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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A Rua dos Arneiros em Meados do Século XX




A Rua dos Arneiros que, a partir do Outeiro, liga à Ataíja de Baixo, é um caso curioso já que, por um lado, aparenta ser um caminho, digamos, recente, uma vez que não aparece representado no Mapa elaborado em 1791 para a construção da estrada de Rio Maior a Leiria, a Estrada de D. Maria Pia e, por outro lado, foi o primeiro caminho desta borda da serra a ser classificado como Estrada Municipal, o que aconteceu, como já disse no texto O Caminho do Concelho, pelo Decreto de 28 de Julho de 1894.

Se a classificação de 1894 se compreende no âmbito de um processo de criação de ligações radiais das povoações à sede do concelho, (na mesma data foram criadas as estradas para Chequeda e Molianos e Maiorga, Casalinho, Fanhais[i] e Pataias, entre outras) a ausência do mapa de 1891 significará que, muito provavelmente, não existia naquela data, o que implicaria que as relações entre as Ataíjas eram de baixa intensidade, talvez por um efeito barreira criado pelo olival dos frades que as separava. 

Arneiro, dizem os dicionários, é um lugar areento e estéril. Aqui, não me parece que seja especialmente areento, antes, argiloso o que, aliás, não é incompatível. E, estéril não é mas é pouco produtivo. Isso, deve-se sobretudo à pouca espessura do solo arável, sendo comum encontrar pedra a pouca profundidade (o meu pai intentou, há menos de quarenta anos, plantar uma vinha no Serrado. Além de, numa parte do terreno, ter encontrado uma grande quantidade de pedra, a vinha foi sempre muito fraca, tendo durado, apenas, cerca de vinte anos. De modo semelhante, já na Figueira Pedral, a Aire Mármores construiu recentemente um parque de estacionamento e aí se viu bem que o solo arável tinha menos de trinta centímetros de espessura, e assentava sobre uma cama contínua de pedra).

No texto A Rua das Seixeiras em Meados do Século XX, já deixei uma descrição de como era a Rua dos Arneiros naquele tempo. Vejamos agora como ela era habitada, pouco depois de eu nascer:

Começando pelo Outeiro, a primeira casa que ali existia, e ainda existe, era a de José Veríssimo e Maria da Graça (Maria da Serra), agora desabitada. Ali moravam os proprietários e dois filhos, estando os mais novos ainda por nascer.
Até ali, nenhumas construções existiam senão o pátio e eira da casa de António Matias e, do lado da serra, agora nos cómodos do José Planeta, um poço, propriedade de José Ribeiro.

Desse lado da serra, seguia-se a casa onde viviam os irmãos António e Manuel Ângelo, o primeiro conhecido pela alcunha de Rospiço, alcunha essa que é, aparentemente, corruptela de Respício, que já encontrámos como nome próprio feminino (Respícia dos Santos) e apelido. O dicionário online Priberam diz que respício significa criança magra e enfezada.
O que inicialmente era para mim uma estranha alcunha terá, assim, algo a ver com o aspecto físico da criança que foi António Ângelo.
O irmão Manuel, esse, foi conhecido por o Piquete.

Após um curto intervalo de terra agrícola, seguia-se e segue-se a casa agora de António Salgueiro e, então, de Augusto Ribeiro. Logo, colada, a casa de Maria Jorge e de seu marido António Constantino, o Toni. Ela, sobrinha do Augusto.
Em frente, um antigo lagar de vinho, propriedade do Augusto, o único lagar de vara que conheci na Ataíja de Cima. Já não trabalhava, mas ainda lá estava tudo: o lagar, a vara, o fuso e o peso.
Era uma construção ampla tendo, quer do lado do caminho quer do terreno, portões largos, por onde cabia um carro de burro e se fazia a serventia de uns terrenos encravados que ali havia, entre eles um que era propriedade de José Henrique que foi conhecido por José Neto e José Diabo.
Quando o José Diabo se resolveu a casar, era aquele o único terreno que possuía onde pudesse construir uma casa.
O Augusto já tinha falecido, a sua viúva, Maria Adelaide regressara ao Casal Pardo de onde era natural e o proprietário do lagar era agora José Veríssimo que recusou a pretensão do Diabo de fazer passar os materiais para a construção pelo seu terreno, ao lado do lagar. Que não. Que passasse por onde sempre se tinha passado. Que a serventia era pelo lagar e não lhe dava outra.
O caso só se resolveu quando o Tribunal mandou que se mudasse a construção uns metros para o lado, como ainda lá está, pagando o Diabo as despesas.

E, foi assim que nasceu a Travessa dos Arneiros.

Ao tal lagar seguia-se, menos de um metro depois (deixando apenas uma estreita passagem até à cisterna que ainda lá está, embora muito arruinada) a casa de Luís Barra e Ana Dionísio, (Denísia, dizíamos), agora em irreversível ruína.
Seguia-se, onde o meu primo João Porfírio teve o palheiro do burro, a casa onde vivia a, então, ainda jovem viúva Joaquina Cordeiro e, depois, a casa, agora também devoluta, de João da Graça Salgueiro e de sua mulher Ana Lourenço da Silva que todos conhecemos por Ana Patoixa, que aí viviam com os dois filhos. Num dos seus anexos funciona, actualmente, a Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça.
Seguiam-se a casa e os cómodos dos pais da Ana, Francisco Dionísio e Joaquina Lourenço e, depois, a casa onde eu nasci.

A Rua do Martins era, então, a Azinhaga do Martins, um caminho estreito, onde só cabia um carro de vacas entre paredes de pedra solta, e não tinha casas. Apenas olivais. O olival da Burra, o olival do Guincho, o Olival do Brilhante. Uma parte deste, onde os Faxia têm agora as suas casas era, naquele tempo, propriedade de uma irmã do meu avô Quitério que morava em Valbom e era tão cerrado que o sol quase não chegava ao chão.
Voltando à Rua dos Arneiros, passada a Azinhaga do Martins havia a casa de José Dionísio e de sua mulher Joaquina Nazaré (Joaquina, filha da Nazaré) e, logo a seguir a que tinha sido do pai dela, João Maurício, sobre a qual o Pérides, neto dele, mais tarde construiu a sua.

Voltando um pouco atrás e ao lado de Aljubarrota, a casa dos meus pais, construída em 1946, tinha (e tem) uma parede comum com a adega do meu avô, adega essa que, por sua vez, tinha sido construída, em finais do Século XIX, por um irmão da minha avó que dela queria fazer residência. Nunca o chegou a ser porque ele veio a falecer na tropa. Dizia minha avó, que de desgosto.

Seguia-se o quintal de António Lourenço, onde pontificava uma já então velha figueira que ainda lá está hoje e, estávamos na entrada da Rua das Covas.
Na esquina do lado sul, já lá estava, desde 1945, a casa de José Coelho Vigário, o José Guilhermino (o José da Guilhermina) e, dentro do seu pátio, a casa de alpendre onde ainda vivia a sua mãe, Guilhermina Vigário então já viúva do meu tio-avô António Quitério, o Mal-das-Vinhas.
Tendo falecido recentemente (05-02-2019) a ti’ Maria Marques, viúva de José Guilhermino, esta é mais uma casa inabitada.

Continuando na Rua das Covas, seguia-se o Quintal da Rosalia onde havia a única casa com o chão ainda em terra que conheci habitada na Ataíja. Aí morava então, de empréstimo, José Maurício que foi conhecido por José Rebolão, a sua mulher Emília Mariano, natural do Cadoiço e a filha mais velha, nascida no mesmo dia que eu.

Do outro lado da rua a casa de António Lourenço, o Ária e de sua mulher, Maria Quitério, minha tia-avó.
Ele também era parente, em grau que ainda não apurei, pelo lado da minha avó paterna mas, mais do que isso tinha a fama e, parece, o proveito, de ter dinheiro, fruto, talvez, dos tempos em que trabalhou como capataz ou feitor para o Raposo de Magalhães na sua quinta dos Ganilhos ou do Mirante (da estrada ainda se consegue ver, no meio do campo, por detrás de uma urbanização recente, uma pequena torre ameada, o Mirante, que servia para o capataz, lá de cima, vigiar terras, culturas e servos).
Certo é que o meu pai, quando quis fugir da vida sem horizontes da aldeia que lhe não permitia alimentar decentemente três filhos pequenos, pensou comprar uma venda de leite em Lisboa e pediu dez contos ao Ária, que lhos emprestou com dez por cento de juro a serem pagos, anualmente, em dia de Todos-os-Santos.
A minha mãe não gostava dele porque, um certo dia, falando do lado de lá da pequena parede que separava ambos os quintais, ele lhe terá dito que aquilo ainda havia de ser tudo dele, porque o João dela não ia conseguir pagar o que lhe devia.

À do Ária seguia-se a casa que tinha sido do meu bisavô e ao lado da qual um neto, o meu tio António Sapatada, tinha construído a sua, servindo agora a do avô para arrumos e como casa do ofício de sapateiro de onde lhe vinha a alcunha.

Voltando à Rua dos Arneiros, do lado da serra, depois da casa de João Maurício havia apenas um poço, o poço do Fialho. A rua onde agora são as casas do Rogério Sabino e do Carlos da Ilda e uma outra de um cidadão estrangeiro, não existia. Era uma mera serventia agrícola.
Reparei agora que, apesar de habitada, esta rua ainda não tem nome, ou pelo menos placa. Mas, bem lhe ficaria o nome de Rua do Serrado, porque por Serrado eram conhecidos aqueles terrenos.

Seguia-se a casa que ainda lá está mas também já desabitada,  de António da Graça  e Ilda Lourenço, que a construíram para  o seu casamento, celebrado em 29-10-1949.
Logo depois, havia uma antiga casa, então há muito desabitada, que tinha sido propriedade do Combasteiro e, então, já era propriedade do seu sobrinho José Lourenço, pai da Ilda.
Seguia-se, na esquina da Rua das Pedras Brancas, a casa de Francisco Machado e Luísa Gomes, ele conhecido por O Faxia e, em frente, na esquina oposta, escondida dentro de um pátio, a casa de António Catarino e Joaquina Cordeiro, conhecida por Joaquina Benta (julgo que por ser filha de um Bento), que aí viviam com os seis filhos então, ainda, todos solteiros.
No quintal do Faxia, já em plena Rua das Pedras Brancas, estava a construir-se a casa onde a filha dele, felizmente ainda viva e de boa saúde iria, logo em 1951 formar um casal com José da Graça.

Do lado de Aljubarrota, à casa de José Guilhermino seguia-se uma sequência de 3 casas: a de António Guilhermino que aí criou dez filhos, a do seu primo António Quitério que foi conhecido por António Piedade (António, filho da Piedade) e a de seus pais, a dita Piedade e o meu tio-avô José Quitério.
Nesse tempo, esta última casa era habitada pela filha solteira do casal, Joaquina, de alcunha Joaquina Piedade ou Baguinho de Milho. Posteriomente, no início da exploração do Vidraço de Ataíja, num anexo, aí morou e teve a sua forja um emigrante que exercia a profissão de ferreiro, então insdispensável, além do mais, para afiar ponteiros e picões.
Mais adiante, era a casa de José Lourenço e Ana Caseira, uma casa à maneira tradicional, oferecendo a empena à rua e à serra e com os vãos abertos a sul.  O pátio desenvolvia-se em frente à fachada principal, esta protegida por um pequeno telheiro e separada do pátio por um patim a que se acedia directamente da rua.

A seguir, ainda se vê o que resta das ruínas da casa que foi de uma sua filha que ali viveu casada com António Orelha (filho) e morreu nova. Mas, em 1950 eles ainda eram solteiros e quem ali vivia era uma irmã dele, casada com um tal Henrique, ao que parece oriundo da zona do Vimeiro. Tendo ela morrido nova, o viúvo saiu da aldeia e a casa passou a propriedade do irmão dela.

Por fim, uns cinquenta metros depois, estava e ainda está O Poço do Moura  e, junto dele, acabada de construir, no ano de 1949, como atesta a pedra da era sobre a porta de entrada, a casa onde moraram António Maurício, conhecido por António da Silvina e Maria de Matos Ângelo, conhecida por Maria Rosa.


Dali até à Ataíja de Baixo mais nenhuma construção existia.


Ou seja, cerca de 1950, havia na Rua dos Arneiros (e nas Rua das Covas) um total de vinte e três casas habitadas e uns oitenta e cinco habitantes.


A casa que foi de António Lourenço, numa foto de 2010. A porta em primeiro plano é a da adega. A casa, construída nos últimos anos do séc. XIX, não tem janelas. A única janela é da adega, está sobre o lagar e a pedra cravada na parede (poial) serve para apoiar o pé da pessoa que faz a trasfega das uvas, da tina para o lagar.







[i] No Decreto de 28 de Julho de 1894 diz-se Fanhões. É lapso. Trata-se, sem dúvida, de Fanhais que então pertencia ao concelho de Alcobaça.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Caminho do Concelho

Rua dos Arneiros


Poucos ataíjenses saberão hoje que este nome – Caminho do Concelho – já foi dado à Rua dos Arneiros como se vê de uma escritura de 1912, na qual se identifica uma certa propriedade que então pertencia a Maria de Sousa, viúva de João Coelho, como:

“uma terra de semeadura no sítio dos Arneiros que parte de Norte e Poente com Caminho do Concelho, Sul com João Maurício e Nascente com Lourenço de Moura”.

Quando li esta escritura pela primeira vez fiquei muito intrigado, pois nunca ouvira tal designação. A explicação parece encontrar-se no plano de construções de estradas que foi levado a cabo a partir de 1850.

Nesse ano, ainda no reinado de D. Maria II e sob o governo de Costa Cabral, começou a definir-se (Carta de Lei de 22 de Julho de 1850) um ambicioso plano de obras públicas que havia de ter o seu grande desenvolvimento sob Fontes Pereira de Melo e incluía uma rede de estradas reais que deveria ligar Lisboa a todas as capitais de distrito e cada uma destas às capitais de distrito próximas e aos caminhos-de-ferro e portos e cometia aos municípios o encargo de construir uma rede de estradas municipais e intermunicipais para o que veio, aliás, a ser lançado um imposto municipal sobre os residentes.


Noutra altura falaremos sobre a resistência das câmaras em aceitar a sua parte do encargo. Por agora, apenas diremos que o primeiro caminho para a Ataíja de Cima a merecer a designação de estrada municipal foi o que, como ainda hoje, vai da Lameira, pelo Carvalhal e Ataíja de Baixo, à Ataíja de Cima e aos Casais de Santa Teresa, o qual foi classificado como estrada municipal de 2ª classe pelo Decreto de 28 de Julho de 1894:

Note-se, a título de curiosidade, as dificuldades do redactor com a palavra Ataíja.

Entenda-se a maior importância que o município deu a esta estrada, em detrimento da ligação a Aljubarrota que hoje nos pareceria mais lógica: O que a Câmara pretendia era a definição de uma rede de caminhos radiais que conduzissem das povoações à sede do concelho.

Note-se, ainda, que a classificação desta estrada não parece ter implicado, pelo menos na parte entre a Ataíja de Baixo e a Ataíja de Cima, a sua efectiva conformação com os requisitos técnicos mínimos legais aos quais, tanto quanto me lembro, ainda nos anos de 1960 não obedecia (não possuía, designadamente, em muitos pontos, a mínima largura de livre trânsito de 4 metros, exigida no Decreto de 31 de Dezembro de 1864).

Lembre-se, por outro lado que, na parte entre a Ataíja de Cima e a Ataíja de Baixo este é, em qualquer caso, um caminho moderno que, como já assinalámos (ver aqui) parece que ainda não existia no final do Séc.XVIII.

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domingo, 19 de junho de 2011

A classificação como estrada municipal, do caminho entre Aljubarrota e a Ataíja de Cima

(actual estrada municipal n.º 553 - Estrada do lagar dos Frades)


Em 1897, três anos depois da classificação do caminho entre a Lameira e os Casais de Santa, passando por Carvalhal, Ataíja de Baixo e Ataíja de Cima, como a primeira estrada municipal que serviu a nossa aldeia, (assunto a que nos referimos no post anterior), prosseguia o trabalho de definição da rede de estradas do concelho de Alcobaça.

Assim, o decreto de 1 de Fevereiro de 1897, acrescentou à rede mais um conjunto de caminhos, entre os quais o caminho de ligação entre Aljubarrota, o Cadoiço e a Ataíja de Cima (actual estrada municipal n.º 553), com o que se abandonou o caminho secular que, pela actual Rua da Ponte, ìa até às Marmeleiras (mais ou menos onde actualmente decorrem trabalhos para exploração de gás natural) sítio onde, como ainda agora, se cruzava com acessos ao Mogo e ao Cadoiço e, daí, subia até São Vicente.



Veja-se como o redactor continua a ter problemas com a palavra Ataíja: se no decreto de 28 de julho de 1894 escrevia “Ataya”, agora usa o não menos incorrecto “Ataeija”.

Repare-se que, das estradas que constam do decreto, algumas se referem a localidades que, hoje em dia, se encontram no município de Porto de Mós.
Isso deve-se ao facto de, em 1897, todas pertencerem ao concelho de Alcobaça, já que o conselho de Porto de Mós foi extinto por decreto de 7 de setembro de 1895. A extinção foi, no entanto, de curta duração, tendo o concelho de Porto de Mós sido restaurado, menos de três anos depois, pelo decreto de 13 de janeiro de 1898.
Durante este curto período passaram para o concelho de Alcobaça a maioria das freguesias de Porto de Mós, incluindo a sede e excluindo Alqueidão da Serra que passou para o concelho de Leiria e Minde e Mira (de Aire) que passaram para o concelho de Torres Novas.
Pelo mesmo decreto de 7 de setembro de 1895, o concelho de Alcobaça perdeu as freguesias de Alfeizerão, Famalicão (é hoje uma das três freguesias do município da Nazaré) e São Martinho do Porto que passaram para o concelho das Caldas da Rainha.

 
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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Um cirurgião no Carvalhal


Em 27 de Outubro de mil oitocentos e dois, já lá vão quase duzentos e dezoito anos, foi enterrado dentro da Igreja Paroquial de São Vicente de Aljubarrota, António Francisco da Silva, casado, com Luísa Francisca, moradores na Ataíjade Baixo.

Era Pároco de S. Vicente o Cura Thomás de Aquino da Costa que foi, de todos os padres que paroquiaram a freguesia nos últimos duzentos e cinquenta anos, o de melhor caligrafia. Uma letra bonita e clara, que nos permite ler sem a mais leve dúvida tudo o que escreveu, para grande sorte de todos os que escarafuncham nos assentos paroquiais, à procura de pedacinhos da história da gente comum.

Sobre o morto, o padre nada nos diz para além do seu nome, do nome do seu cônjuge e da localidade onde residiam. Não sabemos qual era a sua profissão, que idade tinha, nem porque morreu, ou onde nasceu, ou quem foram os seus progenitores, se deixou filhos ou não.

Em contrapartida, explica-nos detalhadamente as razões por que o António Francisco da Silva faleceu sem sacramentos e, apesar disso, foi enterrado dentro da igreja paroquial.
Para percebermos as razões é preciso lembrar-nos de que, em 1802, nos encontrávamos, ainda, em pleno Antigo Regime, não havia separação entre a Igreja e o Estado, a religião oficial do país, obrigatória para todos os nacionais, era a religião católica e havia multas para quem fosse responsável pela não administração dos sacramentos ao moribundo. 
A preocupação do padre era a salvação da alma do falecido e, por isso, o seu estado de graça. Daí, a longa explicação para o facto de ter falecido sem sacramentos:

“... não recebeo os sacramentos por afirmar o cirurgião Manuel Luis Cordeiro do Carvalhal Freguesia de Prazeres desta dita Villa ...”

E, eis aqui duas passagens interessantes: uma, que o doente foi assistido por um cirurgião, outra, que no Carvalhal havia um cirurgião.

Um cirurgião, naquele tempo, não era a mesma coisa que um cirurgião hoje. Desde logo, “... a cirurgia era extra-universitária. Aprendia-se fora da Universidade – o que não impedia que um médico pudesse também ser cirurgião”[i]. O doente era visto “como um corpo dividido em duas partes, interna e externa, sujeitas a diferentes patologias, alvo da atenção diferenciada do Médico e do Cirurgião”[ii] e, como se isso não bastasse, a situação era, na realidade, bastante pior “… ao lado dos médicos saídos da única Faculdade do País, a da Universidade de Coimbra, … havia …os cirurgiões mata-sanos ou inchacorvos, os barbeiros sangradores, os curandeiros idiotas, os algebristas, os boticários, as parteiras, os oculistas, os dentistas…”[iii]

No final do século XVIII já há notícias da existência de, pelo menos, dois cirurgiões no concelho de Aljubarrota. Um no Carvalhal, identificado num assento de 1785 como Manuel Vicente, provavelmente o mesmo Manuel a que este assento se refere e, outro, o cirurgião do partido, quer dizer, o cirurgião contratado pela Câmara do Concelho, também com o encargo de assistir gratuitamente aos mais pobres, o qual foi identificado em 1784 como João da Silva e em 1788 como José da Silva, tratando-se, certamente, da mesma pessoa. Em 1803, há notícia de um outro cirurgião no concelho de Aljubarrota e freguesia de S. Vicente: António Ribeiro, nos Chãos.

O ensino da Cirurgia era, naquele tempo, inteiramente distinto do ensino da Medicina que se ensinava na Universidade de Coimbra e conferia o grau e as vantagens de Doutor, enquanto a cirurgia só ganhará foros universitários com a criação da escolas médico-cirúrgicas de Lisboa e Porto, pelo governo presidido por Passos Manuel, em 1836.

O ensino da cirurgia fazia-se em ambiente hospitalar, em especial no Hospital Real de Todos-os-Santos e, depois do terramoto, no Hospital de São José, em Lisboa.

Para a admissão no respectivo curso exigia-se, além do mais, que os candidatos a cirurgiões soubessem ler e escrever português. Esta exigência não é de somenos. O ensino universitário fazia-se, então, em latim[iv]. O ensino da cirurgia, que era essencialmente um ensino prático, era feito nas línguas nacionais. Os estudantes de medicina eram gente das classes abastadas que tinha podido dedicar-se à aprendizagem prévia do latim. Os cirurgiões eram, na generalidade, pessoas de origem popular, barbeiros, como o francês Ambroise Paré[v] ou o português Manuel Constâncio[vi]


E, o nosso padre continua com as explicações:

“... que o dito defunto não tinha necessidade de Sacramentos porque a moléstia não era de perigo e por certificar isto a dita sua mulher e filhos, que querião sacramentare elles me não vierão chamar para lhe ministrar os Sacramentos, e sem embargo de tudo isto da dita moléstia morreo ...”

Infelizmente e ao contrário do que acontece noutros casos, desta vez o padre não dá qualquer indicação sobre a natureza da moléstia de que sofria e de que morreu o falecido. Ficamos, apenas, a saber que o seu estado de saúde se agravou repentinamente.

Finalmente, o padre conclue:

“... e informando-me com pessoas de fé achei não haver culpa em nenhum dos sobreditos”

Ou seja, não assaca responsabilidades ao cirurgião pelo óbvio erro de diagnóstico e do mesmo passo inocenta os familiares, livrando-os da responsabilidade de não terem chamado o padre, por confiarem no cirurgião. 
É que a lei previa multas para os familiares responsáveis pelo não chamamento atempado do padre para administração dos Sacramentos ao moribundo e, em caso de negligência ou culpa, essas multas eram efectivamente cominadas. Foi o que aconteceu, por ex., a Rosa Maria, mulher de Manuel de Sousa Tomásio, dos Casais de Santa Teresa, falecido em 22-7-1804, a qual foi condenada porque "não chamou a tempo em que ele estava em seo juízo para eu lhos hir administrar"

Neste caso, como em geral em todos que contenham matérias que envolvam terceiros, as declarações do padre são abonadas por testemunhas:

“Testemunhas: Miguel Francisco e António Vicente da dita Ataija ...”



[i] Salvador Dias Arnaut, citado in José Manuel Vasconcelos, “Antecedentes da Escola Médico-Cirúrgica do Porto. A caminho da fusão da Medicina com a Cirurgia. Etapas da afirmação institucional de uma profissão” História. Revista da FLUP Porto, IV Série, vol. 4 - 2014, pp 241-269, PDF disponível online em http://ojs.letras.up.pt/index.php/historia (consultado em 26-06-2020)
[ii] Ribeiro Sanches, citado in José Manuel Vasconcelos, loc. cit.
[iii] Idem, idem.
[iv] O que permitia que professores, alunos e todo o conhecimento universitário, circulassem facilmente pela Europa. Curiosamente, na actualidade caminhamos para situação semelhante, com cada vez mais cursos universitários a serem ministrados em inglês, o latim do nosso tempo.
[v] Fiolhais, Carlos “Sobre o início da cirurgia no mundo e em Portugal” conferência, Revista Portuguesa de Cirurgia, n.º 29, Lisboa jun. 2014, disponível online em http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-69182014000200009
(consultado em 1-7-2020)
[vi] Graça, L. – Valorização Técnica e Social da Cirurgia no Antigo Regime – disponível online em https://www.ensp.unl.pt/luis.graca/textos69.html (consultado em 1-7-2020)


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A ATAÍJA DE CIMA EM MEADOS DO SÉC. XX - uma visão pessoal

No início dos anos cinquenta do Séc. XX, quando comecei a ter entendimento das coisas que me rodeavam, na Ataíja de Cima que, então, tinha uma economia ainda exclusivamente agrícola (exceptuava-se a família de Manuel Rei de Carvalho, o Sarrano(1) que vivia do comércio e, de todo, não trabalhava a terra que, aliás, não tinha), havia três grupos de famílias relativamente estanques(2), quase classes ou grupos sociais.

No topo da estrutura social ficavam a família de Luísa Ribeiro, a Viúva,  e a de seu primo, José Ribeiro. Viviam da exploração de terras próprias e dos rendimentos obtidos através das maquias que cobravam nos lagares de azeite(3) que possuíam, lado a lado, na margem nascente da Lagoa Ruiva(4).

A família não trabalhava na terra ou trabalhava pouco, todo o trabalho era realizado por criados e outros contratados, a Luísa Ribeiro mantinha um abegão em permanência e, sazonalmente, um chefe do rancho de apanhadores de azeitona e um mestre do lagar e em casa havia sempre algumas mulheres, sendo que os demais trabalhadores eram contratados ao dia, de acordo com as necessidades. Para se ser contratado era, naturalmente, conveniente estar nas boas graças do patrão e fazer-lhe “pequenos” favores, como por exemplo, ao Domingo regressados da missa em São Vicente, ir rapidamente a casa trocar de roupa e ceifar erva fresca para o gado antes do almoço.

Na casa de José Ribeiro as coisas passavam-se semelhantemente, com uma junta de bois(5) a trabalhar exclusivamente para a casa, onde era hábito contratar, para a apanha da azeitona, um rancho dos Montes que, durante aqueles dias, se aboletava no primeiro andar da casa alta. Outros trabalhos exigentes de mão-de-obra abundante, como as vindimas, contavam por vezes com trabalho gratuito (talvez pagamento de favores difusos que a minha juventude não permitia identificar) de outros aldeões. Lembro-me de uma vez ir com a minha avó, já velha, vindimar para o José Ribeiro numa vinha que tinha nos Vales. O dono da casa não vindimava, passeava-se por ali, sobre os pés chatos, biqueiras bem lançadas para fora, como o Charlot, de espingarda às costas e, às tantas, tendo surgido um coelho, meteu a espingarda à cara, disparou e falhou – parece que era mesmo fraco atirador – e desatou a gritar aos cães: agarra cão, agarra cabrão, agarra punheta… e mais um chorrilho de palavrões que me abstenho de reproduzir.

A junta do José Ribeiro era a única junta de bois machos existentes na aldeia. Para além disso, havia algumas, poucas, juntas de vacas e outras tantas de bezerras(6). Exclusivamente para transporte(7), quer ao carro quer em ceirões ou cangalhas, havia uma ou duas mulas ou machos e diversos burros, sempre um único animal por casa, à excepção do António Piedade e da Joaquina Coelho que tinham carros puxados por dois burros. Os outros tinham um burro e um carro e alguns, mais pobres, apenas um burro e o carro era, quando estritamente necessário, por exemplo para ir buscar uma barrica de água à lagoa(8), pedido de empréstimo.

No telhado da casa alta do José Ribeiro, sobre uma plataforma de cimento, rodava um moinho (aerogerador) que produzia a electricidade(9) necessária para fazer funcionar a única telefonia da aldeia.

Tratando-se, embora, das famílias mais ricas da aldeia, não significava que levassem vida opulenta. É certo que o José Ribeiro costumava dizer que nunca quereria ver os ratos magros lá em casa (o que significaria que se tinha esgotado o cereal no celeiro) mas a vida era modesta. Era célebre a má qualidade do vinho que disponibilizava aos trabalhadores (na verdade não era vinho mas, antes, uma água-pé reles, feita da repisa do pé da prensa a que se adicionava água e que, mal o tempo aquecia, antes do início da Primavera, ficava choca). Também na comida, as coisas eram parcimoniosas. Ouvi muitas vezes contar que a sua mãe - que era mulher de voz grossa - um dia, à ceia, perguntou aos criados de casa: Querem mais? E, tendo-se ouvido um tímido: Queremos, sim Senhora, tonitruou: Alimpam bem sem vento! E se era assim com os criados, não era muito diferente com os donos da casa que, além dos produtos da terra(10) e da matança do porco, apenas chegavam, de vez em quando, como toda a gente, a umas sardinhas(11), uns chicharros ou uns carapaus secos(12).

Perto destas duas famílias, estava a de Francisco dos Casais, cuja mulher era filha de Matias Ângelo e possuía, por isso, um quarto do Olival dos Frades e o lagar de azeite fundado pelo pai, além de diversos outros terrenos. Era uma família numerosa, com dez filhos(13). Tanta gente já dava muito trabalho a sustentar e por isso todos trabalhavam também, mas apenas nas próprias terras e nunca nas terras de outrem. Mas aqui já dava para perceber que as terras não podiam assegurar o futuro de todos. Assim, o filho Rafael(14), o mais velho, foi aprender a bate-chapa e um outro, o João(15) , a sapateiro e a filha mais nova, Luísa, fez alguns estudos e foi, durante muitos anos, funcionária do Instituto Nacional de Estatística, em Lisboa. Actualmente reside na aldeia apenas uma filha, Piedade, solteira.

A um nível semelhante, a casa de Francisco Dionísio, que era casado com Joaquina Lourenço, filha de António Lourenço que trabalhou para Raposo de Magalhães, de quem foi caseiro ou algo semelhante (lembro-me de o associarem à grande vinha que havia na subida dos Ganilhos, na quinta do Mirante. O mirante ainda lá está, agora por detrás da urbanização de recente construção).

O Francisco Dionísio mantinha abegão, um tal Gonçalves, como criado de cama e mesa. Lembro-me das debulhas, na eira junto ao quintal que foi do meu pai, tempos de brincadeira quando era permitido às crianças rebolarem-se nos cereais ou passear sentadas no trilho(16) (nos palheiros das vacas houve, depois, um café e mais tarde o restaurante Rapó-Tacho). Quando faleceu deixou largas somas em dinheiro tendo sido encontrada, escondida dentro de uma vasilha cheia de folhelho(17), uma caixa de lata com algumas centenas de contos em notas.

Seguia-se na escala social um pequeno e mais heterogéneo grupo de famílias que viviam, essencialmente da exploração das terras próprias que eram tratadas pela família. Só muito raramente contratavam mão-de-obra e, em regra, não trabalhavam para fora, salvo ao dia trocado(18).

Abaixo destas, as famílias verdadeiramente de poucas terras e, portanto, de poucas posses. As terras próprias eram, apenas, um complemento, às vezes mínimo, insuficiente para sustentar a família que, assim, vivia essencialmente de andar fora(19).

Os artistas locais situavam-se em geral a este nível, tinham poucas terras que, aliás, pouco trabalhavam e ficavam a cargo da família e viviam, pobremente, do ofício(20) (ou ao contrário, viviam pobremente das escassas terras e tinham um complemento de rendimento nos trabalhos, ocasionais, próprios do ofício).

E havia o carreiro, Sabino Vigário que vivia de andar fora com a sua junta de vacas , a lavrar, ou a fazer transportes com o carro(22).

Para os mais pobres, os que tinham de aproveitar todas as oportunidades de andar fora, havia às vezes, sempre e apenas nas épocas das sementeiras e das colheitas, trabalho nas grandes quintas junto a Alcobaça(23), no Magalhães ou no Rino. O meu avô Agostinho tinha um problema suplementar: Era pai de cinco filhas e, naquele tempo, uma mulher ganhava no campo, metade da jorna(24) de um homem(25). Era, pois, preciso aproveitar tudo e por isso, as minhas tias muitas vezes percorreram a pé, duas vezes ao dia, com outras mulheres da aldeia, o caminho que vai da Ataíja até à quinta do Rino, à entrada de Alcobaça(26). À minha mãe que, antes de 1940, ainda não tinha idade para ganhar a jorna, competia partir mais tarde, levando à cabeça, num cesto de verga, o jantar das irmãs que a mãe, entretanto, tinha cozinhado.

Vivia-se então, na Ataíja, mal e porcamente(27) e a ilha que era a minha aldeia, como todas as ilhas, expulsava os que não podia sustentar(28).

Alguns casavam para fora, como o meu tio-avô António que vivia nos Milagres ou o José Matias que foi para os Olheiros e o irmão Manuel que foi para o Mogo, outros que foram para a Ataíja de Baixo ou os Casais de Santa Teresa. Mas o casamento também trouxe pessoas para a Ataíja e desconheço o saldo.

Houve alguma emigração para a América no princípio do Séc. XX(29) , alguns homens que foram sós, sem família e retornaram. Um meio-irmão da minha avó emigrou para a Argentina e por lá ficou e lá morreu velho. Curiosamente, que eu saiba, ninguém para o Brasil. Fora isso, mais uma pessoa ou duas, nada de muito significativo.

A emigração era, essencialmente sazonal: homens para a vindima na região do Bombarral(29), para a azeitona ou as ceifas em Lisboa(31), onde o meu tio António Sapatada foi, durante trinta e cinco anos seguidos, aumentador da enfardadeira do Zé dos Engraixados(32), a enfardar feno em Telheiras e arredores. Um rancho de mulheres ia para as ladroas e as vindimas no Ribatejo(33). Estas ausências da aldeia duravam, por vezes, bastante tempo chegando-se a ir, directamente, das vindimas no Bombarral para a azeitona em Lisboa(34).

Alguns foram para Lisboa, onde até ao último quarto do Séc. XX a emigração era especializada por regiões: Diz-se que as pessoas que recolhem o lixo são chamadas almeidas por os primeiros terem vindo dessa região. É certo que os patos-bravos são os tomarenses que emigraram em massa(35) para a construção civil que dominaram. Que as tascas eram de galegos ou minhotos. Que os padeiros eram de Tábua. Destes todos, os menos inteligentes foram os alcobacenses que se tornaram leiteiros(36). O meu pai e a minha mãe foram leiteiros e está, felizmente, vivo o Luís da Graça que também o foi. Eu próprio vendi muito leite às portas das casas no Bairro das Colónias(37) e aí conheci leiteiros de Aljubarrota, e de todas as aldeias junto à Serra, da Ataíja aos Molianos.

E haviam os vaqueiros; Uma vez que resolvi percorrer a Ataíja fotografando tudo deparei, curioso, com a cisterna de Manuel Luís(38). Na primeira oportunidade interpelei o filho José da Graça que fazia o favor de me tratar com consideração e amizade e perguntei-lhe como é que o pai dele, tendo de sustentar um rancho de filhos, tinha conseguido arranjar dinheiro para uma cisterna assim. Ao que me explicou que os irmãos Manuel e João Luís tinham um negócio curioso: Eram vaqueiros de uma mesma vacaria em Lisboa onde faziam, alternadamente, turnos de três meses. Quando um estava em Lisboa estava o outro na Ataíja, aqui com a incumbência de tratar do bom cultivo das terras e apoiar as famílias de ambos(39).

Outros casos houve, naquelas épocas, de emigração para a região de Lisboa: Filhas de gente pobre foram para criadas e houve, também, rendeiros de quintas como José Coelho, em Camarate.

No final dos anos cinquenta do Séc. XX, a Ataíja secular, exclusivamente agrícola, entrou no processo de transformação que a trouxe até ao progresso. Em Setembro de 1958, Luís da Graça resolveu abandonar Lisboa, onde era leiteiro e retornar à aldeia(40) e dedicar-se à extracção do vidraço. Essa pedra que durante séculos amaldiçoámos por só servir para tornar os terrenos improdutivos, era afinal, a riqueza que estava debaixo dos nossos pés e não o sabíamos. Pouco tempo antes já João Veneno tinha começado a exploração. Seguiu-se a abertura da fábrica de faianças da Safaril e depois, mais fábricas, mais pedreiras, emprego para toda a gente e mais gente houvera e, não havendo, tiveram de vir de fora(41).
__________________________________
NOTAS:
 (1) Ambos os membros do casal eram sarranos. Durante muito tempo, vinham até à Ataíja sarranos com uma carroça, às vezes montados, apenas, numa mula, negociar. Traziam pano e compravam ovos. Esse movimento continuou mesmo muito tempo depois de Manuel Rei de Carvalho aqui se ter estabelecido, por compra da taberna que era do Alfredo (filho de Matias Ângelo). Ainda há pouco, como durante décadas, por aqui aparecia o José Palmiro.
(2) Passar de um a outro grupo era tarefa difícil que a maioria nem sequer ousava tentar. Ainda há quem esteja solteiro pela única razão de serem muito díspares as dimensões das respectivas terras familiares.
(3) Ainda nos anos sessenta, entre produção própria e maquias, a casa de Luísa Ribeiro juntava cerca de quarenta pipas (vinte mil litros) de azeite.
(4) O lagar de Luísa Ribeiro, agora propriedade de seu filho Francisco Vigário, ainda trabalha (2009).
(5) Todas as juntas tinham as suas campainhas e chocalhos, cada uma com sua afinação. Naqueles tempos em que não havia motores nem outras fontes de ruído que não a actividade humana, o chiar dos porcos, o cantar do galo e o chilrear dos pássaros, ouviam-se a grande distância os chocalhos e, pela música, se identificava o proprietário.
(6) Bois, vacas bezerras, a importância das famílias reproduzia-se no tamanho dos bovinos.
(7) Ao contrário de outras regiões, por aqui nunca se usaram muares na lavoura que a isso se não prestava a dureza da terra.
(8) No livro Mosteiro e Coutos de Alcobaça - Aguns Capítulos Extraídos dos Manuscritos Inéditos do Autor e Publicados No Centenário do seu Nascimento, de M. Vieira Natividade, Alcobaça, 1960, está uma fotografia, de uma cena que eu próprio observei muita vez (vê-se, nela, o telhado já em ruína do Lagar dos Frades que, no início dos anos cinquenta do Séc. XX, já não existia).
(9) Fora isso, apenas nos lagares havia electricidade que garantia uma fraca iluminação e era obtida através de um dínamo acopolado ao motor diesel que fazia funcionar as mós e a prensa hidráulica.
(10) Os produtos da terra eram e são, fortemente condicionados pela extrema secura do terreno. Não havendo possibilidades de regar, não havia, no Verão, qualquer espécie de verdura. Só as couves galegas (couves de horto, como por aqui se dizia) mas, mesmo estas, não se podiam comer em Agosto de duras e secas que estavam. Provérbio local: Se queres ver o teu homem morto, dá-lhe sardinhas em Maio e couves em Agosto.
(11) O peixe vinha de Alcobaça à segunda-feira, dia de mercado. No mais, aparecia por vezes na aldeia uma pexineira que fazia o caminho da Nazaré a Aljubarrota na carreira dos Capristanos e, daí até à Ataíja, o transportava a pé, à cabeça, em três canasta de verga sobrepostas. Lembro-me bem da Tanoeta e de uma outra, julgo que Deolinda, cuja filha ainda há poucos anos vendia no mercado de Alcobaça.
(12) Há quem sustente que o José Sarrazina, filho de Luísa Ribeiro, por mais de uma vez e em conluio com a criada espetou um alfinete na cabeça de uma galinha, como única solução para a poder comer (aplicava-se a estes ricos o provérbio brasileiro: “quando pobre come galinha um deles está doente”).
(13) Uma ou duas freiras.
(14) Casou nos Molianos onde abriu oficina e o restaurante Arco da Memória. Foi vítima de um grave acidente de viação no qual faleceu o então presidente da Bolsa de Valores de Lisboa, Dr. Veiga Anjos.
(15) Emigrou para Lisboa, foi durante muito tempo motorista particular do Conde Bobone e, posteriormente, tornou-se motorista de táxi. Este João e o Chico Russo, foram os primeiros ataíjenses a ir para Angola, para a guerra colonial.
(16) O trilho era um fabuloso instrumento de descasque de grãos. Era rebocado pela junta de vacas e tinha em vez de rodas dois ou três rolos com pitões rodando debaixo de uma plataforma onde havia um banco corrido a toda a largura do aparelho.
(17) Folhelho é a casca, seca, das uvas que se guardava para dar aos animais no Inverno.
(18) O dia trocado consistia em duas ou mais pessoas, de famílias diferentes (por vezes as famílias inteiras), irem num ou mais dias fazer um determinado tipo de trabalho para uma família que, no dia ou nos dias seguintes o retribuíria. Criavam-se, assim, ranchos de média dimensão que permitiam aumentos sensíveis de produtividade.
(19) Trabalhar fora de casa, fora dos terrenos da família, trabalhar para outra família: “amanhã vou andar fora, para o José Ribeiro”.
(20) Eram poucos: Manuel Lérias, carpinteiro; João Redondo, sapateiro, o sobrinho dele e meu tio António Coelho Quitério (Sapatada), sapateiro, Manuel Veríssimo, pedreiro, mais tarde, também pedreiro, José Dias, Manuel, serrador. O ferreiro era na Ataíja de Baixo, o ferrador era o Manuel da Casaca, da Cumeira de Baixo, ou o Barata. A minha tia Angélica era modista. Em casa do Petinga, na de Maria Coelho e na de Maria Branco, havia teares que no meu tempo já não trabalhavam e que, antes, só faziam mantas de trapos. Gatear pratos e alguidares e consertar chapéus de chuva era trabalho de galego. Às tantas havia um funileiro, o Tentilhão que trabalhava numa casa do Alfredo e numa outra casa deste Alfredo, a casa da Calçada, o Pirisca teve oficina de sapateiro. Outras pessoas havia especialmente aptas para um determinado tipo de trabalho, mesmo no campo. Lembro-me que Manuel Branco era tido por um bom podador de oliveiras. Mas isso não era ofício.
(21) Cada vaca ganhava por um homem pelo que um dia de carreiro custava o equivalente a três homens/dia. Acrescia o almoço do carreiro que era melhorado: arroz ou massa de meada com grão e um apontamento de bacalhau.
(22) Não havia outro meio de transporte pelo que tudo ía no carro das vacas: pedra, terra e areia (extraída na Serra, no areeiro do Piquete) para construção, cereais para a eira e uvas para o lagar, mato para as estrumeiras.
(23) Junto à Ataíja, em toda a zona que hoje borda o IC2 (Estrada Nacional n.º 1) também havia grandes propriedades, muitas de proprietário ausente mas, totalmente ocupadas por olivais, não eram grandes utilizadoras de mão-de-obra, salvo na época das colheitas.
(24) Pagamento da jornada. O pagamento do trabalho de um dia (de sol a sol, quer dizer, do nascer ao pôr-do-sol).
(25) Certa vez, em Vale do Coelho, Mação, ouvi contar a história de um local que, no tempo da segunda guerra mundial, tendo também cinco filhas, batalhava pela vida trabalhando, sol a sol, de segunda a sábado, nas propriedades de Pequito Rebelo, no Gavião, do outro lado do rio. Ganhava para um saco de farinha com que coziam o pão semanal e ficava a dever ao latifundiário, em cada semana, vinte escudos.
(26) Algumas vezes fiz este percurso, também a pé, para ir ao mercado a Alcobaça. Ía-se por um caminho que ainda existe e começa em Aljubarrota, entre a estalagem e a bomba de gasolina.
(27) Expressão que aqui me parece bem a propósito (em rigor, o que se quer dizer é mal e parcamente, com pouco).
(28) Vivia-se mal em todo o concelho de Alcobaça e em todo o Portugal, nesse tempo. Em 1950, os estrangeiros representavam, em Portugal Continental, apenas 2,6/mil da população e, na região a oeste da serra dos Candeeiros, não ultrapassavam o máximo de 1,1/mil. Mesmo quanto à naturalidade, era o concelho de Alcobaça que, na região, tinha a maior percentagem de população natural do próprio concelho, 89,5%, o que diz bem do baixíssimo grau de atractividade da região. (A Região A Oeste da Serra dos Candeeiros, p. 117)
(29) O marido de Maria Coelho, o sogro da minha tia Angélica e outros. Um dia observei à minha tia Angélica uma coisa estranha: quando se entra na casa (que ainda existe), a nascente, do lado direito da porta, há dois quartos mas a parede que os separa da casa de fora não é, como de costume, de tabique, mas uma grossa parede de pedra, como se fora uma parede exterior. A minha tia explicou: Esses quartos não existiam. Foram construídos pela sua sogra, justapostos à casa pré-existente, com dinheiro que o sogro mandou da América.
(30) O meu pai, como muitos outros do seu tempo, vindimou por todos os concelhos do Bombarral, Cadaval e Alenquer, deslocando-se a pé, de aldeia em aldeia, a procurar trabalho, dormindo onde calhava (uma vez numa arribana, sobre molhos de vides).
(31) Ía-se, muitas vezes, sem destino e sem patrão. Como ainda hoje, aliás, a “feira dos homens” era no Campo Grande. Juntavam-se os homens e vinham os rendeiros ou os capatazes das quintas e, de entre os mais fortes, os já conhecidos e os amigos destes, escolhiam o número de homens de que precisavam para as tarefas concretas a executar.
(32) Contingências do ofício de sapateiro, em aldeia onde todas as crianças e mulheres (incluindo a dele próprio) andavam descalças.
(33) Durante anos, o meu tio Joaquim Matias organizou um rancho que se deslocava, em Maio e em Setembro, para Porto de Muge.
(34) Por volta de 1936 o meu tio Sapatada foi com o irmão (José Francês) vindimar para o Bombarral. Acabada a safra, deixou o irmão, então com dezoito anos, na estação das camionetas e recomendou-lhe que voltasse para a terra, a ajudar o pai que ele ía para Lisboa, para a apanha da azeitona. O Francês disse que sim mas apanhou a camioneta seguinte para Lisboa. Voltou à Ataíja passados dez anos, onde assistiu ao casamento do meu pai, tendo regressado logo a Lisboa. Seguiu-se a emigração clandestina (transportando um saco de mercadoria às costas como se fora estivador) para Marrocos, num barco carregado de casca de carvalho para a indústria de curtumes. Aquando da independência de Marrocos, já viúvo e com três crianças, duas delas gémeas, de colo, foi para França, onde ficou a trabalhar de carpinteiro, até à reforma, quando voltou a viver na Ataíja.
(35) Essa emigração teve importantes consequências na paisagem tomarense, onde o pinheiro alastrou quer por falta de braços para trabalhar a terra quer porque a construção civil era grande consumidora da madeira que era utilizada para prumos, cofragens e andaimes e, com frequência, em limpos: Tectos e soalhos e portas e janelas.
(36) A profissão não era boa e estava em vias de extinção e ninguém ganhou dinheiro que se visse.
(37) A minha mãe tinha, na Rua de Timor, uma cliente cujo marido usava monócolo. Um dia toquei à campainha e veio Sua Excelência que, sem sequer cumprimentar, gritou para dentro, para a criada: Maria! Companhia das águas! Tive, do alto dos meus dez anos, vontade de esganá-lo. Não o esganei mas insisti com a minha mãe para deixarmos de o fornecer. Afinal, convenceu-se ela, era subir a pé um segundo andar para vender um quarto de litro de leite e ganhar um tostão!
(38)Tem uma pequena placa com a data de construção: 192…
(39) Havia sempre alguém da Ataíja a tratar de vacas leiteiras em Lisboa. O último foi Francisco Jorge que conheci responsável por trezentas vacas de leite na Quinta do Carmo, agora cheia de armazéns, ali nas traseiras do Bairro da Portela.
(40) Lembro-me bem porque fomos ocupar a parte de casa onde vivia o Luís da Graça, na cave do n.º 28 da Rua Luís Monteiro, no Alto do Pina, num prédio que já não existe. Eu, que até aí tinha vivido na Ataíja com a minha avó Maria Lourenço, tinha chegado na véspera a Lisboa, para ir para a quarta classe e fazer o exame de admissão ao Ensino Técnico Profissional. Em troca, o Luís da Graça instalou-se na Ataíja em casa de meu pai, onde ficou até concluir a sua própria.
(41) Entretanto, faliu a maioria das fábricas de faiança mas, da Ataíja industrial, falaremos noutro texto.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A minha avó e o Marquês de Pombal




Pode estabelecer-se uma ligação entre Sebastião José de Carvalho e Melo, o todo-poderoso Ministro de D. José I, Conde Oeiras e Marquês de Pombal e a Ataíja de Cima porquanto, no âmbito da sua política de modernização do sistema produtivo em Portugal, não descurou a agricultura sendo no seu tempo que, sob a direcção do então abade geral da Ordem de Cister, aliás seu sobrinho,  Frei Manuel de Mendonça[i], foi mandado plantar um extenso olival e construído um moderno (para o tempo) lagar de azeite de que hoje sobram ruínas conhecidas por a Casa do Monge Lagareiro.

Pombal quis, à viva força, tornar Portugal um país moderno pelo que, entre os seus poderosos inimigos estavam todos os avessos à mudança: a Nobreza que perdeu privilégios ou foi mesmo sentenciada e perdeu tudo (caso dos Távora), o povo do Douro que se amotinou contra a criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, os Jesuítas e outros clérigos.

Após a morte de D. José I, o velho Marquês caiu em desgraça e foi remetido para Pombal e regressaram ao poder as velhas forças conservadoras que tanto tinha afrontado.
Rejubilando com a queda e o exílio do velho leão e julgando que os velhos tempos tinham regressado (e, os velhos tempos nunca regressam) fizeram reviver por uma vez a Inquisição e, nesse ano de 1781, em autos-de-fé realizados em Coimbra e Évora foram queimadas vivas 25 pessoas.
Terá sido por esse tempo que o Marquês, a caminho do exílio em Pombal , terá passado por aqui perto uma última vez.  

O que tem a minha avó a ver com isto, perguntarão?
Tem que, também as estórias que vos vou contar revelam esse carácter muito português que é a capacidade de conjugar a fé com o anticlericalismo, pecado que o Marquês parece ter cometido e, vejo agora, talvez, também, a minha avó.

A minha avó, mulher de fé que nunca iniciava uma refeição sem orar em agradecimento, nem  se deitava sem encomendar as almas dos familiares falecidos, que ia à missa aos Domingos e dias Santos e me ensinou os Mandamentos que rigorosamente toda a vida cumpriu, gostava do Marquês e não gostava de Jesuítas.
Nas longas noites de Inverno, vão lá sessenta anos ou quase, depois da ceia, sentavam-se o menino e a velha ao aconchego da lareira e, era então que, como já o sabem os leitores deste blog, a minha avó me contava histórias.

Contava-me ela, deliciada, como o Marquês tinha enganado o Embaixador espanhol ao levá-lo, perante as ameaças de invasão, para a varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, na pequena e fechada Praça do Município, a fim de assistirem a uma parada militar.
Sendo os efectivos do exército português diminutos[ii], o astuto marquês pôs os militares a andar em círculo e a mudar de fardamentos quando se encontravam nas traseiras dos edifícios.
Depois de três ou quatro passagens, estando o embaixador já intimamente convencido de que seria perigosa aventura enfrentar tão grande exército, o Marquês colocou-lhe paternalmente a mão sobre o ombro e segredou-lhe ao ouvido:

E saiba mais Vossa Excelência que, cada um em sua casa pode tanto que, mesmo depois de morto, são preciso quatro para o tirarem de lá![iii] 

Hoje, lendo um pouco de história de Portugal, percebo que a estória tem fundamento nas movimentações diplomáticas que antecederam a chamada Guerra Fantástica[iv].
Os leitores interessados poderão procurar na internet por este interessantíssimo episódio das sempre atribuladas relações luso-espanholas[v].

Numa segunda estória de louvor ao Marquês e à sua suprema inteligência, contava a minha avó que, estando ele desterrado e sujeito a uma sentença que o condenava a, até à morte, não pisar outra terra que a de Pombal, matutou de ir a Lisboa.
Mais esperto que todos, o velho marquês mandou forrar uma carroça de terra pombalense e sentando-se sobre ela, lá foi até Lisboa e Oeiras, onde se passeou sem infracção e tratou dos seus negócios, para grande desespero e impotência dos seus inimigos.

De facto, falecido D. José I em 1777 e substituído no trono pela filha, a qual veio a ser a primeira mulher rainha de Portugal sob o Título de D. Maria I e o cognome de D. Maria Pia que bem lhe assentou vista a sua encarniçada devoção, a fortuna de Pombal sofreu um sério revez:
Eram os seus inimigos que agora estavam no poder e, logo em 4 de Março, foi o Marquês demitido das suas funções.
E, em 1779 foi acusado de abuso do poder, corrupção e fraudes.
Em 1781 foi julgado e, considerado culpado, condenado ao desterro, devendo manter-se a, pelo menos, vinte léguas da Corte, não lhe sendo aplicada outra pena vista a sua avançada idade e estado de saúde que, aliás, o havia de levar a falecer no ano seguinte sem, certamente, ter tido a ideia que a minha avó louvava nem, muito menos, saúde para a pôr em prática.
Nesse ano de 1781, a Inquisição a quem ele tinha tirado o terrível poder, como que escarnecendo do velho leão, condenou 25 pessoas à fogueira e, no que foram os últimos autos-de-fé realizados em Coimbra e em Évora foram queimadas vivas, respectivamente, 17 e 8 pessoas.

E, quanto aos Jesuítas, contava a minha avó, também com evidente satisfação, que o Marquês os tinha enfiado num barco que mandou afundar ao largo de Lisboa.
Não me recordo de que tenha dado explicação plausível ou indicado facto concreto que justificasse tão drástico castigo.
Tanto quanto me lembro, era razoavelmente confusa a lista de críticas aos Jesuítas que, isso era fora de dúvida, eram maus cristãos. 
O Marquês, esse, teria feito, apenas, o que devia ser feito.
Fosse como fosse, os Jesuítas tornaram-se, para mim, durante longos anos, gente pouco recomendável.

Claro que a estória de o Marquês ter afundado os frades da Companhia não tem fundamento histórico.
O que se passou foi que o Marquês, que tinha ideias próprias sobre como desenvolver o Brasil a bem da Coroa, chocou com opiniões diferentes dos missionários Jesuítas ali presentes e de onde, em 1759, acabou por os expulsar. Os confrontos entre o Ministro e a Companhia, já vinham, pelo menos, desde 1757 quando lhe retirou o papel de confessores, (que concedeu a padres mais colaborantes, designadamente, oratorianos) e de 1758, quando os acusou de cumplicidade no atentado ao Monarca.
A persistente luta contra a Companhia prosseguiu em 1766, com a organização da aliança das monarquias católicas contra a Companhia de Jesus, até 1772 quando reformou a Universidade de Coimbra subtraindo-a ao poder dos Jesuitas que aí haviam pontificado durante quase 200 anos.
Tudo culminou em 1773[vi] quando, por Breve do Papa Clemente XIV «Dominus Ac Redeptor Noster», foi extinta a Companhia de Jesus.


O mistério que subsiste é: 
Qual a razão porque uma mulher analfabeta, na Ataíja de Cima dos anos 50 do Séc. XX, mantinha uma tal admiração pelo Marquês e um tal desafecto pelos Jesuítas?


Brazão da Ordem de Cister na Casa do Monge Lagareiro, na Ataíja de Cima (foto de cerca de 1940). 
Anexa a um lagar de azeite do Séc. XVIII que foi destruído na década de 1940, a Casa do Monge Lagareiro, apesar de edifício classificado, encontra-se actualmente em estado de degradação muito avançado





[i] Veja-se Mota, Salvador Magalhães, “A Acção de Frei Manuel de Mendonça à frente dos destinos da Congregação de Sta Maria de Alcobaça da Ordem de São Bernardo (1768-1777)”, in Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2004, (p. 771-779), disponível online em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/5011.pdf, consultado em linha em 2-2-2016.
[ii] Uma reforma do exército conduzida pelo Marquês tinha, em 1754, reduzido fortemente os efectivos militares.
[iii] Verdade que todos os exércitos modernos aprenderam amargamente, mostrando-se incapazes de vencer guerras onde exista um forte envolvimento da população local.
[iv] Também chamada Guerra do Mirandum ou, Guerra do Pacto de Família. Corresponde aos episódios portugueses da Guerra dos 7 Anos a qual, por sua vez, foi a primeira guerra a ter âmbito mundial, com batalhas na Europa, nas Américas do Norte e do Sul (Portugal perdeu a Colónia de Sacramento) e na Ásia.
[v] Nos curtos seis meses que esta guerra durou, entre Maio e Novembro de 1762, os exércitos franco-espanhóis invadiram Portugal, tomando Miranda do Douro, Chaves e Bragança e numa segunda invasão, Almeida e Castelo Branco. Houve, ainda, batalhas e escaramuças no Douro, em Valencia de Alcântara (Espanha) Vila Velha de Ródão, Montalegre, Marvão e Ouguela. Em Miranda do Douro a explosão de um paiol provocou mais de quatrocentos mortos e determinou a decadência irreversível da cidade.
Os invasores, por sua vez, tiveram perdas terríveis que se calculam num total de cerca de 25.000 homens, entre mortos, feridos, prisioneiros e desertores.
[vi] A generalidade das referências cronológicas à disputa entre o Ministro de D. José I e a Companhia de Jesus foi colhida em: Camões, Revista de letras e Culturas Lusófonas, número 15 – 16, Janeiro – Junho de 2003, Cronologia Marquês de Pombal (1699 – 1782), por Patrícia Cardoso Correia. Consultada, online em http://www.instituto-camoes.pt/revista/revista15s.htm, em 01-02-2016.


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Enterramentos na Capela de Nossa Senhora da Graça



Nem sempre os cristãos foram enterrados dentro das igrejas. Essa prática começou a divulgar-se no Séc. XII e foi ganhando importância de tal modo que, no início do Séc. XVIII, era única forma de enterramento aceitável.
Foi quando, um pouco por toda a Europa, começaram a ganhar força as vozes que, invocando razões sanitárias, propunham ou exigiam o fim dos enterramentos no interior das igrejas.
Entre estas vozes encontravam-se membros relevantes da Igreja, como é o caso do Bispo D. Manuel de Aguiar que governou a Diocese de Leiria entre 1790 e 1815, o qual teve a iniciativa de criar, em 1798, um cemitério nas traseiras da Sé, proibindo os enterramentos dentro dela.

No entanto, apenas em 21 de Setembro de 1835, foi publicado o decreto, assinado por Rodrigo da Fonseca, que determinava a criação de cemitérios públicos em todas as povoações
E, em 28 de Setembro de 1844 foi publicado o decreto que proibia os enterramentos no interior das igrejas.
A guerra civil tinha acabado há apenas dez anos, nem todas as feridas estavam saradas e outras novas tinham sido abertas pelas políticas cabralistas.
Foi assim que, a forte oposição popular à proibição dos enterramentos nas igrejas foi a causa imediata da Revolta da Maria da Fonte que, por sua vez, está na origem directa de mais uma guerra civil, A Patuleia, que assolou Portugal entre 1846 e 1847 e só terminou após intervenção militar estrangeira (inglesa e espanhola).

Havia de levar ainda tempo até à cessação definitiva dos enterramentos nas igrejas, como se vê de uma curiosa observação na Relação do Cemitérios Parochiais e Manicipaes do Concelho da Póvoa do Varzim, de 1 de Fevereiro de 1858:
“Em todas as freguesias rurais os adros servem de cemitérios, sendo porém preferidas as Igrejas pela repugnância que os povos têm em fazer os enterramentos fora d’ellas, o que também se verifica clandestinamente na Cabeça do Concelho pela mesma repugnância e pela pequenez do actual cemitério parochial.”
Era a subsistência da velha idéia de que “receber sepultura sagrada significa para os católicos uma via para diminuir as penas que deverão cumprir; uma oportunidade de obter a salvação ou de garanti-la. Receber enterramento nas igrejas torna-se o caminho para a eternidade no paraíso celeste.”([i])

Dentro da igreja, a localização das campas correspondia a uma hierarquia (reflexo do lugar terreno do inumado), diminuindo de importância desde a capela-mor até à entrada do templo.
Os enterramentos no adro eram para escravos, gente muito pobre ou pessoas que, pelas circunstâncias da morte (ou da vida), não deveriam repousar no interior da igreja.

Ora, na freguesia de São Vicente de Aljubarrota, como nas demais, no início do 2º quarto do Séc. XIX, os enterramentos faziam-se, na sua esmagadora maioria dentro da Igreja paroquial.
As excepções são raras, entre elas:
- O Pe Manoel de Souza, ou Manoel de Souza Coelho, dos Casais de Santa Tereza, faleceu em 27-11-1825 e foi enterrado na Capela da Santa Tereza, dos ditos Casais.
- O Pe Joaquim de Souza, da Ataíja de Cima, faleceu em 4-2-1827 e foi sepultado dentro da Capela de Nossa Senhora da Graça, da mesma Ataíja.
- Em 22-11-1827, faleceu, Francisca Coelha que foi sepultada dentro da Capela de Nossa Senhora da Graça, da Ataíja de Cima.
- Em 21-10-1830, faleceu Perpétua Heitor, viúva que foi sepultada dentro da Capela de Nossa Senhora da Graça.

Obedeceria, também, o enterramento nas capelas das aldeias, a considerações de ordem hierárquica? Ou seja, uma vez que, tal como se diz no relatório (de 1758) do cura de São Vicente de Aljubarrota, inserto nas Memórias Paroquiais: “a capella de Nossa Senhora da Graça … é do povo daquele lugar que se chama Ataija de Sima”, isso significará que só os ataijenses podem ser nela enterrados e, quando vemos que aí é enterrado o Padre natural da terra, como na capela dos Casais é enterrado o Padre daí, enquanto a generalidade das pessoas de ambos os lugares é enterrada na Igreja Paroquial, sabida a importância social dos Padres, então, somos tentados a pensar que apenas as pessoas importantes do lugar eram enterradas na capela.

As duas mulheres enterradas em Nossa Senhora da Graça eram, uma,
- “Francisca Coelha mulher que era de Joaquim Heitor… (que) não recebeo sacramento algum por se achar afogada em huma A Lagoa do dito Lugar procedido de hum delírio … (no entanto tinha) vivido como boa cristam e temente a Deos de que foram Testemunhas o Tenente Raimundo Joze de Souza Juiz ordinário e Joze gomez Coelho Tabelião das Notas (ambos, de Aljubarrota) e, a outra,
- “Perpetua Heitor viúva que era de João Tavares moradores que erão na ditta A Taija”. Esta, “fez testamento no Livro das Notas desta Villa Testamenteiro Joaquim Heitor da A Taija de Sima”. Ou seja, o testamenteiro da Perpétua é o marido da Francisca Coelha e tem o mesmo apelido da testadora. São pois, quase de certeza, parentes.
As testemunhas (o Juiz e o Tabelião) indiciam o estatuto da falecida Francisca e de seu marido.

Vamos ver o que, sobre a importância desta família, nos dirá o testamento da Perpétua.




[i] PRÁTICAS TRADICIONAIS DE SEPULTAMENTO NA CIDADE DE DIAMANTINA , por Silveira, Felipe Augusto de Bernardi, Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano III, n. 7, Mai. 2010, consultado online in http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf6/5Felipe.pdf, em 27 de Outubro de 2013.