qual
“foi batizada em casa por necessidade por Paulo dos Santos a quem examinei pelo
dito batismo”, conforme se escreve no respectivo assento de óbito, é, talvez,
um caso diferente, um problema sobrevindo durante o parto, como era vulgar na
época. Note-se, aliás, que a mãe sobreviveu, aparentemente sem sequelas.
Dos 10 falecidos no ano, 1 era viúvo, 2 casados e 7
solteiros, 3 dos quais “inocentes” e um “menor”. Dos solteiros, 3 eram expostos
do Real Hospital da Cidade de Lisboa que se encontravam a ser criados por amas
locais.
Dos 4 falecimentos ocorridos fora do período crítico
que se desenrolou entre 10 de Março e 21 de Abril, dois foram de crianças, de 4
e 11 anos e, os outros dois, de pessoas idosas:
Um destes foi Veríssimo Amado, uma pessoa de quem já
falamos noutros posts publicados neste blog e que, nesse tempo, tinha um filho
já com 45 anos de idade. Tratava-se, pois, de uma pessoa de idade avançada para
a época, pelo que se pode admitir que a morte se deveu a causas naturais.
O outro foi a viúva Micaela dos Santos, de quem também
já falámos, a propósito do seu testamento. A Micalela já era casada em 1790 (42 anos antes) e, em 1832, era,
seguramente, pessoa de avançada idade para a época, pelo que também a sua morte
pode ser tida como devendo-se a causas naturais.
Qual terá sido a razão ou a principal razão,
responsável por aquele anormal número de mortes?
Ao contrário do que se passa com a Cólera-morbo de 1833, não tenho certezas mas, muito provavelmente, tal mortandade é consequência do surto de tifo que, nesse ano de 1832, ocorreu em Portugal, com especial incidência nas regiões de Lisboa e Ribatejo.[i]
Ao contrário do que se passa com a Cólera-morbo de 1833, não tenho certezas mas, muito provavelmente, tal mortandade é consequência do surto de tifo que, nesse ano de 1832, ocorreu em Portugal, com especial incidência nas regiões de Lisboa e Ribatejo.[i]
O tifo epidémico, ou tifo exantemático
ou, apenas, tifo[ii],
é uma doença epidémica transmitida por parasitas comuns no corpo humano, como
piolhos. Uma outra forma de tifo, menos agressiva e que é, ainda, endémica em
certas regiões rurais de África, da América Central e do Sul e da Àsia é o
chamado tifo murino, cujo principal vector[iii] é uma pulga que parasita os ratos e
outros pequenos mamíferos.
As epidemias mais
graves verificaram-se em situações de grande aglomeração de pessoas e cuidados
limitados de higiene, como exércitos (foi a principal causa de morte entre os
soldados de Napoleão durante a campanha da Rússia).
Por essa época começou-se
a compreender a relação entre o tifo e a falta de higiene e o exército francês
introduziu nas medidas de disciplina a obrigatoriedade de fazer a barba e de
cortar o cabelo rente, como forma de acabar com os piolhos que eram o vector da
infecção.
E, de facto, as medidas de higiene capazes de
erradicar ou controlar as populações de ratos e piolhos, continuam a ser
estritamente necessárias para evitar o ressurgimento desta e de outras doenças
infecciosas.
O Tifo chegou a Portugal no final do século XV e foi
evoluindo por surtos até às Invasões Francesas, a partir de quando se tornou
endémico entre nós e assim se manteve até ao Séc. XX[iv] (o último grande surto de tifo, do
qual resultaram cerca de 3.000 mortos, ocorreu em 1918-1919 sobrepondo-se,
parcialmente, à pneumónica).
Pelas mesmas razões de falta de higiene, mesmo depois
disso o Tifo continuou a matar gente em prisões e campos de concentração (matou
centenas de milhares de pessoas em campos de concentração nazis, durante a
segunda guerra mundial).[v]
Passado um ano
sobre o surto de tifo, foi a Ataíja de cima vítima de uma nova e mais mortífera
epidemia, que assolou a Europa nos anos de 1832 e 1833 e chegou à nossa aldeia
em Junho de 1833.
A doença era conhecida há longo
tempo. Os portugueses conheciam-na desde o séc. XVI, por ser endémica na Índia onde
se manteve circunscrita até à década de 1820, quando atingiu a Rússia e
continuou a progredir para ocidente.
A cólera chegou a Portugal “trazida
a bordo de um navio que, de Ostende[vi],
transportava soldados para ajudarem D. Pedro no cerco do Porto”[vii],
quando já tinha atacado com grande virulência em Paris, no mês de Abril desse
ano de 1832.[viii]
Pela primeira vez, foi antecipada
a propagação de uma epidemia e a sua evolução sistematicamente acompanhada e,
por toda a Europa, foram publicados numerosos livros e folhetos contendo quer
instruções sobre os comportamentos a adoptar face à doença, ou para evitar a
doença, quer relatórios médicos descrevendo as observações aos doentes,
incluindo numerosas autópsias, ou relatando os efeitos dos medicamentos[ix] experimentados, seja, fazendo a
história médica da epidemia[x].
Exemplo de medida “preventiva” é o
Aviso de D. Miguel I[xi] ao Cardeal Patriarca de Lisboa que a
seguir se transcreve:
TENDO apparecido em algumas Nações, e ultimamente mais proximo a
nós, em a França, huma enfermidade nova, que se está conhecendo com o nome de Cholera-morbo
Asiatica, e cujos terríveis estragos são talvez hum castigo, com que a
Divina Omnipotência quer punir, e reprimir esse espirito de perversidade, e de
impiedade, que desgraçadamente tem chegado a tamanho gráo no Século, em que
vivemos, deve, em taes circumstancias, hum Povo Catholico, e que tanto se préza
de o ser, como o Povo Portuguez, acudir, e reunir-se junto aos Altares a
implorar a Clemencia do Omnipotente, e a adorar a Sua Alta Providencia, mesmo
quando assim se mostra severa, e justiceira: He por tanto da vontade de Sua
Magestade que Vossa Eminência ordene que, para o sobredito fim, hajão Preces
públicas em todo o Patriarchado. Sua Magestade Manda lembrar a Vossa Eminência
que he necessário que nessa ocasião os Ecclesiasticos, a quem isso competir,
usando do importante Ministerio da palavra, que lhes incumbe, fação conhecer
aos Povos que não basta a Oração para se applacar a Justiça Divina ofiendida,
mas que são precisas as boas obras, affastando elles com especialidade, e
repelindo firmemente para longe de si as idéas de corrupção, e de impiedade,
que os máos, para seus fins perversos, tanto tem procurado espalhar; e tambem
que lhes fação vêr os muitos motivos , que temos para esperar, e confiar na
Misericordia de Deos, que sempre se tem mostrado propicio aos Portuguezes , e
cujos Beneficios , ainda nestes passados tempos tão visivelmente acabamos de
experimentar, livrando-nos por duas vezes da Facção revolucionaria, que
dominava, e que
pertendia destruir o Throno , e a Religião, e causar a total ruina
de Portugal. O que de Ordem do Mesmo Senhor communico a Vossa Eminência para
sua intelligencia, e para que assim se execute, = Déos guarde a Vossa
Eminência. Çamora Corrêa em 28 de Maio dé 1832. = Eminentíssimo e
Reverendíssimo Senhor Cardeal Patriarcha.
= Luiz de Paula Furtado de Castro do Rio de Mendoça.
Depois do Porto, em cuja região
terá matado cerca de 13.000 pessoas, a Cólera alastrou a Lisboa e outras
regiões e terá feito, no país, um total de cerca de 40.000 mortos até
desaparecer no final de 1833.[xii]
À Ataija de Cima a cólera terá
chegado em Junho de 1833 provocando o que há-de ter sido uma hecatombe social,
com a morte, num espaço de quarenta dias, de um total de 16 pessoas (9 em
Junho, 7 em Julho).[xiii]
Quem morreu?
2 eram viúvos, 6 casados e 8 solteiros,
dos quais, 3 eram inocentes e um menor.
Dos inocentes, 2 eram expostos do
Real Hospital da Cidade de Lisboa, que estavam a ser criados na aldeia.
João Machado que, no final do ano
anterior tinha assistido à morte de uma filha verá, em Junho deste ano
morrerem, no mesmo dia, a mulher e uma outra filha.
Bernardo de Moira verá
desaparecerem-lhe, no espaço de 3 dias, um filho inocente e um menor.
A Custódia Maria, morreram o
marido e um exposto que criava.
Luis Machado e a mulher também
morreram no espaço de três dias.
10 mortos em
1832, a maioria deles em razão de um surto de tifo e,
18 mortos em
1833, a maioria deles por efeito da epidemia de cólera-morbo que assolou o
país.
vinte e oito mortos em dois anos, numa aldeia onde na maioria dos anos do Século XIX, morreram 3 ou 4 pessoas por
ano, equivale, grosso modo, ao número de mortes que havia de ter lugar em sete a nove anos.
É difícil
calcular com rigor a dimensão da tragédia, tanto mais que não dispomos, ainda, de
estimativas fiáveis sobre a população que a aldeia teria naquele tempo, mas, seguramente, morreu naqueles dois anos mais de 10% da população da aldeia).
Conseguem
imaginar?
NOTAS:
(todas as publicações referidas
nas Notas se encontram disponíveis online.)
[i] Em 1810-1813, um outro
surto de tifo tinha percorrido todas as localidades mais importantes do país,
provocando um tal número de mortes que há quem sustente que mais vítimas fez o
tifo do que as tropas francesas.
[ii]
O presente texto é, no que se refere à descrição e história da doença Tifo,
subsidiário de: “Tifo epidémico em Portugal: um contributo para o seu
conhecimento histórico e epidemiológico”, artigo de J. A. David de
Morais, publicado In Medicina Interna, Revista da Sociedade Portuguesa de
Medicina Interna, VOL.15 | Nº 3 | JUL/SET 2008
[iii] Vector, em medicina, é
o artrópode que transmite o germe de uma doença (bactéria, vírus, ou
protozoário) de um indíviduo doente a um indivíduo são. (in Dicionário Priberam
da Língua Portuguesa [em linha], consultado em 14-12-2013. Consultado hoje, o mesmo dicionário dá uma definição mais simples: "organismo vivo que é capaz de transmitir agentes infecciosos, bactérias,virus, etc a pessoas ou animais".).
[iv] Especialistas
contam um total de dezassete surtos de tifo, em Portugal, durante o Séc. XIX.
[v] Ver: http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=758&sid=8 (consultado em linha
em 19-12-2013).
[vi] Ostende
situa-se na actual Bélgica que, por esse tempo, alcançava a independência.
[vii] O cerco
do Porto teve início em finais de Julho de 1832. Os "soldados" em
causa eram, certamente, mercenários que tinham combatido nas lutas pela
independência da Bélgica, iniciadas em 1830.
[viii] A
expressão entre aspas é de CORREIA, Fernando da Silva - Portugal Sanitário
(Subsídios para o seu estudo. Lisboa: Ministério do Interior ; Direcção Geral
de Saúde, 1938, p. 465), citado em: Portugal e as Conferências Sanitárias
Internacionais (Em torno das epidemias oitocentistas de cholera-morbus), por
Maria Rita Lino Garnel, Revista de História da Sociedade e da Cultura, 9,
Centro de História da Sociedade e da Cultura, Universidade de Coimbra, 2009.
[ix] Melhor
seria dizer mezinhas.
[x] No
caso de Portugal, por exemplo, o livro: Um fragmento da història da epidemia que, sob o nome de Còlera-morbus
asiàtico, havendo percorrido a Àsia e a maiòr parte da Europa, chegou a
Portugal no corrente anno
de 1833, pêlo Dr. Lima
Leitão.
Para o caso de França, por
exemplo: RELATION sur le
CHOLERA–MORBUS OBSERVÉ A PARIS , DANS LE MOIS d'AVRIL l832, SUIVIE D’UN RAPPORT
SUR L’ÉPIDÉMIE CHOLÉRIQUE QUI A RÉGNÉ DANS l'arrondissement DE BERNAY (EURE),
DEPUIS LE 29 AVRIL jusqu'au 27 SEPTEMBRE l832, PAR M. NEUVILLE,
[xi] Estavamos
em plena Guerra Civil que opunha os absolutistas chefiados por D. Miguel (que
tinha usurpado o Trono), aos liberais fiéis a D. Pedro IV.
As posições de cada uma das partes em conflito perante a epidemia
é um aspecto que acrescenta interesse ao estudo do tema.
O Aviso transcrito é um claro exemplo demonstrativo do extremismo
político e religioso de D. Miguel.
[xii] Havia de
voltar várias vezes durante as décadas seguintes e, com particular virulência,
em 1853-1856.
[xiii] Nesse ano houve, na aldeia, mais duas mortes que, no
entanto, não terão sido provocadas pela cólera.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
A Rua dos Arneiros em Meados do Século XX
A Rua dos Arneiros que, a partir do Outeiro, liga à Ataíja de
Baixo, é um caso curioso já que, por um lado, aparenta ser um caminho, digamos,
recente, uma vez que não aparece representado no Mapa elaborado em 1791 para a
construção da estrada de Rio Maior a Leiria, a Estrada de D. Maria Pia e, por
outro lado, foi o primeiro caminho desta borda da serra a ser classificado como
Estrada Municipal, o que aconteceu, como já disse no texto O Caminho do Concelho, pelo
Decreto de 28 de Julho de 1894.
Se a classificação de 1894 se compreende no âmbito de um processo de criação de
ligações radiais das povoações à sede do concelho, (na mesma data foram criadas
as estradas para Chequeda e Molianos e Maiorga, Casalinho, Fanhais[i] e Pataias,
entre outras) a ausência do mapa de 1891 significará que, muito provavelmente,
não existia naquela data, o que implicaria que as relações entre as Ataíjas
eram de baixa intensidade, talvez por um efeito barreira criado pelo olival dos
frades que as separava.
Arneiro, dizem os dicionários, é um lugar areento e estéril. Aqui,
não me parece que seja especialmente areento, antes, argiloso o que, aliás, não
é incompatível. E, estéril não é mas é pouco produtivo. Isso, deve-se sobretudo
à pouca espessura do solo arável, sendo comum encontrar pedra a pouca profundidade
(o meu pai intentou, há menos de quarenta anos, plantar uma vinha no Serrado.
Além de, numa parte do terreno, ter encontrado uma grande quantidade de pedra,
a vinha foi sempre muito fraca, tendo durado, apenas, cerca de vinte anos. De
modo semelhante, já na Figueira Pedral, a Aire Mármores construiu recentemente
um parque de estacionamento e aí se viu bem que o solo arável tinha menos de
trinta centímetros de espessura, e assentava sobre uma cama contínua de pedra).
No texto A Rua das Seixeiras em Meados do Século XX, já deixei uma
descrição de como era a Rua dos Arneiros naquele tempo. Vejamos agora como ela era
habitada, pouco depois de eu nascer:
Começando pelo Outeiro, a primeira casa que ali existia, e ainda
existe, era a de José Veríssimo e Maria da Graça (Maria da Serra), agora
desabitada. Ali moravam os proprietários e dois filhos, estando os mais novos
ainda por nascer.
Até ali, nenhumas construções existiam senão o pátio e eira da casa de António Matias e, do lado da serra, agora nos cómodos do José Planeta, um poço, propriedade de José Ribeiro.
Até ali, nenhumas construções existiam senão o pátio e eira da casa de António Matias e, do lado da serra, agora nos cómodos do José Planeta, um poço, propriedade de José Ribeiro.
Desse lado da serra, seguia-se a casa onde viviam os irmãos
António e Manuel Ângelo, o primeiro conhecido pela alcunha de Rospiço, alcunha
essa que é, aparentemente, corruptela de Respício, que já encontrámos como nome
próprio feminino (Respícia dos Santos) e apelido. O dicionário online Priberam
diz que respício significa criança magra e enfezada.
O que inicialmente era para mim uma estranha alcunha terá, assim, algo a ver com o aspecto físico da criança que foi António Ângelo.
O irmão Manuel, esse, foi conhecido por o Piquete.
O que inicialmente era para mim uma estranha alcunha terá, assim, algo a ver com o aspecto físico da criança que foi António Ângelo.
O irmão Manuel, esse, foi conhecido por o Piquete.
Após um curto intervalo de terra agrícola, seguia-se e segue-se a
casa agora de António Salgueiro e, então, de Augusto Ribeiro. Logo, colada, a
casa de Maria Jorge e de seu marido António Constantino, o Toni. Ela, sobrinha
do Augusto.
Em frente, um antigo lagar de vinho, propriedade do Augusto, o
único lagar de vara que conheci na Ataíja de Cima. Já não trabalhava, mas ainda
lá estava tudo: o lagar, a vara, o fuso e o peso.
Era uma construção ampla tendo, quer do lado do caminho quer do terreno, portões largos, por onde cabia um carro de burro e se fazia a serventia de uns terrenos encravados que ali havia, entre eles um que era propriedade de José Henrique que foi conhecido por José Neto e José Diabo.
Quando o José Diabo se resolveu a casar, era aquele o único terreno que possuía onde pudesse construir uma casa.
O Augusto já tinha falecido, a sua viúva, Maria Adelaide regressara ao Casal Pardo de onde era natural e o proprietário do lagar era agora José Veríssimo que recusou a pretensão do Diabo de fazer passar os materiais para a construção pelo seu terreno, ao lado do lagar. Que não. Que passasse por onde sempre se tinha passado. Que a serventia era pelo lagar e não lhe dava outra.
O caso só se resolveu quando o Tribunal mandou que se mudasse a construção uns metros para o lado, como ainda lá está, pagando o Diabo as despesas.
Era uma construção ampla tendo, quer do lado do caminho quer do terreno, portões largos, por onde cabia um carro de burro e se fazia a serventia de uns terrenos encravados que ali havia, entre eles um que era propriedade de José Henrique que foi conhecido por José Neto e José Diabo.
Quando o José Diabo se resolveu a casar, era aquele o único terreno que possuía onde pudesse construir uma casa.
O Augusto já tinha falecido, a sua viúva, Maria Adelaide regressara ao Casal Pardo de onde era natural e o proprietário do lagar era agora José Veríssimo que recusou a pretensão do Diabo de fazer passar os materiais para a construção pelo seu terreno, ao lado do lagar. Que não. Que passasse por onde sempre se tinha passado. Que a serventia era pelo lagar e não lhe dava outra.
O caso só se resolveu quando o Tribunal mandou que se mudasse a construção uns metros para o lado, como ainda lá está, pagando o Diabo as despesas.
E, foi assim que nasceu a Travessa dos Arneiros.
Ao tal lagar seguia-se, menos de um metro depois (deixando apenas
uma estreita passagem até à cisterna que ainda lá está, embora muito arruinada)
a casa de Luís Barra e Ana Dionísio, (Denísia, dizíamos), agora em
irreversível ruína.
Seguia-se, onde o meu primo João Porfírio teve o palheiro do burro, a casa onde vivia a, então, ainda jovem viúva Joaquina Cordeiro e, depois, a casa, agora também devoluta, de João da Graça Salgueiro e de sua mulher Ana Lourenço da Silva que todos conhecemos por Ana Patoixa, que aí viviam com os dois filhos. Num dos seus anexos funciona, actualmente, a Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça.
Seguia-se, onde o meu primo João Porfírio teve o palheiro do burro, a casa onde vivia a, então, ainda jovem viúva Joaquina Cordeiro e, depois, a casa, agora também devoluta, de João da Graça Salgueiro e de sua mulher Ana Lourenço da Silva que todos conhecemos por Ana Patoixa, que aí viviam com os dois filhos. Num dos seus anexos funciona, actualmente, a Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça.
Seguiam-se a casa e os cómodos dos pais da Ana, Francisco Dionísio
e Joaquina Lourenço e, depois, a casa onde eu nasci.
A Rua do Martins era, então, a Azinhaga do Martins, um caminho
estreito, onde só cabia um carro de vacas entre paredes de pedra solta, e não
tinha casas. Apenas olivais. O olival da Burra, o olival do Guincho, o Olival
do Brilhante. Uma parte deste, onde os Faxia têm agora as suas casas era,
naquele tempo, propriedade de uma irmã do meu avô Quitério que morava em Valbom
e era tão cerrado que o sol quase não chegava ao chão.
Voltando à Rua dos Arneiros, passada a Azinhaga do Martins havia a
casa de José Dionísio e de sua mulher Joaquina Nazaré (Joaquina, filha da
Nazaré) e, logo a seguir a que tinha sido do pai dela, João Maurício, sobre a
qual o Pérides, neto dele, mais tarde construiu a sua.
Voltando um pouco atrás e ao lado de Aljubarrota, a casa dos meus pais, construída em 1946, tinha (e tem) uma parede comum com a adega do meu
avô, adega essa que, por sua vez, tinha sido construída, em finais do Século
XIX, por um irmão da minha avó que dela queria fazer residência. Nunca o chegou
a ser porque ele veio a falecer na tropa. Dizia minha avó, que de desgosto.
Seguia-se o quintal de António Lourenço, onde pontificava uma já
então velha figueira que ainda lá está hoje e, estávamos na entrada da Rua das
Covas.
Na esquina do lado sul, já lá estava, desde 1945, a casa de José Coelho Vigário, o José Guilhermino (o José da Guilhermina) e, dentro do seu pátio, a casa de alpendre onde ainda vivia a sua mãe, Guilhermina Vigário então já viúva do meu tio-avô António Quitério, o Mal-das-Vinhas.
Tendo falecido recentemente (05-02-2019) a ti’ Maria Marques, viúva de José Guilhermino, esta é mais uma casa inabitada.
Na esquina do lado sul, já lá estava, desde 1945, a casa de José Coelho Vigário, o José Guilhermino (o José da Guilhermina) e, dentro do seu pátio, a casa de alpendre onde ainda vivia a sua mãe, Guilhermina Vigário então já viúva do meu tio-avô António Quitério, o Mal-das-Vinhas.
Tendo falecido recentemente (05-02-2019) a ti’ Maria Marques, viúva de José Guilhermino, esta é mais uma casa inabitada.
Continuando na Rua das Covas, seguia-se o Quintal da Rosalia onde
havia a única casa com o chão ainda em terra que conheci habitada na Ataíja. Aí
morava então, de empréstimo, José Maurício que foi conhecido por José Rebolão,
a sua mulher Emília Mariano, natural do Cadoiço e a filha mais velha, nascida
no mesmo dia que eu.
Do outro lado da rua a casa de António Lourenço, o Ária e de sua mulher, Maria Quitério, minha tia-avó.
Ele também era parente, em grau que ainda não apurei, pelo lado da minha avó paterna mas, mais do que isso tinha a fama e, parece, o proveito, de ter dinheiro, fruto, talvez, dos tempos em que trabalhou como capataz ou feitor para o Raposo de Magalhães na sua quinta dos Ganilhos ou do Mirante (da estrada ainda se consegue ver, no meio do campo, por detrás de uma urbanização recente, uma pequena torre ameada, o Mirante, que servia para o capataz, lá de cima, vigiar terras, culturas e servos).
Certo é que o meu pai, quando quis fugir da vida sem horizontes da aldeia que lhe não permitia alimentar decentemente três filhos pequenos, pensou comprar uma venda de leite em Lisboa e pediu dez contos ao Ária, que lhos emprestou com dez por cento de juro a serem pagos, anualmente, em dia de Todos-os-Santos.
A minha mãe não gostava dele porque, um certo dia, falando do lado de lá da pequena parede que separava ambos os quintais, ele lhe terá dito que aquilo ainda havia de ser tudo dele, porque o João dela não ia conseguir pagar o que lhe devia.
À do Ária seguia-se a casa que tinha sido do meu bisavô e ao lado da qual um neto, o meu tio António Sapatada, tinha construído a sua, servindo agora a do avô para arrumos e como casa do ofício de sapateiro de onde lhe vinha a alcunha.
Voltando à Rua dos Arneiros, do lado da serra, depois da casa de
João Maurício havia apenas um poço, o poço do Fialho. A rua onde agora são as
casas do Rogério Sabino e do Carlos da Ilda e uma outra de um cidadão estrangeiro,
não existia. Era uma mera serventia agrícola.
Reparei agora que, apesar de habitada, esta rua ainda não tem nome, ou pelo menos placa. Mas, bem lhe ficaria o nome de Rua do Serrado, porque por Serrado eram conhecidos aqueles terrenos.
Reparei agora que, apesar de habitada, esta rua ainda não tem nome, ou pelo menos placa. Mas, bem lhe ficaria o nome de Rua do Serrado, porque por Serrado eram conhecidos aqueles terrenos.
Seguia-se a casa que ainda lá está mas também já desabitada, de António da Graça e Ilda Lourenço, que a construíram para
o seu casamento, celebrado em 29-10-1949.
Logo depois, havia uma antiga casa, então há muito desabitada, que tinha sido propriedade do Combasteiro e, então, já era propriedade do seu sobrinho José Lourenço, pai da Ilda.
Logo depois, havia uma antiga casa, então há muito desabitada, que tinha sido propriedade do Combasteiro e, então, já era propriedade do seu sobrinho José Lourenço, pai da Ilda.
Seguia-se, na esquina da Rua das Pedras Brancas, a casa de Francisco Machado e
Luísa Gomes, ele conhecido por O Faxia e, em frente, na esquina oposta,
escondida dentro de um pátio, a casa de António Catarino e Joaquina Cordeiro,
conhecida por Joaquina Benta (julgo que por ser filha de um Bento), que aí
viviam com os seis filhos então, ainda, todos solteiros.
No quintal do Faxia, já em plena Rua das Pedras Brancas, estava a construir-se
a casa onde a filha dele, felizmente ainda viva e de boa saúde iria, logo em
1951 formar um casal com José da Graça.
Do lado de Aljubarrota, à casa de José Guilhermino seguia-se
uma sequência de 3 casas: a de António Guilhermino que aí criou dez filhos, a
do seu primo António Quitério que foi conhecido por António Piedade (António,
filho da Piedade) e a de seus pais, a dita Piedade e o meu tio-avô José
Quitério.
Nesse tempo, esta última casa era habitada pela filha solteira do casal, Joaquina, de alcunha Joaquina Piedade ou Baguinho de Milho. Posteriomente, no início da exploração do Vidraço de Ataíja, num anexo, aí morou e teve a sua forja um emigrante que exercia a profissão de ferreiro, então insdispensável, além do mais, para afiar ponteiros e picões.
Nesse tempo, esta última casa era habitada pela filha solteira do casal, Joaquina, de alcunha Joaquina Piedade ou Baguinho de Milho. Posteriomente, no início da exploração do Vidraço de Ataíja, num anexo, aí morou e teve a sua forja um emigrante que exercia a profissão de ferreiro, então insdispensável, além do mais, para afiar ponteiros e picões.
Mais adiante, era a casa de José Lourenço e Ana Caseira, uma casa à maneira
tradicional, oferecendo a empena à rua e à serra e com os vãos abertos a sul. O pátio desenvolvia-se em frente à fachada
principal, esta protegida por um pequeno telheiro e separada do pátio por um
patim a que se acedia directamente da rua.
A seguir, ainda se vê o que resta das ruínas da casa que foi de uma sua filha que ali viveu casada com António Orelha (filho) e morreu nova. Mas, em 1950 eles ainda eram solteiros e quem ali vivia era uma irmã dele, casada com um tal Henrique, ao que parece oriundo da zona do Vimeiro. Tendo ela morrido nova, o viúvo saiu da aldeia e a casa passou a propriedade do irmão dela.
A seguir, ainda se vê o que resta das ruínas da casa que foi de uma sua filha que ali viveu casada com António Orelha (filho) e morreu nova. Mas, em 1950 eles ainda eram solteiros e quem ali vivia era uma irmã dele, casada com um tal Henrique, ao que parece oriundo da zona do Vimeiro. Tendo ela morrido nova, o viúvo saiu da aldeia e a casa passou a propriedade do irmão dela.
Por fim, uns cinquenta metros depois, estava e ainda está O Poço do Moura e, junto dele, acabada de construir, no ano de 1949, como atesta a pedra da era
sobre a porta de entrada, a casa onde moraram António Maurício, conhecido por
António da Silvina e Maria de Matos Ângelo, conhecida por Maria Rosa.
Dali até à Ataíja de Baixo mais nenhuma construção existia.
Ou seja, cerca de 1950, havia na Rua dos Arneiros (e nas Rua das Covas)
um total de vinte e três casas habitadas e uns oitenta e cinco habitantes.
A casa que foi de António Lourenço, numa foto de 2010. A porta em
primeiro plano é a da adega. A casa, construída nos últimos anos do séc. XIX, não tem janelas. A única janela é da adega, está sobre o
lagar e a pedra cravada na parede (poial) serve para apoiar o pé da pessoa que
faz a trasfega das uvas, da tina para o lagar.
[i] No
Decreto de 28 de Julho de 1894 diz-se Fanhões. É lapso. Trata-se, sem dúvida,
de Fanhais que então pertencia ao concelho de Alcobaça.
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
Início da Construção do Centro Pastoral – Sala de Velório
No post que dedicámos ao 19º Almoço Anual do Salão Cultural Ataijense,
aqui publicado em 27 de Janeiro de 2018, referimos que
foi aí publicamente anunciado que, como aliás já tinha sido publicado na Folha Paroquial,
foram celebradas as escrituras de compra e a de doação feita pelos nossos
amigos Rogério e Luís Vigário dos edifícios onde foram a casa e cómodos de seus
avós Sabino Vigário e Joaquina Baptista para aí serem instaladas uma Casa de Velório
e outros serviços ligados à paróquia e à Capela de Nossa Senhora da Graça,
designadamente instalações para a Catequese.
Mais foi dito que, atenta a grande área que assim fica disponível para o serviço da comunidade, pretende-se elaborar um projecto de grande qualidade que, muito provavelmente, há-de ser construído por fases, ao ritmo da capacidade da comunidade ataijense.
A Câmara Municipal de Alcobaça disponibilizou-se para oferecer o projecto, o qual foi elaborado por CS Laureano Arquitectos. Lda.
Estes assuntos, naturalmente sob a orientação e
direcção do Sr. Padre Dr. Adelino Filipe Guarda, estão a cargo da comissão da
Capela de Nossa Senhora da Graça que tem
desenvolvido um intenso trabalho com vista, designadamente, à recolha de fundos
necessários ao financiamento da construção.
Dois anos decorridos e como foi publicitado no final do ano passado,
as obras cujo valor ultrapassa os 200.000 €, foram adjudicadas a Emídio Honório
Luís Construções, do Carrascal e, começaram na passada, com o início da
demolição do existente.
Agora, para além do trabalho de construção, há muito a fazer, já
que é preciso continuar a angariar fundos para fazer face a tão elevados
encargos.
Pela minha parte, já participei em dois almoços de angariação de fundos e, correndo o risco de engordar, espero poder estar presente no próximo e nos seguintes.
Pela minha parte, já participei em dois almoços de angariação de fundos e, correndo o risco de engordar, espero poder estar presente no próximo e nos seguintes.
Início das demolições no local de construção da obra (foto de 26-01-2020)
Planta do conjunto a construir, vendo-se a sala de velório, e as áreas
de apoio com copa, arrumos e wc, incluindo wc acessível e salas para a catequese
e outras reuniões
O excelente projecto pode ser melhor visto (CTRL+Clik) no vídeo seguinte, que
se encontra publicado nas páginas de Facebook de CSLaureano Arquitectos, Lda,
em
Ou
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