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terça-feira, 29 de novembro de 2016

O Poço do Moura



Quando eu era pequeno, no início da segunda metade do século passado, a casa da ti’ Maria Rosa, no sítio da Pedra Branca, era a última da Rua dos Arneiros.
Depois disso eram, apenas, campos de cultivo, quase todos plantados de oliveiras e só mesmo na Ataíja de Baixo voltávamos a ver casas. A primeira, a chegar à Senhora dos Enfermos, era a de Joaquim Pio que foi casado com uma nossa conterrânea, filha de António Orelha e Joaquina Porfíria (curiosamente, também, era de uma outra filha do mesmo casal a primeira casa que encontraríamos se, ali ao Casal da Ordem, seguíssemos para o caminho que vai pela esquerda, para a Lagoa Cova).

A casa da ti´ Maria Rosa estava ali, quase sozinha, tendo por vizinhos mais próximos o ti’ António Catarino, onde agora é uma oficina de lareiras, o ti’ Francisco Faxia, onde o Zé da Ilda faz garagem e, em frente a esta, a casa agora inteiramente arruinada que foi de António Orelha (filho).
Na Rua dos Arneiros encontrávamos mais, as casas de José Lourenço, António da Graça, Joaquina da Piedade, António da Piedade, António Guilhermino, José Dionísio, a do meu pai João Lourenço Quitério, Francisco Dionísio, João Salgueiro, Joaquina Cordeira, Toni, Augusto Ribeiro, António Ângelo (Rospiço) e José Veríssimo e, estávamos no Outeiro.
Na Rua da Pedra Branca, estava, além da referida de António Catarino, a casa de José da Graça.
Na Rua das Covas, havia cinco habitações: a de José Guilhermino, a de Guilhermina Vigário , a de António Lourenço, a do Quintal da Rosalia, então habitada pela família de José Rebolão e a do meu tio António Coelho Quitério (Sapatada)
A Rua do Martins não tinha casas e a Travessa dos Arneiros não existia ou seja, havia em todos os Arneiros um total de vinte e quatro casas habitadas.[i]

Junto à casa da ti’ Maria Rosa há um poço a que todos chamam (ou, melhor, todos naquele tempo chamavam que, hoje, os poços já não têm nome) o poço do Moura.
O que sempre me fez alguma confusão.
Quem seria esse tal Moura que tinha dado o nome ao poço se, na Ataíja daquele tempo, nem sequer havia nenhum Moura?
Certezas, não tenho. O que descobri parece, no entanto, ter alguma lógica. Talvez eu tenha descoberto quem era esse Moura que deu o nome ao poço.

O homem mais rico da Ataija de Cima nos inícios do Séc. XX era Matias Ângelo, o qual é geralmente conhecido por, em 1918 e como já falamos em mais de um texto neste blog, ter comprado ao burguês de Alcobaça Olímpio Trindade Jorge, o Olival dos Frades.
Ora, o Matias Ângelo era filho de Ângelo da Silva, natural dos Covões e de Maria dos Santos, exposta da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a qual, tendo ficado viúva e com quatro filhos a cargo, veio a casar, em segundas núpcias dela, no dia 21 de Fevereiro de 1876, tinha então quarenta e quatro anos, com António de Moura, solteiro, de 55 anos de idade.
Eis aqui como, com alta probabilidade, o poço do Moura (do António de Moura?) veio à posse de Maria de Matos Ângelo, que todos conhecemos por Maria Rosa e é bisneta da dita Maria dos Santos.
O António de Moura, esse, foi baptizado em 02.07.1821 e era o filho mais velho de Bernardo de Moura e Úrsula dos Santos (também enjeitada e ama de enjeitados)[ii].
Sendo que, Bernardo de Moura foi baptizado em 23.11.1792 e era filho de João de Moura da Ataíja de Baixo e de Maria Guitéria da Ataíja de Cima, falecida esta em 6.6.1827 e ele em data desconhecida mas, antes disso.
João de Moura, por sua vez, era filho de Luiz de Moura e de Caterina Antunes, ambos da Ataíja de Baixo

E, assim, chegamos a gente que foi contemporânea do Marquês de Pombal e do grande terramoto de 1755

O poço, esse, é um dos poucos exemplares sobrantes do tipo mais comum de poço ataijense. Aberto em terreno de barro naturalmente impermeabilizante em cuja escavação, quase sempre, se encontrava pedra em quantidade suficiente para construir a parede, tecida em seco, sem qualquer argamassa. Acima da terra a parede subia para suportar um telhado de uma água sobre estrutura de madeira, com o beirado do lado oposto ao do acesso, lançando as águas para um valado que recolhia não só essas mas também as águas que caiam no terreno em redor e que, a partir daí, por infiltração e através da parede – de pedra seca como se disse – eram conduzidas para dentro do poço.
O poço do Moura apresenta a parede acima do solo rebocada exteriormente e caiada e, a porta de acesso, fechada na metade inferior por um parapeito feito de uma grande laje aparelhada, mostra um requintado acabamento, com a parte superior em arco, ao invés da normal, simples, verga feita de laje toscamente aparelhada.
Ao lado direito da porta, a parede é atravessada por uma grande pedra aparelhada que, do lado de dentro do poço se abre numa pia para a qual é despejada a água do balde que, daí e através de um furo longitudinal, chega a uma bela torneira de latão[iii], sob a qual se colocava o cântaro.
O objectivo era não perder uma única gota de água potável, bem precioso que, aqui nesta borda da serra, durante séculos e até ao ano de 1993, apenas em poços como este se encontrava e, por isso, era parcimoniosamente racionada, em regra limitada a um cântaro por dia e por família[iv] e, também por isso, naqueles tempos as portas das casas ficavam no trinco mas, os poços eram fechados à chave.









[i] E, duas desabitadas: A que tinha sido do Combasteiro e já naquele tempo era um casebre velho, utilizado como palheiro, e ficava onde está a Casa do Ramiro e a que tinha sido de João Maurício, onde agora é a de seu neto João Pérídes.
[ii] Ver, neste blog “Amas de Expostos”, in http://ataijadecima.blogspot.pt/search?q=Amas+de+expostos
[iii] A torneira é, certamente, um acrescento tardio.
[iv] Nem todas as casas possuíam poço pelo que era comum  abastecer-se do mesmo poço mais de uma família, fosse por razões de parentesco, fosse por contrato.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A Rua dos Arneiros em Meados do Século XX




A Rua dos Arneiros que, a partir do Outeiro, liga à Ataíja de Baixo, é um caso curioso já que, por um lado, aparenta ser um caminho, digamos, recente, uma vez que não aparece representado no Mapa elaborado em 1791 para a construção da estrada de Rio Maior a Leiria, a Estrada de D. Maria Pia e, por outro lado, foi o primeiro caminho desta borda da serra a ser classificado como Estrada Municipal, o que aconteceu, como já disse no texto O Caminho do Concelho, pelo Decreto de 28 de Julho de 1894.

Se a classificação de 1894 se compreende no âmbito de um processo de criação de ligações radiais das povoações à sede do concelho, (na mesma data foram criadas as estradas para Chequeda e Molianos e Maiorga, Casalinho, Fanhais[i] e Pataias, entre outras) a ausência do mapa de 1891 significará que, muito provavelmente, não existia naquela data, o que implicaria que as relações entre as Ataíjas eram de baixa intensidade, talvez por um efeito barreira criado pelo olival dos frades que as separava. 

Arneiro, dizem os dicionários, é um lugar areento e estéril. Aqui, não me parece que seja especialmente areento, antes, argiloso o que, aliás, não é incompatível. E, estéril não é mas é pouco produtivo. Isso, deve-se sobretudo à pouca espessura do solo arável, sendo comum encontrar pedra a pouca profundidade (o meu pai intentou, há menos de quarenta anos, plantar uma vinha no Serrado. Além de, numa parte do terreno, ter encontrado uma grande quantidade de pedra, a vinha foi sempre muito fraca, tendo durado, apenas, cerca de vinte anos. De modo semelhante, já na Figueira Pedral, a Aire Mármores construiu recentemente um parque de estacionamento e aí se viu bem que o solo arável tinha menos de trinta centímetros de espessura, e assentava sobre uma cama contínua de pedra).

No texto A Rua das Seixeiras em Meados do Século XX, já deixei uma descrição de como era a Rua dos Arneiros naquele tempo. Vejamos agora como ela era habitada, pouco depois de eu nascer:

Começando pelo Outeiro, a primeira casa que ali existia, e ainda existe, era a de José Veríssimo e Maria da Graça (Maria da Serra), agora desabitada. Ali moravam os proprietários e dois filhos, estando os mais novos ainda por nascer.
Até ali, nenhumas construções existiam senão o pátio e eira da casa de António Matias e, do lado da serra, agora nos cómodos do José Planeta, um poço, propriedade de José Ribeiro.

Desse lado da serra, seguia-se a casa onde viviam os irmãos António e Manuel Ângelo, o primeiro conhecido pela alcunha de Rospiço, alcunha essa que é, aparentemente, corruptela de Respício, que já encontrámos como nome próprio feminino (Respícia dos Santos) e apelido. O dicionário online Priberam diz que respício significa criança magra e enfezada.
O que inicialmente era para mim uma estranha alcunha terá, assim, algo a ver com o aspecto físico da criança que foi António Ângelo.
O irmão Manuel, esse, foi conhecido por o Piquete.

Após um curto intervalo de terra agrícola, seguia-se e segue-se a casa agora de António Salgueiro e, então, de Augusto Ribeiro. Logo, colada, a casa de Maria Jorge e de seu marido António Constantino, o Toni. Ela, sobrinha do Augusto.
Em frente, um antigo lagar de vinho, propriedade do Augusto, o único lagar de vara que conheci na Ataíja de Cima. Já não trabalhava, mas ainda lá estava tudo: o lagar, a vara, o fuso e o peso.
Era uma construção ampla tendo, quer do lado do caminho quer do terreno, portões largos, por onde cabia um carro de burro e se fazia a serventia de uns terrenos encravados que ali havia, entre eles um que era propriedade de José Henrique que foi conhecido por José Neto e José Diabo.
Quando o José Diabo se resolveu a casar, era aquele o único terreno que possuía onde pudesse construir uma casa.
O Augusto já tinha falecido, a sua viúva, Maria Adelaide regressara ao Casal Pardo de onde era natural e o proprietário do lagar era agora José Veríssimo que recusou a pretensão do Diabo de fazer passar os materiais para a construção pelo seu terreno, ao lado do lagar. Que não. Que passasse por onde sempre se tinha passado. Que a serventia era pelo lagar e não lhe dava outra.
O caso só se resolveu quando o Tribunal mandou que se mudasse a construção uns metros para o lado, como ainda lá está, pagando o Diabo as despesas.

E, foi assim que nasceu a Travessa dos Arneiros.

Ao tal lagar seguia-se, menos de um metro depois (deixando apenas uma estreita passagem até à cisterna que ainda lá está, embora muito arruinada) a casa de Luís Barra e Ana Dionísio, (Denísia, dizíamos), agora em irreversível ruína.
Seguia-se, onde o meu primo João Porfírio teve o palheiro do burro, a casa onde vivia a, então, ainda jovem viúva Joaquina Cordeiro e, depois, a casa, agora também devoluta, de João da Graça Salgueiro e de sua mulher Ana Lourenço da Silva que todos conhecemos por Ana Patoixa, que aí viviam com os dois filhos. Num dos seus anexos funciona, actualmente, a Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça.
Seguiam-se a casa e os cómodos dos pais da Ana, Francisco Dionísio e Joaquina Lourenço e, depois, a casa onde eu nasci.

A Rua do Martins era, então, a Azinhaga do Martins, um caminho estreito, onde só cabia um carro de vacas entre paredes de pedra solta, e não tinha casas. Apenas olivais. O olival da Burra, o olival do Guincho, o Olival do Brilhante. Uma parte deste, onde os Faxia têm agora as suas casas era, naquele tempo, propriedade de uma irmã do meu avô Quitério que morava em Valbom e era tão cerrado que o sol quase não chegava ao chão.
Voltando à Rua dos Arneiros, passada a Azinhaga do Martins havia a casa de José Dionísio e de sua mulher Joaquina Nazaré (Joaquina, filha da Nazaré) e, logo a seguir a que tinha sido do pai dela, João Maurício, sobre a qual o Pérides, neto dele, mais tarde construiu a sua.

Voltando um pouco atrás e ao lado de Aljubarrota, a casa dos meus pais, construída em 1946, tinha (e tem) uma parede comum com a adega do meu avô, adega essa que, por sua vez, tinha sido construída, em finais do Século XIX, por um irmão da minha avó que dela queria fazer residência. Nunca o chegou a ser porque ele veio a falecer na tropa. Dizia minha avó, que de desgosto.

Seguia-se o quintal de António Lourenço, onde pontificava uma já então velha figueira que ainda lá está hoje e, estávamos na entrada da Rua das Covas.
Na esquina do lado sul, já lá estava, desde 1945, a casa de José Coelho Vigário, o José Guilhermino (o José da Guilhermina) e, dentro do seu pátio, a casa de alpendre onde ainda vivia a sua mãe, Guilhermina Vigário então já viúva do meu tio-avô António Quitério, o Mal-das-Vinhas.
Tendo falecido recentemente (05-02-2019) a ti’ Maria Marques, viúva de José Guilhermino, esta é mais uma casa inabitada.

Continuando na Rua das Covas, seguia-se o Quintal da Rosalia onde havia a única casa com o chão ainda em terra que conheci habitada na Ataíja. Aí morava então, de empréstimo, José Maurício que foi conhecido por José Rebolão, a sua mulher Emília Mariano, natural do Cadoiço e a filha mais velha, nascida no mesmo dia que eu.

Do outro lado da rua a casa de António Lourenço, o Ária e de sua mulher, Maria Quitério, minha tia-avó.
Ele também era parente, em grau que ainda não apurei, pelo lado da minha avó paterna mas, mais do que isso tinha a fama e, parece, o proveito, de ter dinheiro, fruto, talvez, dos tempos em que trabalhou como capataz ou feitor para o Raposo de Magalhães na sua quinta dos Ganilhos ou do Mirante (da estrada ainda se consegue ver, no meio do campo, por detrás de uma urbanização recente, uma pequena torre ameada, o Mirante, que servia para o capataz, lá de cima, vigiar terras, culturas e servos).
Certo é que o meu pai, quando quis fugir da vida sem horizontes da aldeia que lhe não permitia alimentar decentemente três filhos pequenos, pensou comprar uma venda de leite em Lisboa e pediu dez contos ao Ária, que lhos emprestou com dez por cento de juro a serem pagos, anualmente, em dia de Todos-os-Santos.
A minha mãe não gostava dele porque, um certo dia, falando do lado de lá da pequena parede que separava ambos os quintais, ele lhe terá dito que aquilo ainda havia de ser tudo dele, porque o João dela não ia conseguir pagar o que lhe devia.

À do Ária seguia-se a casa que tinha sido do meu bisavô e ao lado da qual um neto, o meu tio António Sapatada, tinha construído a sua, servindo agora a do avô para arrumos e como casa do ofício de sapateiro de onde lhe vinha a alcunha.

Voltando à Rua dos Arneiros, do lado da serra, depois da casa de João Maurício havia apenas um poço, o poço do Fialho. A rua onde agora são as casas do Rogério Sabino e do Carlos da Ilda e uma outra de um cidadão estrangeiro, não existia. Era uma mera serventia agrícola.
Reparei agora que, apesar de habitada, esta rua ainda não tem nome, ou pelo menos placa. Mas, bem lhe ficaria o nome de Rua do Serrado, porque por Serrado eram conhecidos aqueles terrenos.

Seguia-se a casa que ainda lá está mas também já desabitada,  de António da Graça  e Ilda Lourenço, que a construíram para  o seu casamento, celebrado em 29-10-1949.
Logo depois, havia uma antiga casa, então há muito desabitada, que tinha sido propriedade do Combasteiro e, então, já era propriedade do seu sobrinho José Lourenço, pai da Ilda.
Seguia-se, na esquina da Rua das Pedras Brancas, a casa de Francisco Machado e Luísa Gomes, ele conhecido por O Faxia e, em frente, na esquina oposta, escondida dentro de um pátio, a casa de António Catarino e Joaquina Cordeiro, conhecida por Joaquina Benta (julgo que por ser filha de um Bento), que aí viviam com os seis filhos então, ainda, todos solteiros.
No quintal do Faxia, já em plena Rua das Pedras Brancas, estava a construir-se a casa onde a filha dele, felizmente ainda viva e de boa saúde iria, logo em 1951 formar um casal com José da Graça.

Do lado de Aljubarrota, à casa de José Guilhermino seguia-se uma sequência de 3 casas: a de António Guilhermino que aí criou dez filhos, a do seu primo António Quitério que foi conhecido por António Piedade (António, filho da Piedade) e a de seus pais, a dita Piedade e o meu tio-avô José Quitério.
Nesse tempo, esta última casa era habitada pela filha solteira do casal, Joaquina, de alcunha Joaquina Piedade ou Baguinho de Milho. Posteriomente, no início da exploração do Vidraço de Ataíja, num anexo, aí morou e teve a sua forja um emigrante que exercia a profissão de ferreiro, então insdispensável, além do mais, para afiar ponteiros e picões.
Mais adiante, era a casa de José Lourenço e Ana Caseira, uma casa à maneira tradicional, oferecendo a empena à rua e à serra e com os vãos abertos a sul.  O pátio desenvolvia-se em frente à fachada principal, esta protegida por um pequeno telheiro e separada do pátio por um patim a que se acedia directamente da rua.

A seguir, ainda se vê o que resta das ruínas da casa que foi de uma sua filha que ali viveu casada com António Orelha (filho) e morreu nova. Mas, em 1950 eles ainda eram solteiros e quem ali vivia era uma irmã dele, casada com um tal Henrique, ao que parece oriundo da zona do Vimeiro. Tendo ela morrido nova, o viúvo saiu da aldeia e a casa passou a propriedade do irmão dela.

Por fim, uns cinquenta metros depois, estava e ainda está O Poço do Moura  e, junto dele, acabada de construir, no ano de 1949, como atesta a pedra da era sobre a porta de entrada, a casa onde moraram António Maurício, conhecido por António da Silvina e Maria de Matos Ângelo, conhecida por Maria Rosa.


Dali até à Ataíja de Baixo mais nenhuma construção existia.


Ou seja, cerca de 1950, havia na Rua dos Arneiros (e nas Rua das Covas) um total de vinte e três casas habitadas e uns oitenta e cinco habitantes.


A casa que foi de António Lourenço, numa foto de 2010. A porta em primeiro plano é a da adega. A casa, construída nos últimos anos do séc. XIX, não tem janelas. A única janela é da adega, está sobre o lagar e a pedra cravada na parede (poial) serve para apoiar o pé da pessoa que faz a trasfega das uvas, da tina para o lagar.







[i] No Decreto de 28 de Julho de 1894 diz-se Fanhões. É lapso. Trata-se, sem dúvida, de Fanhais que então pertencia ao concelho de Alcobaça.


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

A Rua de Nossa Senhora da Graça em Meados do Século XX




A agora chamada Rua de Nossa Senhora da Graça vai, a breve prazo, sofrer uma alteração profunda e duradoura com a construção do Centro Paroquial e Casa Mortuária, que vão ocupar a totalidade do espaço dos edifícios que foram propriedade de Sabino Vigário e, ainda, o que sobra do que foi a Rua da Penicheira, chegando à Rua de Traz.

É, por isso, adequado deixar aqui uma memória de como era, em meados do Séc. XX, aquela foi uma das principais ruas da aldeia e, naquele tempo, já tinha algumas peculiaridades. 
Desde logo, o nome que nunca soube ou que, de todo, me não lembra. E, no entanto, os homens precisam de dar nomes às coisas, pelo que é certo que aquela rua há-de ter tido um outro nome, antes de há cerca de vinte anos ter recebido o actual.
Depois, porque a rua era em alguns pontos mais estreita, por ter um piso mais acidentado, incluindo uma espécie de degrau, em frente da porta da escola, e uma enorme lage que a estrangulava em frente da casa de Manuel Branco (esta casa não tinha alicerces e assentava sobre a dita lage), ou por não haver nela qualquer portão de pátio, (salvo o pequeno portão que se vê na foto junta), o certo é que a rua era, na prática, pedonal.

Começando lá por baixo, pelo largo do Fundo da Igreja:
Do lado direito, a norte, havia um lagar. O edifício ainda lá está e funciona agora como garagem do Diamantino Pereira. Tratava-se, certamente e vistas as suas dimensões, de um lagar de vinho. As virgens onde articulava a vara ainda são bem visíveis na parede que, precisamente, confina com a nossa rua. Há sessenta anos, essa parede não era rebocada e as virgens eram visíveis do exterior, embutidas na parede, no que me parecia, quando ainda não conhecia o interior, uma antiga e estreita porta emparedada.
Do lado sul, a capela. Sem a sacristia que, naquele tempo era do outro lado, provocando um estrangulamento da estrada que só foi eliminado na segunda metade dos anos de 1970, aquando do alcatroamento e da construção da sacristia actual.
Ao lagar seguia-se a casa de Maria Serafina ou Maria Constantina (era filha de Serafina dos Santos e de Constantino dos Santos, ambos enjeitados) que aí vivia viúva e só, estando a filha Delfina já casada na Rua dos Arneiros.
Logo, adossada, a casa de Manuel Maurício e da sua mulher Silvina. Esta era natural do Lorvão e foi a parteira que ajudou a nascer muitos ataíjenses. Naquele tempo, ainda ali viviam alguns dos filhos que foram, ao que julgo, quatro. Um Manuel, uma Zaida, uma Isaura e o António (da Silvina) que já estava casado, nas Pedras Brancas, num casal que fora da bisavó da sua mulher, e tem um poço, O Poço do Moura, de que já falamos neste blog.
Estas duas casas, as da Silvina e as da Maria Serafina são hoje propriedade de João Salgueiro, foram objecto de obras profundas e estão unidas em uma única residência.
Segue-se uma antiga casa de habitação que naquele tempo já era um palheiro de José Ribeiro, hoje do neto Vitor que a utiliza ou utilizou, como garagem e a casa que era da viúva Maria “da Serra” que foi casada com António Agostinho, meu tio-avô. Tiverem três filhos. O António Agostinho, a Joaquina “da Serra” que foi casada com Francisco Salgueiro e a Maria “da Serra” que foi casada com José Veríssimo. Esta casa foi, posteriormente, adquirida por José “Rebolão” e até há pouco tempo aí viveu a sua viúva, falecida em 1.1.2018.
Segue-se uma pequena travessa que liga à Rua de Trás e ligava, também, à desaparecida A Rua da Penicheira.

Seguem-se uns palheiros que hoje são do José Constantino (Zé Gordo) e, depois, o lugar onde eram as casas que foram de Sabino Vigário e onde este vivia com a sua esposa Joaquina Baptista e os filhos, António “Sabino” e Arnaldo, ainda solteiros, enquanto o mais velho, José, estava “lá para Lisboa”. Seguiam-se mais duas casas do mesmo dono. Uma, pequena, que sempre conheci sem telhado e, entre esta e a de residência, havia uma outra casa onde ele fazia biscates de sapateiro e, por isso, a família chamava de casa do ofício, mas outros chamavam de A Casa do Couto, por a certa altura ter sido propriedade de um comerciante alcobacense desse nome.

Do lado sul, à igreja segue-se o adro que, naquele tempo, era bastante mais pequeno pois lá faltam a  A Escola e o palheiro ou casa do Mira.
Segue-se adega que foi de José Ribeiro e hoje é do neto Rafael mas que não tem acesso senão pela Estrada do Lagar dos Frades. Segue-se a casa onde, naquele tempo, vivia, ainda solteiro, José Henriques, Também conhecido por José Neto e, vulgarmente, por Zé Diabo, primo de um outro José Henriques, também José Neto, conhecido por José Carago. Esta casa foi depois vendida e aí viveu a Badalhoiça com o seu filho Francisco “Casalinho”. 
Encostada, ainda lá está uma pequena casa que pertenceu aos pais do dito José Diabo. Casa antiga onde foi criado o enjeitado Tomé dos Santos, avô de Francisco Rosa Tomé e de Manuel Carlos Tomé que aí estão, vivos, felizmente e de, pelo menos, três raparigas, já falecidas.
Vem, depois, a casa onde viviam o “Cuco”, a sua mulher Teresa Neto, falecida de Tétano, e três filhos. Encostada a esta última estava a casa da “Viana” ou da “Biana”, que o meu tio Porfírio Coelho usava como arrecadação. 
Estas duas casas estão hoje recuperadas e unidas e nelas reside o Paulo Carreira, “o Rodinhas”.
Seguia-se (segue-se) um espaço onde antes houve casas, mas que nos anos cinquenta já era local de depósito de lenhas e, depois, uma pequena construção que agora tem dois pisos mas, naquele tempo, era apenas o palheiro onde vivia o burro do ti Manuel Branco.
Voltando ao lado norte da rua, aos cómodos de Sabino Vigário segue-se a casa que foi do meu tio Porfírio Coelho que então aí vivia com a sua segunda mulher, a minha tia Luísa e cinco filhos e no pátio da qual foi, posteriormente, construída a casa onde hoje vive a viúva do meu primo João “Porfírio”. 
A seguir, uma  travessa que liga ao largo que se forma na Rua de Trás e para onde dão o que resta da Rua da Penicheira e um beco onde havia a casa de O Padrinho Fialho , então já falecido, aquela onde vivia a minha tia Ana como o marido, dois filhos e a sogra viúva e o alpendre das traseiras da casa do ti João Redondo, hoje, tudo, propriedade do José Luís.
Voltando à Rua de Nossa Senhora da Graça, a seguir à dita travessa vem a casa, que ainda lá está, de António Daniel, o ti António Seabra, que aí vivia, julgo que já viúvo, com as três filhas e um filho, todos ainda solteiros.
Agora que a filha Maria, que a habitou nas últimas décadas, está internada num lar de idosos, o destino da casa está, talvez, traçado. O que é pena porque se trata como se vê a um simples olhar, de construção antiquíssima, uma das mais antigas, das poucas antigas que se mantém de pé na Ataíja de Cima. Ora, nesta coisa de conservar edifícios antigos, os mais fáceis de conservar são os mais ricos. A evidente modéstia da casa do Seabra fará, talvez, com que espíritos práticos achem que não merece ser conservada. É pena.
Seguiam-se a casa de Manuel Branco e Maria Custódia que sempre conheci sozinhos. Conheci-lhes, pelo menos, um filho. Um Manuel “Custódio” que morava para os Covões ou Lagoa do Cão, se me não falha a memória. A casa era minúscula e possuía um pequeno pátio nas traseiras. Não havendo outra serventia, tudo entrava e saía do pátio pela porta da casa.
No dito pátio viveu uma porca que, um dia, comeu o braço de uma criança filha do casal. 
Encostada, estava a casa dos meus avós paternos, onde vivi entre os meus três e dez anos de idade e, depois disso passei muitas vezes, as férias grandes. Mas, isso, são contas de outro rosário.
Esta casa já estava no pequeno largo formado pelo entroncamento com a Estrada do Lagar dos Frades, mas sendo esta muito mais recente, temos de considerar que a nossa rua seguia até onde está o supermercado da Lúcia “do Serrano”, onde, naquele tempo, eram as casas de Alfredo Ângelo da Silva. Antes dela, a casa, que agora é de Manuel Tomé e Francelina e, nos anos de mil novecentos e cinquenta, era de Maria “Caseira” e de seu marido Manuel “Barra”, no que eram as segundas núpcias dela, que tinha perdido o primeiro marido nas trágicas circunstâncias que descrevo no post Tétano, já acima mencionado.

Tudo visto, moram actualmente nesta rua umas oito pessoas. 

Há sessenta anos moravam aí mais de quarenta 


Vista actual (8-9-2019), da casa que foi de António Daniel, O Seabra