segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Perdiz


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Se escutarmos com atenção a um ataíjense, a falar de aves selvagens ou de caça, talvez o ouçamos dizer pedriz, em vez de perdiz.

A perdiz-vermelha ou perdiz-comum, (Alectoris rufa) que é, a par do coelho, uma das espécies mais caçadas em Portugal, pertence à família Phasianidae (faisões), da ordem Galliformes, ou galináceos.
Era muito comum na zona da Ataíja de Cima – no livrinho “Guia de Aves PNSAC”, editado em 1998 pelos serviços do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, é, ainda, dada como comum em toda a área do parque – mas há muitos anos que por aqui não vejo nenhuma. Será, ainda, vulgar mas já não tão abundante que a leve, como levava, a nidificar em qualquer seara (que, também, já não há), onde faz os ninhos, em pequenas covas, no chão, por vezes, a escassa centena de metros das casas.

A perdiz-vermelha habita por toda a Península Ibérica no sul da França e no médio oriente.
É uma ave gregária que vive em grupos que se juntam em grandes bandos, especialmente no fim do Inverno, bandos esses que são desfeitos no início do período reprodutivo. Pode ser encontrada em quase todas as regiões do nosso país, preferindo zonas mais abertas com parcelas de culturas agrícolas e outras de mato mais denso, em que existam pontos de água durante o período mais quente do ano.
Alimenta-se preferencialmente de sementes e rebentos de plantas bravias e agrícolas, consumindo também insectos (componente principal da alimentação dos perdigotos), moluscos e outros invertebrados.
O mimetismo (confunde-se com o meio ambiente) é a sua maior defesa e, geralmente, não usa o voo como meio de fuga, nem, muito menos, como meio de deslocação. Normalmente caminha e, em caso de perigo, prefere correr e esconder-se.
O voo da perdiz é geralmente curto e pesado, mas rápido e direito, emitindo um som muito característico e, apenas é utilizado como último recurso de fuga, voando poucos metros até uma zona com mato mais denso o­nde se possa esconder.
É uma ave de razoável porte, como uma pequena galinha, atingindo pesos entre os quinhentos e os setecentos gramas. Tem um corpo compacto e arredondado e bico curto avermelhado. Na cabeça sobressai a garganta branca, orlada por uma faixa e pintas negras e os flancos são listados de branco, preto e arruivado.
As crias abandonam o ninho logo após a eclosão dos ovos e, dantes, era frequente ver pequenos bandos de perdigotos correndo, atrás da mãe, pelos caminhos dos campos.
Os seus principais predadores são a raposa, a gineta, o gato-bravo, algumas aves de rapina, o javali e os corvos, a que se juntam cães e gatos domésticos semi-vadios.

Agora já não há raposas por aqui mas, também não há searas e duvido que haja grandes bandos de perdizes, como um que, há quase cinquenta anos, se levantou na serra, um pouco acima do cruzeiro, onde eu andava matando o tempo numas férias de Verão.

De repente, o silêncio da serra foi cortado pelo barulho infernal de um enorme bando de perdizes que, assustado com a minha presença, levantou voo, ali mesmo, quase debaixo dos meus pés.

Foi um dos maiores sustos da minha vida.

E, quem nunca viu e ouviu um bando de perdizes a levantar voo, não pode saber do que é que eu estou a falar.

(Desenho de Francisco Barros, in “Guia de Aves PNSAC”)

NOTA:
Para a elaboração destes texto foram consultados, em 01-07-2012:
E, ainda: Marques, Paulo e Barros, Francisco, “Guia de Aves PNSAC”, edição do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, Rio Maior, 1998


segunda-feira, 25 de junho de 2012

O Cuco


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Um dos pássaros mais conhecidos, na nossa Ataíja é, também, um dos menos vistos: Todos lhe conhecem o nome, todos lhe conhecem o característico canto mas, a maioria das pessoas, nunca viu nenhum.
De facto, o cuco-canoro (Cuculus canorus) é uma ave discreta já que pela sua cor cinzenta, onde apenas sobressaem as listas mais escuras da parte inferior do corpo e o círculo amarelo onde se inscrevem os olhos, se confunde facilmente no seu habitat preferido, as zonas de arvoredo, a baixa altitude.
Na Ataíja, gosta especialmente do vale da ribeira do Mogo, onde sabemos que está ao ouvir o seu sonoro canto, o “cuc-cuc”, que lhe dá o nome e com que anuncia a primavera.
Ave de arribação, passa o inverno em África e chega a Portugal no mês de março, reproduz-se e, volta a emigrar, retornando ao sul, a partir de julho.
A chegada do cuco (e, com ele, dos dias amenos) era aguardada com grande expectativa.
Já ouviste o cuco? Perguntavam as pessoas umas às outras.
Ainda vai ouvir o cuco, dizia-se aos mais velhos, em sinal de que haviam de passar os rigores do inverno e gozar de muita saúde, pelo que não se justificava estarem a lamentar-se das suas maleitas.

O cuco é, uma ave de costumes peculiares e, diríamos, reprováveis.
É um parasita.
Não constrói ninho, depositando os seus ovos nos ninhos de outras aves, como ele, insectívoras e, muitas vezes, de porte bastante mais pequeno (um cuco é uma ave relativamente grande, com trinta a trinta e cinco centímetros de comprimento, metade dos quais correspondem à cauda e uma envergadura que chega a atingir os sessenta centímetros).
Deposita um ovo em cada ninho e, para que a ave parasitada não se aperceba da tropelia, come um dos ovos lá existentes.
Dispensa-se, assim, de ter de construir ninho, chocar os ovos ou alimentar as crias.
Este sentido de oportunismo, também o tem a cria que, por ter pouco tempo de gestação nasce antes dos outros ovos e, para ganhar espaço, expulsa-os do ninho.
As aves hospedeiras continuam a alimentar o cuco sem darem pela diferença e quando este atinge a maturidade, é já bastante maior que os seus pais adoptivos.
A acrescer a todos estes “maus comportamentos”, parece, ainda, que a fêmea é promíscua, copulando com vários machos.

Mas, pelos vistos, ao cuco tudo se perdoa, por ser o arauto da desejada primavera.


Na Ataíja de Cima da minha infância, havia um outro Cuco.
Um tal Joaquim, de alcunha o Cuco, que era natural do Valado dos Frades, mas casou na Ataíja e aqui viveu, - na casa onde, actualmente, vive o Paulo Jorge -, até viuvar de Teresa Neto, que faleceu de tétano, adquirido como consequência da infecção provocada por um golpe de enxada num pé (as mulheres e as crianças andavam descalças) tendo, posteriormente, regressado à sua terra.
A certa altura, o Cuco arrendou ao meu pai a soija de baixo que (talvez com saudades das culturas de regadio do seu Valado natal) plantou de cebolas que regava com água, trazida em barricas, da Lagoa Ruiva. O que causou grande admiração (e alguma contestação, pelo gasto excessivo de água) pois, por aqui, nunca tal se tinha visto.

NOTA: para a elaboração deste texto foram consultados (em 25-6-2012) além do ficheiro que legenda a foto, mais os seguintes sites de internet:
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quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Poupa


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 De entre as aves, residentes ou de arribação, que podemos ver na Ataíja de Cima, a poupa é a que tem a plumagem mais exuberante.

Não se trata de um pássaro muito vulgar e, embora pareça não correr perigo de extinção (apesar de ter desaparecido dos campos de diversos países do norte da Europa, como a Suécia, a Holanda e a Bélgica e de grande parte da Alemanha), é raro ver-se.

Um destes dias, quando me levantei e fui à janela, como habitualmente faço, para me deliciar olhando o campo sob o sol da manhã, dei com uma belíssima poupa que, a escassos metros, debicava a terra em busca dos insectos de que se alimenta.
Ainda tentei uma foto, mas ela (ou ele, sei lá eu) esgueirou-se e foi procurar insectos para outro lado.

Era, no entanto, igualzinha à da fotografia seguinte que encontrei, algures, na internet:



Lembro-me, ainda miúdo, do que terá sido a primeira vez que vi uma poupa, junto à Lagoa Ruiva.
Quem me acompanhava, certamente alguém mais velho, deu-me, então, a correspondente aula de ornitologia: o nome do pássaro, os hábitos alimentares e o de fazer o ninho em buracos nas paredes e, claro, esse costume repugnante de os construir com fezes fedorentas.

O fascínio da poupa estava, exactamente, aí:
A rainha de beleza das aves do meu mundo era, afinal, só aparência, coisa para se ver ao longe. Chegássemos perto e o horroroso cheiro empestaria as plumas caprichosas com que se passeava, arrogante, no meio de pardais cinzentos.

Parece-me bem que a tal lição de ornitologia tinha uma intenção moral: Alertar a criança que eu era, para o valor relativo da aparência e da beleza.
E, funcionou.
Durante muito tempo a poupa foi, para mim, um pássaro falsamente bonito, na verdade, apenas, mal-cheiroso que fazia ninhos nojentos em lugares decadentes como, no caso, as ruínas do lagar dos frades e da Casa do Monge Lagareiro.

Mas, a verdade é as poupas são pacíficos e muito belos insectívoros (e, por isso, vítimas colaterais do uso de insecticidas na agricultura) e, não só não fazem o ninho com excrementos, como o mantém impecavelmente limpo e o tal cheiro é produzido por uma glândula que, em caso de ameaça e só nesse caso, expele um líquido, esse sim muito mal-cheiroso, no que constitui uma estratégia de defesa, destinando-se, exclusivamente, a afastar os predadores.

Estamos reconciliados, eu a poupa e, aquela que me visitou numa destas manhãs, está autorizada a fazê-lo todos os dias.
O que me daria muito gosto.
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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Os Crespos, de Regueira de Pontes, senhorios foreiros na Ataíja de Cima


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Entre as muitas famílias “de fora” que possuíam terras na Ataíja de Cima, assunto a que já dediquei alguns textos aqui publicados, surge agora uma outra:
A família Crespo, de Regueira de Pontes, Leiria, que por aqui conservou prazos foreiros pelo menos desde 1835 e até 1920.

Em 1835, o ataijense Manuel Martins, então ainda solteiro, tornou-se enfiteuta do Dr. António Manuel da Silva Crespo, de Regueira de Pontes, Leiria, ao qual ficou a pagar o foro anual de 5 alqueires, ou 69,825 litros, de trigo pelo domínio útil de “metade de uma terra e oliveiras no sítio dos Arneiros, um olival no sítio dos Caramelos e uma casa térrea na Ataíja”.

Falecido o Dr. Crespo foi, tal foro, objecto de uma escritura de reconhecimento, celebrada em 5 de Fevereiro de 1869, no Cartório do Tabelião Libório, em Alcobaça, na qual o Manuel Martins, e sua mulher Maria Guilhermina e as herdeiras do senhorio, suas irmãs, Dona Ana Joaquina da Silva Crespo e Dona Maria Ignácia da Silva Crespo, representadas na escritura pelo seu procurador José de Bairros, professor de instrução primária em Alcobaça, se reconheceram, mutuamente, como enfiteutas e senhorias.

Cinquenta e um anos mais tarde, em 19 de Março de 1920, um outro Crespo, o Padre Manuel de Sousa Crespo, dos Milagres (a freguesia dos Milagres foi criada por desmembramento das de Regueira de Pontes e Colmeias), vendeu[i] a Francisco Vigário (o Vigário Velho), o domínio directo de um foro anual de oitenta e quatro litros de trigo (6 alqueires), imposto em uma terra de semeadura e vinha no Outeiro, que o vendedor possuía por herança de D. Júlia das Dores da Silva Crespo[ii], de Regeira de Pontes.

Aquele Dr. António Manuel da Silva Crespo foi gente importante. Era filho do Capitão (da Companhia de Ordenanças de Regueira de Pontes?) António Francisco Crespo e foi Bacharel em Cânones e juiz de fora, conselheiro do distrito e vereador da Câmara Municipal de Leiria, integrando, em 1852, a lista dos maiores agricultores do distrito, com interesses em, pelo menos, Regueira de Pontes e Alcobaça onde, aparentemente, se deslocava com frequência e passava temporadas.[iii]

Seria tio[iv] do Dr. António Lúcio Tavares Crespo (1843-1905)[v], ilustre alcobacense que foi um dos promotores da construção do elevador da Nazaré, Bacharel em Direito[vi], Advogado e Conservador do Registo Predial no Porto, deputado às Cortes pelo círculo de Alcobaça em 1865-1868 e 1887-1889 e presidente da mesa da assembleia geral da Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça.


NOTAS:

[i] Escritura celebrada em 19-03-1920, Alcobaça, Notário José Estevam d’Abreu e Oliveira.
[ii] Sobrinha do Dr. António Manuel da Silva Crespo.
[iii] Como se deduz das actas da sessão da Câmara Municipal de Leiria, de 18 de Maio de 1846, citada por Ricardo Charters d’Azevedo, in http://www.familiasdeleiria.com/, (consultado em 30-5-2012). O que parece pressupor que tais interesses excediam os foros da Ataíja de Cima.
[iv] No entanto, este parentesco não parece totalmente esclarecido.
[v] Uma breve biografia do Dr. António Lúcio Tavares Crespo pode ser lida em “Figuras de Alcobaça e sua Região”, por Bernardo Villa Nova, Rebate, 2002, Alcobaça,
[vi] Em 1857/1858, frequentava o 1.º ano do curso de Direito, onde era colega de Thomaz Emilio Rapozo de Magalhães. Não havia, naquele ano, outros estudantes alcobacenses em Coimbra. (v. “Relação e Indice Alphabético dos Estudantes…”, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1857)

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sábado, 19 de maio de 2012

António Coelho - Um ataíjense "miraculado"


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“… São inumeráveis as merces , que o povo desta Villa recebe de Deos , por meyo da Imagem do Senhor dos Passos , do Santo Crucifixo , e do Senhor prezo à coluna , as quaes se achaõ autenticadas no Cartorio da Santa Caza da Misericordia . Dous milagres obrou o Senhor ao mesmo tempo , os quaes foraõ , que indo a Irmandade em procissão com o Santo Crucifixo em sesta feira Santa , como naquele tempo era costume , à mesma Igreja Matriz , nella lhe vio um rustico , por nome Antonio Coelho, natural da Ataíja de Cima , homem de boa vida , e honestos procedimentos , cobrir os olhos , e com os seus arrazados de agua clamou ao povo que advertisse naquele prodígio , por cujo alvoroço o Sacerdote , que o levava , recolhendo-se com elle à dita Capella de Martin Palença , nelle admirou huma gota de suor , que com toda a reverencia devida devida recolheo em hum lenço , e voltando a procissão para a Misericordia , se achou abrazado pelo fogo , por descuido , hum grande passo , formado de roupas de linho , em que estava exposto o Senhor prezo à coluna , sem que do fogo recebesse a menor ofensa.”

Assim descreve o Padre Luis Cardoso, a págs. 314 do Tomo I, do seu “Dicionário Geográfico …”, publicado em Lisboa em MDCCXLVII, reinava o Sr. Dom João V, dois milagres quase simultâneos que terão acontecido em Aljubarrota, numa sexta-feira Santa.

O Padre Cardoso não nos diz a data de tais sucessos, ao contrário do que faz no relato de um outro milagre, o da lenda da Senhora do Laço, também acontecido em Aljubarrota, cerca de 1615 (hà cerca de cento e trinta anos, diz ele). Deduz-se no entanto que, também os milagres do suor e do fogo teriam ocorrido há, já, bastante tempo, uma vez que a procissão (como naquele tempo se usava, diz), já não se realizaria, nos anos de 1740, nos moldes descritos e, quanto à data certa em que terão ocorrido, esclarece-nos o Vigário de Nossa Senhora dos Prazeres, nas suas respostas ao Inquérito Pombalino de 1758 (Memórias Paroquiais):
“... há na Santa Casa da Misericordia de Aljubarrota hum Santo Crucifixo, o qual no anno de mil, e seis centos, e onze em sexta feira santa ao primeiro de Abril na paroquial Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres da mesma Villa , sendo levado em processão pelo provedor, e mais irmaõs da Santa Casa foi servido abrir os olhos e suar agoa que chegou a correr …”.

Donde se conclui que os três “milagres” foram, praticamente, simultâneos.

 “Milagres” destes “aconteceram”, ou foram “recuperados”, em grande quantidade, nos Séc. XVII e XVIII e estão na origem de muitos edifícios religiosos, por vezes, imponentes santuários. (é o caso – e para dar, apenas, três exemplos da nossa região – do Senhor Jesus da Pedra, em Óbidos, do Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, no Sítio e do Santuário do Senhor Jesus dos Milagres, nos arredores de Leiria).
A sua veracidade é, no entanto e hoje em dia, objecto de dúvida generalizada, inclusive por parte da Igreja Católica que não reconhece a grande maioria deles.

Tais milagres foram, simplesmente, inventados, aumentados, adaptados ou retocados, à medida da imaginação ou dos interesses do divulgador.

 Veja-se, por ex. o que, a propósito do milagre de Nossa Senhora da Nazaré, diz Pedro Penteado, in
http://www.cm-nazare.pt/custompages/showpage.aspx?pageid=48d53d58-0b11-41b8-86bb-c262c09723f8&m=b24 (consultado em 19-05-2012). 
E, a propósito deste milagre do suor, repare-se como em dois textos separados por, apenas, uma década, huma gota de suor se transforma em agoa que chegou a correr.

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segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Projecto de lei Eleitoral de 1849 e o distrito de Leiria


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Embora não directamente relacionado com a Ataíja de Cima, julgo interessante trazer aqui algumas notas sobre o Projecto de Lei Eleitoral que a Câmara dos Deputados discutia em 1849.

O “Diário da Câmara dos Senhores Deputados”, n.º 31, de 9 de Fevereiro de 1849 (7ª Legislatura, 2ª Sessão Legislativa) publicou o projecto de Lei Eleitoral que então se discutia naquela Câmara. 

Do Mapa n.º 2, anexo ao projecto, constam os círculos eleitorais do Distrito de Leiria, por onde ficamos a saber quais os concelhos que então integravam o distrito e o número de fogos de cada um e, como é óbvio, o número de deputados a eleger por cada círculo eleitoral:



Ou seja, o distrito possuía um total de 31.425 vizinhos, ou fogos habitados e elegia 4 deputados, de um total previsto de 145, para todos os distritos do continente e ilhas adjacentes (Açores e Madeira) e as províncias ultramarinas.

A razão de o mapa mencionar vizinhos e não habitantes é a de que o voto era censitário, apenas sendo reconhecido tal direito aos que tinham determinados bens ou rendimentos, em consequência do que pagavam um certo mínimo de impostos, ou possuíam certas habilitações ou profissões que pressupunham o mesmo nível de rendimento. 
Partia-se do princípio - e exigia-se -  que quem preenchia esses requisitos, tinha uma vida independente, não vivia em casa de outrem. Ocupava o seu próprio fogo. Era um vizinho. (veja-se abaixo - 2º, do Artº 3º -  a excepção para os filhos-família que servissem ofícios públicos). 
Daí que, também pela ausência de outros elementos estatísticos credíveis, o fogo fosse o melhor indicador do número máximo possível de cidadãos com capacidade eleitoral.

Da capacidade eleitoral activa (que só se podia adquirir aos vinte e cinco anos, salvo nos casos dos casados e dos oficiais militares, que a podiam adquirir aos 21 anos, e da qual estavam excluídas as mulheres) ocupam-se os três primeiros artigos do Projecto:

  

Voltando ao Mappa n.º 2, anexo ao Projecto  e cruzando os dados nele contidos com outros disponíveis na Wikipédia, obtêm-se a população de cada concelho e a total do distrito de Leiria e a média de habitantes por fogo:


Município actual
Hab. 1849
vizinhos 1849
Média hab./fogo 1849
31º Círculo eleitoral - Leiria
Alcobaça

14.711
3.181
4,62
Batalha

2.445
541
4,52
Caldas da Rainha

8.486
1.970
4,31
Leiria

29.803
6.903
4,32
Louriçal
Pombal
5.654
1.219
4,64
São Martinho do Porto
Alcobaça
3.596
737
4,88
Óbidos

7.970
1.937
4,11
Pederneira
Nazaré
4.277
1.034
4,14
Pombal

16.828
3.756
4,48
Porto de Mós

9.801
2.416
4,06

Total
103.571
23.694
4,37
32º Círculo eleitoral - Figueiró dos Vinhos
Alvaiázere

6.426
1.436
4,47
Ansião

4.940
1.174
4,21
Chão de Couce
Ansião
3.568
856
4,17
Figueiró dos Vinhos

5.068
1.158
4,38
Maçãs de D. Maria
Alvaiázere
4.864
1.147
4,24
Pedrógão Grande

9.132
1.960
4,66

Total
33.998
7.731
4,40
Totais gerais
137.569
31.425
4,38



Fontes: Página online (http://www.parlamento.pt) da Assembleia da República, Biblioteca, Arquivo e Documentação. http://debates.parlamento.pt/page.aspx?cid=mc.cd
Wikipédia (http://pt.wikipedia.org), consultada em 14-5-2012.

Nota: As reproduções do Diário da Câmara dos Senhores Deputados, são resultado de colagens nossas.

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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ataíja de Cima no Dicionário Geográfico do Pe. Luis Cardoso


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“Ataíja de Cima , lugar da provincia da Estremadura , Bispado e Comarca da Cidade de Leiria , Termo , e Freguesia de S. Vicente de Aljubarrota : tem quarenta e cinco vizinhos , e huma Ermida dentro do povoado dedicada a Nossa Senhora da Graça , em que ao presente principiou o Jubileo  plenario  , que por Sua Santidade lhe foy concedido por sete annos na Segunda Oitava do Natal , dia em que os moradores lhe fazem a sua festa.”

In “Dicionário Geografico, ou noticia historica de todas as cidades villas lugares e aldeas, rios, ribeiras, e serras dos Reynos de Portugal e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontrão, assim antigas, como modernas / que escreve e oferece ao muito alto e muito poderoso rey D. JOAÕ V nosso senhor o P. Luis Cardoso, da Congregação do Oratorio de Lisboa Academico Real do número da Historia Portugueza, Tomo I - Lisboa : na Regia Officina Sylviana, e da Academia Real, MCCVXLVII com todas as licenças necessárias”, pág. 650


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