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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

A Rua de Nossa Senhora da Graça em Meados do Século XX




A agora chamada Rua de Nossa Senhora da Graça vai, a breve prazo, sofrer uma alteração profunda e duradoura com a construção do Centro Paroquial e Casa Mortuária, que vão ocupar a totalidade do espaço dos edifícios que foram propriedade de Sabino Vigário e, ainda, o que sobra do que foi a Rua da Penicheira, chegando à Rua de Traz.

É, por isso, adequado deixar aqui uma memória de como era, em meados do Séc. XX, aquela foi uma das principais ruas da aldeia e, naquele tempo, já tinha algumas peculiaridades. 
Desde logo, o nome que nunca soube ou que, de todo, me não lembra. E, no entanto, os homens precisam de dar nomes às coisas, pelo que é certo que aquela rua há-de ter tido um outro nome, antes de há cerca de vinte anos ter recebido o actual.
Depois, porque a rua era em alguns pontos mais estreita, por ter um piso mais acidentado, incluindo uma espécie de degrau, em frente da porta da escola, e uma enorme lage que a estrangulava em frente da casa de Manuel Branco (esta casa não tinha alicerces e assentava sobre a dita lage), ou por não haver nela qualquer portão de pátio, (salvo o pequeno portão que se vê na foto junta), o certo é que a rua era, na prática, pedonal.

Começando lá por baixo, pelo largo do Fundo da Igreja:
Do lado direito, a norte, havia um lagar. O edifício ainda lá está e funciona agora como garagem do Diamantino Pereira. Tratava-se, certamente e vistas as suas dimensões, de um lagar de vinho. As virgens onde articulava a vara ainda são bem visíveis na parede que, precisamente, confina com a nossa rua. Há sessenta anos, essa parede não era rebocada e as virgens eram visíveis do exterior, embutidas na parede, no que me parecia, quando ainda não conhecia o interior, uma antiga e estreita porta emparedada.
Do lado sul, a capela. Sem a sacristia que, naquele tempo era do outro lado, provocando um estrangulamento da estrada que só foi eliminado na segunda metade dos anos de 1970, aquando do alcatroamento e da construção da sacristia actual.
Ao lagar seguia-se a casa de Maria Serafina ou Maria Constantina (era filha de Serafina dos Santos e de Constantino dos Santos, ambos enjeitados) que aí vivia viúva e só, estando a filha Delfina já casada na Rua dos Arneiros.
Logo, adossada, a casa de Manuel Maurício e da sua mulher Silvina. Esta era natural do Lorvão e foi a parteira que ajudou a nascer muitos ataíjenses. Naquele tempo, ainda ali viviam alguns dos filhos que foram, ao que julgo, quatro. Um Manuel, uma Zaida, uma Isaura e o António (da Silvina) que já estava casado, nas Pedras Brancas, num casal que fora da bisavó da sua mulher, e tem um poço, O Poço do Moura, de que já falamos neste blog.
Estas duas casas, as da Silvina e as da Maria Serafina são hoje propriedade de João Salgueiro, foram objecto de obras profundas e estão unidas em uma única residência.
Segue-se uma antiga casa de habitação que naquele tempo já era um palheiro de José Ribeiro, hoje do neto Vitor que a utiliza ou utilizou, como garagem e a casa que era da viúva Maria “da Serra” que foi casada com António Agostinho, meu tio-avô. Tiverem três filhos. O António Agostinho, a Joaquina “da Serra” que foi casada com Francisco Salgueiro e a Maria “da Serra” que foi casada com José Veríssimo. Esta casa foi, posteriormente, adquirida por José “Rebolão” e até há pouco tempo aí viveu a sua viúva, falecida em 1.1.2018.
Segue-se uma pequena travessa que liga à Rua de Trás e ligava, também, à desaparecida A Rua da Penicheira.

Seguem-se uns palheiros que hoje são do José Constantino (Zé Gordo) e, depois, o lugar onde eram as casas que foram de Sabino Vigário e onde este vivia com a sua esposa Joaquina Baptista e os filhos, António “Sabino” e Arnaldo, ainda solteiros, enquanto o mais velho, José, estava “lá para Lisboa”. Seguiam-se mais duas casas do mesmo dono. Uma, pequena, que sempre conheci sem telhado e, entre esta e a de residência, havia uma outra casa onde ele fazia biscates de sapateiro e, por isso, a família chamava de casa do ofício, mas outros chamavam de A Casa do Couto, por a certa altura ter sido propriedade de um comerciante alcobacense desse nome.

Do lado sul, à igreja segue-se o adro que, naquele tempo, era bastante mais pequeno pois lá faltam a  A Escola e o palheiro ou casa do Mira.
Segue-se adega que foi de José Ribeiro e hoje é do neto Rafael mas que não tem acesso senão pela Estrada do Lagar dos Frades. Segue-se a casa onde, naquele tempo, vivia, ainda solteiro, José Henriques, Também conhecido por José Neto e, vulgarmente, por Zé Diabo, primo de um outro José Henriques, também José Neto, conhecido por José Carago. Esta casa foi depois vendida e aí viveu a Badalhoiça com o seu filho Francisco “Casalinho”. 
Encostada, ainda lá está uma pequena casa que pertenceu aos pais do dito José Diabo. Casa antiga onde foi criado o enjeitado Tomé dos Santos, avô de Francisco Rosa Tomé e de Manuel Carlos Tomé que aí estão, vivos, felizmente e de, pelo menos, três raparigas, já falecidas.
Vem, depois, a casa onde viviam o “Cuco”, a sua mulher Teresa Neto, falecida de Tétano, e três filhos. Encostada a esta última estava a casa da “Viana” ou da “Biana”, que o meu tio Porfírio Coelho usava como arrecadação. 
Estas duas casas estão hoje recuperadas e unidas e nelas reside o Paulo Carreira, “o Rodinhas”.
Seguia-se (segue-se) um espaço onde antes houve casas, mas que nos anos cinquenta já era local de depósito de lenhas e, depois, uma pequena construção que agora tem dois pisos mas, naquele tempo, era apenas o palheiro onde vivia o burro do ti Manuel Branco.
Voltando ao lado norte da rua, aos cómodos de Sabino Vigário segue-se a casa que foi do meu tio Porfírio Coelho que então aí vivia com a sua segunda mulher, a minha tia Luísa e cinco filhos e no pátio da qual foi, posteriormente, construída a casa onde hoje vive a viúva do meu primo João “Porfírio”. 
A seguir, uma  travessa que liga ao largo que se forma na Rua de Trás e para onde dão o que resta da Rua da Penicheira e um beco onde havia a casa de O Padrinho Fialho , então já falecido, aquela onde vivia a minha tia Ana como o marido, dois filhos e a sogra viúva e o alpendre das traseiras da casa do ti João Redondo, hoje, tudo, propriedade do José Luís.
Voltando à Rua de Nossa Senhora da Graça, a seguir à dita travessa vem a casa, que ainda lá está, de António Daniel, o ti António Seabra, que aí vivia, julgo que já viúvo, com as três filhas e um filho, todos ainda solteiros.
Agora que a filha Maria, que a habitou nas últimas décadas, está internada num lar de idosos, o destino da casa está, talvez, traçado. O que é pena porque se trata como se vê a um simples olhar, de construção antiquíssima, uma das mais antigas, das poucas antigas que se mantém de pé na Ataíja de Cima. Ora, nesta coisa de conservar edifícios antigos, os mais fáceis de conservar são os mais ricos. A evidente modéstia da casa do Seabra fará, talvez, com que espíritos práticos achem que não merece ser conservada. É pena.
Seguiam-se a casa de Manuel Branco e Maria Custódia que sempre conheci sozinhos. Conheci-lhes, pelo menos, um filho. Um Manuel “Custódio” que morava para os Covões ou Lagoa do Cão, se me não falha a memória. A casa era minúscula e possuía um pequeno pátio nas traseiras. Não havendo outra serventia, tudo entrava e saía do pátio pela porta da casa.
No dito pátio viveu uma porca que, um dia, comeu o braço de uma criança filha do casal. 
Encostada, estava a casa dos meus avós paternos, onde vivi entre os meus três e dez anos de idade e, depois disso passei muitas vezes, as férias grandes. Mas, isso, são contas de outro rosário.
Esta casa já estava no pequeno largo formado pelo entroncamento com a Estrada do Lagar dos Frades, mas sendo esta muito mais recente, temos de considerar que a nossa rua seguia até onde está o supermercado da Lúcia “do Serrano”, onde, naquele tempo, eram as casas de Alfredo Ângelo da Silva. Antes dela, a casa, que agora é de Manuel Tomé e Francelina e, nos anos de mil novecentos e cinquenta, era de Maria “Caseira” e de seu marido Manuel “Barra”, no que eram as segundas núpcias dela, que tinha perdido o primeiro marido nas trágicas circunstâncias que descrevo no post Tétano, já acima mencionado.

Tudo visto, moram actualmente nesta rua umas oito pessoas. 

Há sessenta anos moravam aí mais de quarenta 


Vista actual (8-9-2019), da casa que foi de António Daniel, O Seabra




quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A casa do Couto

Um burguês de Alcobaça proprietário na Ataíja de Cima e, ao correr da pena, uma profissão extinta: O carreiro.


O Couto, um comerciante alcobacense de tecidos, foi um dos muitos burgueses que, durante mais de um século, possuíram as maiores e melhores propriedades da Ataíja de Cima.

Foi dele o olival conhecido por Olival do Couto ou, Olival do Sá que, em meados do Séc.XX, era a única propriedade ataijense com caseiro residente (ainda existem as ruínas da casa, com seus cómodos e, em frente, do outro lado da serventia de acesso, a cisterna). Em parte deste olival encontram-se agora as instalações da empresa Germano & Cordeiro, Lda.

Também foi dele a casa abaixo fotografada, perto da Capela de Nossa Senhora da Graça.

Esta casa, anexa à de Sabino Vigário, foi por este comprada ao Couto e usada como “casa do ofício”, onde o Sabino fazia os seus biscates de sapateiro, nos tempos mortos da sua actividade principal que era a de “carreiro”.

O carreiro era quem, com a sua junta de vacas, fazia todos os trabalhos que hoje são desempenhados pelos tractores e camiões: lavrar e gradar, transportar os produtos agrícolas, o mato e a lenha e todos os materiais de construção.

O carreiro ganhava a jorna correspondente a quatro homens e tinha, ainda, direito a almoço que era, sempre, melhorado: um refogado leve, sobre o qual coziam arroz ou massa de meada, com grão-de-bico ou feijão, acompanhados por um apontamento de bacalhau.

Nos primeiros dias de Setembro, quando o serviço da eira já tinha há muito terminado e as palhas já estavam arrecadadas, ainda era cedo para as lavouras de Inverno e as vindimas locais só teriam lugar lá para o fim do mês, pouco trabalho havia para um carreiro.

Então o Sabino (e o mesmo fazia António Matias) metia-se, a pé, com a sua junta de vacas que rebocava dois carros, cada um com sua tina e, lá ia, dois dias de caminho, até ao Bombarral para fazer o transporte das uvas para as adegas.


Não foi há tanto tempo assim. O filho Arnaldo, pouco mais velho do que eu, aí está, vivo e de boa saúde e bem lembrado dos muitos dias que passou conduzindo aquela junta de vacas.

A casa do Couto

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Os olivais da Ataíja, com (a despropósito) uma curiosidade sobre a morte de D. Maria II

Os olivais da Ataíja

Durante mais de duzentos anos, pelo menos desde o início do Séc.XVIII e até passados os meados do Séc. XX, a Ataíja viveu em redor dos grandes olivais que a cercavam e preenchiam todo o espaço até à base da Serra dos Candeeiros.

A importância da cultura da oliveira é, ainda agora, evidente pelo peso que tem na toponímia local e pelo número de lagares que, ainda muito recentemente, existiam na região.

Grande parte dos olivais era, no entanto, propriedade de não residentes. Apenas algumas famílias, em regras as de maiores posses, possuíam terrenos nos “Olivais”, nome que, genericamente, se dava a todos os terrenos situados nas margens do actual IC2. Para os naturais ficavam as terras situadas na crista da margem esquerda da ribeira do Mogo, os respectivos vales e parte da encosta da margem direita.

Exemplos de olivais propriedade de não residentes:

Olival da Maria Almeida, propriedade de uma Maria Almeida que não consegui, ainda, melhor identificar.
Olival do Brilhante, propriedade do Dr. Brilhante (José Maria dos Santos Brilhante, 1821-1880) natural de Alcobaça, onde há uma rua com o seu nome. Foi ilustre médico homeopata e publicista, proprietário e redactor da revista Agulha Médica e da Gazeta Homeopática Lisbonense, escreveu muito em diversos jornais e revistas.
Por curiosidade, aqui fica uma parte do que o Dr. Brilhante escreveu a propósito das condições em que se verificou a morte de D. Maria II, ocorrida em 15 de Novembro de 1853, durante os trabalhos do seu décimo-primeiro parto, tinha então a Rainha 34 anos:
«O boletim destes médicos é o seu corpo delicto. [...] Correm por aqui differentes evasivas e diz-se que já estava profetisada a morte e S. M. advertida disto pelos seus médicos! Sendo assim, e tendo os seus práticos dados sufficientes para esta profecia, deviam ter-lhe praticado o parto prematuro do 4.º mez em diante, e porque não o fizeram?...
A verdade é esta: os seus médicos à excepção de Manoel Carlos Teixeira, não sabiam, nem sabem nada de partos. O doutor Elias e Benevides são dois velhos, médicos exclusivos, e ignorantes de tudo que diz respeito à cirurgia; o doutor Kesseler é um pratico sem experiencia e está no mesmo caso; o Farto é um antiquíssimo cirurgião que apenas sabe ler, se sabe, e nada mais. Foram estes os cinco práticos que deram recursos à Soberana.
Depois de morta, veio o Snr. Marquez de Fronteira buscar o Snr. José Lourenço da Luz, operador conhecidissimo pela sua habilidade, e dizem que tambem fora chamado o Snr. Magalhães Coutinho! O Snr. José Lourenço da Luz entrou no quarto de S. M., achou-a morta, ajoelhou, beijou-lhe a mão e sahiu consternado. Quizeram que elle assignasse o boletim, e ele não quis... As inteligencias só foram chamadas para fiscalizarem a morte!!
Espero que «O Esculapio» se occupe de fustigar a ignorância, para que ela não mova os destinos da minha infeliz pátria. [..]
22 de Novembro de 1853»
In. O ESCULAPIO: Boletim Semanal de Medicina, Cirurgia e Pharmacia, Lisboa, 21 de Dezembro de 1853
Olival do Capitão, ou Olival do Mira. O capitão Silva Mendes, figura muito conhecida na região na primeira metade do Séc. XX, era natural de Turquel, fez parte do Corpo Expedicionário Português que combateu em França durante a Primeira Guerra Mundial e foi, durante muitos anos, Governador Civil de Leiria e Deputado da União Nacional.
Olival do Couto, ou Olival do Sá.
Olival do Frade, ou Olival dos Frades, ou olival do Santíssimo.
Olival do José dos Santos, Um olival que era propriedade de um José dos Santos, dos Montes.
Olival do Mira, é o mesmo olival que foi do Capitão Silva Mendes. O Mira, ao que julgo assim chamado por ser da zona de Mira de Aire, era mais um de vários proprietários absentistas, residentes fora da aldeia. Toleravam e não agradeciam que alguns locais cultivassem as terras e apenas recolhiam para si a azeitona. Neste olival, na parte a oeste do IC 2, estão, actualmente, as instalações dos Armazéns São Vicente.
Olival do Raimundo, o olival que começava Traz do Muro e, em 1834, era propriedade do Coronel Raimundo Veríssimo de Sousa. A designação de Olival do Raimundo mantém-se, aplicada a uma parte desse olival, situada um pouco mais a norte. Na parte a Oeste do IC 2 estão, actualmente, as instalações da empresa Arte e Fogo e outras.
Olival do Sá. O Sá era genro do Couto, a quem sucedeu na propriedade (ambos eram comerciantes em Alcobaça). Assim, o olival do Sá e o do Couto são um e o mesmo. Está, hoje em dia, parcialmente ocupado pelas instalações da Germano & Cordeiro, Lda. Mantém-se, embora ameaçando ruína, a casa dos caseiros, com pátio, curral e cisterna. Nesta cisterna abasteceu-se, durante muitos anos, a família de Porfírio Coelho, até que os filhos, cansados de percorrer quilómetros por um cântaro de água, conseguiram que o pai acedesse a construir uma pequena cisterna no pátio da sua casa.
Olival do Santíssimo, v. Olival dos Frades.
Olival do Zé Militar, O José Militar era um comerciante alcobacense.
Olival dos Frades. Também chamado Olival do Santíssimo por, ao que parece e como já explicamos num outro post, os frades usarem um sistema de contabilidade por consignação, seja, em que as diferentes receitas eram, previamente e por regra, afectas a diferentes tipos de despesa, sendo as receitas deste olival usadas para suportar as despesas do culto e louvor ao Santíssimo Sacramento. Era, em 1885, propriedade do Dr. Zagalo, médico de Alcobaça e foi, depois, de Olímpio Trindade Jorge, comerciante de Alcobaça, o qual marcou os limites da propriedade com um vasto conjunto de imponentes marcos, muitos deles ainda hoje existentes. Todos esses marcos têm gravadas, de um dos lados, as iniciais do Santíssimo Sacramento (SS) e, por baixo, as do proprietário (OTJ) e, do outro lado, o número do marco. Mais tarde, em 1918, este olival veio a ser adquirido pelo ataíjense Matias Ângelo.

Sendo os olivais de não residentes, natural era que o mesmo se passasse com os lagares. Eram propriedade de comerciantes alcobacenses o Lagar de Ferro (assim chamado por ter sido o primeiro a ser equipado com prensas hidráulicas), na Ataíja de Baixo e o lagar do Diamantino (de Diamantino dos Santos Vazão), entre a Ataíja de Cima e os Casais de Santa Teresa.

Outros olivais:

Olival da Burra. Fica a meio da Rua do Martins que há cinquenta anos era lugar de olivais densos. Havia ali várias oliveiras situadas fora de paredes, na margem do caminho. Eram as oliveiras da Senhora, pertença de uma antiga e então já desaparecida, Confraria de Nossa Senhora da Graça. Também havia oliveiras da Senhora em pleno terreno de outrem (vim mais tarde a perceber que se tratava de direitos de superfície), em vários locais. Competia ao Juiz designado da festa de Nossa Senhora da Graça (Nossa Senhora das Candeias, como se chama em outras terras), providenciar o tratamento das oliveiras, designadamente a poda e a apanha da azeitona, a benefício da Capela.
Olival da Casa. Por nele haver uma construção que servia para guarda de utensílios, adubos, sementes, colheitas e alfaias agrícolas e de abrigo contra as intempéries.
Olival da Estrada. Algumas pessoas designam assim as suas respectivas parcelas quando situadas junto do IC 2.
Olival da Raposa. Onde se situam as instalações da cerâmica Safaril (actualmente desactivada).
Olival da Senhora. Na separação entre a Ataíja e os Casais de Santa Teresa, no caminho que, saindo da Rua das Seixeiras para poente, leva aos Casais de Baixo. Foi arrancado quando eu era pequeno e, em seu lugar, semeado pinhal. Era propriedade da Confraria de Nossa Senhora da Graça.

Nota: Este post resume algumas investigações que vimos fazendo sobre a toponímia ataijense. Tenho consciência de que está incompleto e tem, talvez, alguns erros. Agradeço aos leitores que encontrem omissões, erros ou outras deficiências, toda a colaboração que puderem prestar. Contacto: jose.quiterio@sapo.pt


A Ataíja, em meados do Séc. XX era, ainda, um imenso mar de oliveiras:
(fotografia de meados dos anos cinquenta do Séc. XX, publicada na monografia "A Região a Oeste da Serra dos Candeeiros", edição do Centro de Estudos de Economia Agrária da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1961)

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O Caminho do Forno e o Caminho do Barreirão



Um destes dias reparei numa placa, recentemente colocada no caminho que, a poente do campo de futebol, no início da Rua do Martins, segue para sul e ao qual a tal placa chama de Rua dos Barreiros.
Já há uns tempos que andava para falar desta rua porque, a 250 metros do seu início, quando atravessa o terreno que no meu tempo era conhecido por “Olival do Sá” ou “Olival do Couto”, se encontra o caminho “cortado”, numa distância de cerca de 50 metros, por um inusitado prolongamento do chão de uma oficina de transformação de pedra cujo pavimento se prolonga para poente criando um grande parque que ocupa o caminho e continua, de novo na propriedade privada da tal oficina, como se, tudo, propriedade privada fosse.

Não está (ainda não está?) o caminho fechado pelo que se pode subir do nível mais baixo a que normalmente se desenvolve, atravessar o dito “parque” e descer de novo para o nível do caminho continuando, então, até à Ataíja de Baixo, como secularmente se pode fazer.

Vejo agora que os nossos autarcas e todos aqueles que têm por dever zelar pelo interesse público (e, somos todos) não contentes em ficarem impávidos e serenos perante o que acima se descreve, resolveram chamar o dito caminho de Rua dos Barreiros.

Já antes aconteceu, num caminho paralelo, uma situação idêntica: 
Às tantas, a ignorância autárquica resolveu chamar Rua do Lagar à rua que, do lado da serra, bordeja o campo de futebol e o Largo do Cabouqueiro.

É certo que, pelo menos desde os finais do século XIX, lá existe um lagar, onde o Pedro Vigário continua a fazer azeite como já ali o fizeram o seu pai, o seu avô e o seu bisavô.
É certo que encostado a este houve um outro lagar, de que ainda se vislumbram ruínas. Mas esse teve vida mais curta: nasceu de umas partilhas e de umas partilhas morreu.
Seja como for, o dito caminho nunca se chamou caminho do lagar, nem tinha, agora, que se chamar Rua do Lagar. Antes, sempre (ou, pelo menos, durante uns duzentos e cinquenta anos) se chamou caminho do Forno.

Caminho do Forno porque à sua beira, onde agora são as traseiras da fábrica da MVC – Mármores de Alcobaça, Lda, existia um forno de cal que foi, certamente, propriedade dos frades de Alcobaça e terá servido para fabricar a cal indispensável à grande obra de construção do lagar a cujas ruínas hoje chamamos Casa do Monge Lagareiro. Os mais velhos dos ataijenses ainda se lembrarão das ruínas desse forno que, aliás, só há algumas décadas desapareceram de vez.

Veja-se a escritura de compra e venda, celebrada em Alcobaça, no Cartório do Notário Próspero Eugénio Carreira, no dia 28 de Janeiro de 1944, sendo vendedores Raul Ferreira da Bernarda e mulher Mariana Coelho, de Alcobaça e comprador José Ribeiro, da Ataíja de Cima:

Um olival denominado Olival do Santíssimo, confronta a Norte com Basílio Pereira Clemente, herdeiros de José Pereira Clemente, Francisco Vigário, herdeiros de Francisco Malhó e outros, Sul com José Fonseca Júnior, Nascente com Serra e Poente com caminho da Ataíja e herdeiros de José Pereira da Conceição. É uma quarta parte do olival dos frades. Parte desanexada e vendida: sete desasseis avos (desta quarta parte). A parte vendida é olival e confronta a Norte com Basílio Pereira Clemente, Sul com José Fonseca Júnior, Nascente com Serra e Poente com caminho do Forno.

Quase paralelo ao caminho do Forno, desenvolve-se o tal caminho a que agora chamaram Rua dos Barreiros. 
Mais uma vez, falou o desconhecimento.
Este caminho sempre foi chamado de caminho do Barreirão e, portanto, o seu nome devia ser Rua do Barreirão.

E, porquê caminho do barreirão? Porque, um barreiro, dizem-nos os dicionários, é uma lagoa pequena, (mas quando eu era miúdo, qualquer poça era um barreiro). Barreirão era e é, naturalmente, um barreiro grande.
Numa terra onde a escassez de água sempre condicionou a vida, todas as formações, naturais ou não, capazes de reter, ainda que temporariamente, qualquer quantidade, por pequena que fosse, do precioso líquido eram conhecidas e reconhecidas. Daí, que haja pias e piões, covas e covões, barrocos e barrocões, barreiros e barreirões, lagoinhas e lagoas.

Ali, onde estão as ruinas da Casa do Monge Lagareiro e em toda uma extensão paralela ao actual IC2, onde se situam as cotas de nível mais baixas e, portanto, para onde todas as águas tendem a escorrer, situava-se a grande Lagoa Ruiva, a maior lagoa que havia muitos quilómetros em redor e, naturalmente, outras lagoas e vários barreirões. Percebe-se para quê vendo, por exemplo, o Mapa elaborado em finais do seculo XVIII para a construção da estrada de Rio Maior a Leiria[i], a chamada Estrada de D. Maria, cujo traçado é, no geral, ainda bastante reconhecível. No troço desse mapa relativo à zona da Ataíja são, para o lado dos Casais de Santa Teresa, identificadas três lagoas com os respectivos lagares e, entre a Lagoa Ruiva e a Venda da Laranja, (ficava entre os Covões e Nossa Senhora da Piedade), são referidos mais três lagares, cada um deles carecendo de ter por perto a sua lagoa ou o seu barreirão (como exemplo de barreirões junto a lagares de azeite veja-se o caso dos Molianos onde, junto ao Lagar do Barreirão que actualmente serve de sede ao Rancho Folclórico, a Junta de Freguesia de Évora acaba de requalificar a lagoa, ou barreirão).

Veja-se esta escritura celebrada em 30 de Outubro de 1939, em Alcobaça, no cartório da Notária Tetralda Botelho Teixeira de Lemos, pela qual o Capitão Silva Mendes, uma célebre figura regional de que já falamos neste blog, comprou a Manuel Ângelo da Silva (que tinha herdado do seu pai Matias Ângelo um quarto do olival dos frades):

1/8 do Olival dos Frades, nesta parte confrontando de norte com Basílio Pereira Clemente e herdeiros de José Pereira Clemente, Sul José da Fonseca, Nascente Serra e Poente caminho do Barreirão


Eis, assim, três coisas mal feitas.
Todas ainda têm emenda.





[i] V. Azevedo, Ricardo Charters, A ESTRADA de Rio Maior a Leiria em 1791, Textiverso, Leiria, 2011

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Gente da Ataíja de Cima - António Baptista Vigário - o António Sabino



Sob a epígrafe Gente da Ataíja de Cima pretendemos construir uma galeria que lembre aos mais velhos e ensine aos mais novos, algumas pessoas que, pelas suas características ou pela sua acção deixaram, na vida da aldeia, uma marca de importância que merece ser conhecida.
A transição da economia agrícola de subsistência, que durante séculos caracterizou a vida local, para a economia industrial que começou (e continua) pela extracção de pedra (a apreciada rocha ornamental que tem a designação comercial de Vidraço de Ataíja), a que se seguiu a faiança e agora, a transformação de pedra e todas as actividades subsidiárias que entretanto foram surgindo, por serem indispensáveis à vida normal de uma comunidade industrial e ao evoluir dos tempos. Essa transição, dizíamos, também teve os seus protagonistas.
Já falamos neste blog do pioneiro João Veneno e de Luís da Graça (VER AQUI).

Falemos, agora, de António Baptista Vigário, o António Sabino.



Nascido em 6 de Julho de 1932, foi um dos três filhos de Sabino[i] Vigário e de Joaquina Baptista e, pelo lado paterno, neto de José Lourenço e Luísa Sabino, alfaiates e bisneto de José Vigário e Ana Lourenço e de Sabino dos Santos, também alfaiate e Maria Branca.
Teve dois irmãos:
José, o mais velho dos três, já falecido e que fez a maior parte da sua vida “lá para Lisboa”[ii], também teve por alcunha o nome do pai e foi, por sua vez, ao que se dizia, responsável pela alcunha do Manuel “Mochila”. É que o José Sabino era acordeonista ou aprendiz de acordeonista[iii] e, transportava o instrumento às costas, à laia de mochila. O dito Manuel “Mochila” nasceu de mãe solteira e mais não é preciso contar que os filhos de mãe solteira eram, sempre, alcunhados por referência ao pai presumido.
O outro irmão, o mais novo, é o Arnaldo que, pela raridade - durante décadas, mesmo, singularidade - do nome, nunca precisou de alcunha.

Desde novo que o António Sabino mostrou apetência para os negócios e pouca vontade de seguir as pisadas do pai que era carreiro[iv] profissional e, nos tempos mortos da sua actividade principal, também arriscava o ofício de sapateiro, o qual exercia na Casa do Couto.
Negociar tudo o que podia ser negociado, fossem peles de coelho ou chinelos velhos e, no devido tempo, candonga de azeite, foram actividades a que o António Sabino se dedicou logo na adolescência, muitas vezes tendo por companheiro de aventuras o amigo Luís da Graça, apenas alguns meses mais velho.
Os negócios corriam bem como o demonstra o facto de, aos dezoito anos, ter sido emancipado para poder tirar a carta de condução e, de seguida, comprar (já nem o próprio se lembra bem, se em 1950, se em 1951) um automóvel, um velho Opel que foi o primeiro veículo automóvel ligeiro de passageiros que houve na Ataíja de Cima. (VER AQUI)

Em 4 de Março de 1956, aos 23 anos de idade, essa tendência para o negócio ficou definitiva e necessariamente fixada. Nesse dia, quando ia à "pendura" na moto (eu tinha a memória de que era uma Norton mas, há quem jure que era uma AJS) do seu amigo António Faustino Ribeiro, “O Mosca” o qual, por vezes, também era companheiro nas aventuras da candonga do azeite[v], um grave acidente levou-o por largo tempo ao hospital, deixou-o a coxear para o resto da vida e livrou-o, de vez, de ter de vir a trabalhar no campo ou em outra actividade de igual exigência física.

Por essa altura, tinha sido construída no Largo do Outeiro a “casa do Maneta”, destinada a armazém de alfaias, adubos e produtos agrícolas, taberna e casa do rancho[vi].
Curado tomou então, em 1957, a exploração da taberna e aí ficou durante cerca de seis anos, até ao seu casamento, em 1963.

Em 1959, tornou-se um dos pioneiros da exploração da pedra VIDRAÇO de ATAÍJA, abrindo uma pedreira nos Caramelos.
A pedreira ainda existe. É a Pedreira “Caramelo 3”, propriedade de Mármores Vigário, Lda.

Em data que não consegui apurar, por volta de 1969/70, foi episódico (durante cerca de um ano) proprietário, ou co-proprietário da Safaril[vii], a primeira fábrica de faiança que existiu na Ataíja de Cima[viii].

Em 1984 entrou em novo ramo de negócio abrindo, sempre na Ataíja de Cima, uma fábrica de recauchutagem de pneus.

Entretanto, em 1963, tinha-se casado com Maria do Rosário, oriunda das Pedreiras e, infelizmente, precocemente falecida. Para instalar a nova família, comprou a casa e quintal da Benedita (a Benedita era uma senhora que sempre conheci viúva e, vim a sabê-lo mais tarde, o era de um marido que tinha falecido “na América”, não tenho a certeza se nos EUA se no Canadá) e aí construiu uma casa de dois pisos, sendo o primeiro andar destinado à habitação e o rés-do-chão a taberna e mercearia.
Esta foi a primeira casa da Ataíja de Cima equipada, de raíz, com casa(s) de banho(s) (2).


Hoje, aos 82 anos de idade, o António Sabino contempla, com justificado orgulho, o trabalho dos filhos, o Rogério e o Luís que dão, brilhantemente, continuidade ao pioneirismo do pai, dedicando-se à extracção e transformação de pedra, através das empresas Mármores Vigário, Lda e MVC - Mármores de Alcobaça, Lda.

À MVC – Mármores de Alcobaça, Lda., uma empresa com instalações fabris de grande dimensão, altamente sofisticada, dotada dos equipamentos e tecnologias mais modernas, o que lhe permite produtos de grande qualidade e, consequentemente, actuar nos mais exigentes mercados de exportação, já dedicamos um texto neste blog. (VER AQUI)

Sítio de internet da MVC – Mármores de Alcobaça, Lda:




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O texto acima foi publicado neste blog em 27 de setembro de 2014.

António Baptista Vigário, António Sabino, faleceu hoje, dia 04 de novembro de 2021, aos 89 anos, escassos dias após o seu amigo de sempre, Luis da Graça. Com ele, com eles, morre a geração de pioneiros que levou a Ataíja de Cima da agricultura de subsistência à economia industrial.






[i] Como é muito comum, o nome próprio do pai tornou-se alcunha do filho.
[ii] “lá para Lisboa” era uma expressão corrente que muitas vezes ouvi na boca de mulheres mais velhas que só escassamente faziam idéia de onde andavam os seus maridos e filhos.
[iii] É minha a hipótese de ter sido, apenas, aprendiz e nunca terá efectivamente feito carreira de acordeonista ou, então, desistiu cedo dela. É que nunca lhe conheci acordéon e nem me lembro de alguém, alguma vez, me ter dito que o ouviu tocar.
[iv] Carreiro, era o profissional que conduzia o seu carro de bois, com o qual faz transportes e, com as alfaias, - charrua, grade, trilho, etc. - prestava outros serviços agrícolas com a sua junta de bois (ou vacas, o que era o caso). Não confundir com abegão que desempenhava funções semelhantes mas enquanto trabalhador ao serviço de uma exploração agrícola.
[v] O cerrado controlo estatal sobre os abastecimentos alimentares que tinha atingido o seu pico durante a guerra com o racionamento, era o pretexto perfeito para o trânsito ilícito dos bens mais valiosos como o azeite.
[vi] Naquele tempo, em que não havia empregos fixos, eram cíclicas as deslocações de grandes grupos para tarefas agrícolas exigentes de muita mão-de-obra. Para a Ataíja, cujos campos eram um enorme mar de oliveiras, vinham, no devido tempo, grupos de pessoas – ranchos - de fora da aldeia para trabalhar na apanha da azeitona.
[vii] A fábrica começou a ser construída em 1969, na perspectiva da chegada da electricidade que viria a acontecer em Outubro desse ano. Embora a escritura de constituição da Safaril seja de 1972, o início da laboração é anterior.
[viii] Que adquiriu a uns tais Caetano e Fróis que julgo terem sido os empreendedores iniciais. Daquele Fróis, lembro-me de um dia em que, na adega do meu pai, bebeu mais do que a conta e foi o filho, então com uns escassos doze anos, quem conduziu o carro até a casa.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Descendência de D. João II na Ataíja

D. João II, Rei de Portugal, chamado o Príncipe Perfeito, nasceu em 1455 e morreu em 1495, tendo reinado desde 1477 até à sua morte.
Durante o seu reinado tiveram lugar as viagens de Diogo Cão, (desembarque e colocação de um padrão na foz do rio Zaire e reconhecimento de toda a costa de Angola, até à Namíbia); de Bartolomeu Dias, (dobragem do Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África e entrada no oceano Índico, abrindo, assim, o caminho marítimo para a Índia); a assinatura do Tratado de Tordesilhas, celebrado com Espanha, pelo qual o mundo foi dividido em duas partes e garantida para Portugal a posse do Brasil, cuja descoberta oficial havia de ter lugar seis anos depois; a viagem terrestre de Pero da Covilhã e Afonso de Paiva, pelos territórios do Egipto, Etiópia, Moçambique, Arábia e Irão.
Ao mesmo tempo que foi responsável pela época de ouro dos descobrimentos portugueses, levou a cabo uma política interna de reforço do poder real, para o que não hesitou em mandar matar, ou fazê-lo por suas próprias mãos, os nobres mais poderosos do Reino.
Teve ainda tempo para umas escapadelas do leito conjugal, sendo-lhe conhecidos filhos bastardos de, pelos menos, duas mães diferentes.
Dessas aventuras viria a resultar, mais tarde, o nascimento de alguns ataíjenses. Vejamos como:

D. João II teve por amante Brites Anes, a Boa Dona (nascida cerca de 1460) e dessa relação nasceu Brites Anes de Santarém.

Brites Anes de Santarém, (nascida cerca de 1485), mãe de Brites Anes Baracho senhora da Quinta e Torre de Vale de Esteio, e filha reconhecida do Senhor Rei D. João, que Santa Glória haja, havida em Brites Anes de Santarém, a Boa Dona, que era filha de Álvaro Anes de Santarém, morador e senhor que foi do dito solar, torre e morgado de Vale de Esteio, rico-homem e vassalo d’El-Rei D. João I.

Brites Anes Baracho (nascida cerca de 1510), casou com João Pires Amado (nascido cerca de 1500) e tiveram quatro filhos, entres eles Pedro Anes Amado.

Pedro Anes Amado, fidalgo da casa real, morreu em 1612 com mais de 100 anos (por outro lado, há quem sustente que terá nascido cerca de 1540).

António Amado (nascido cerca de 1570), filho de Pedro Anes Amado, não foi senhor da casa de seu pai, por lhe ter pré-falecido. Casou com Catarina Dias Delgado, filha de Filipe Delgado, fidalgo da casa do Sr. Cardeal-Rei (Cardeal D. Henrique). Morou em Aljubarrota.

António Amado, o Moço, (nascido cerca de 1600) filho de António Amado, foi Senhor de Vale Esteio por morte de seu avô, mas com o Couto quebrado e casas arrasadas, o que Filipe II mandou por um decreto por terem seguido o partido de D. António, Prior do Crato, na sua pretensão ao Trono. Teve vinte filhos. Casou 2 vezes, a segunda com Domingas Fernandes de Carvalho de lhe deu oito filhos, entre eles, Antónia (ou Antonieta?) Amado.

Antónia Amado (nascida cerca de 1630), filha da 2ª mulher de António Amado, casou com Manuel Coelho (nascido cerca de 1625), do lugar da Ataíja, no termo de Aljubarrota. Tiveram 2 filhos:

- Manuel Coelho Amado (nascido cerca de 1660) que casou com Madalena Antunes e teve quatro filhos, entre eles, Vicência Amado que casou “muito nobremente” com João Coelho, Senhor do Morgado dos Coelhos da Boieira, do termo de Porto de Mós. Este morgadio veio a ser extinto, em 6-7-1775, por D. José I, a pedido de João Coelho Amado (nascido cerca de 1733, filho do João Coelho e da Vicência Amado) que foi, assim, o último morgado.
- António Coelho Amado (nascido cerca de 1660) que casou com Maria de Sousa, da família dos Sousa Alvim, de Ourém;

Uma Nota: Na árvore genealógica da família (brasileira) do Coronel Sabino Nazareth (Gente de Turquel-Nazareth) consta um António Amado, lavrador, nascido Freg. S. Vicente de Aljubarrota, lugar de Ataíja, casado em Turquel com Maria Delgado daí natural. Sabendo-se que uma sua filha faleceu em 20-11-1749, com a idade de setenta e três anos, em Turquel, em cuja Igreja Matriz foi sepultada, é de presumir que este António Amado tenha nascido por volta de 1650. Assim, se as datas acima estiverem certas, então este António Amado não pode ser descendente de Manuel Coelho. Mas pode ser sobrinho da sua mulher (que, com dezanove irmãos, há-de ter tido muitos sobrinhos). Esta é uma questão para genealogistas que eu não o sou e apenas por mera curiosidade aqui trouxe esta demonstração da ascendência de D. João II sobre alguns ataijenses.

Uma questão: Aquele Manuel Coelho era da Ataíja de Cima, ou da Ataíja de Baixo? Eis uma pergunta a que não sei responder. Alguns dizem que era da Ataíja de Baixo. Não creio que a questão seja, assim, tão importante e menos creio que, naquelas épocas, fosse importante.

Finalmente: O Manuel Coelho, não era nobre mas era, certamente, um rico proprietário. De facto, não só consegue casar com uma nobre como a sua neta Vicência também casa “muito nobremente”, sinal de que seu pai, conseguiu manter a importância da casa de seu avô.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Évora nas Memórias Paroquiais de 1758



Quando comecei estas pesquisas o meu propósito era investigar, apenas, o passado Ataíjense. Mas, rapidamente percebi que tinha de alargar as buscas a toda a freguesia de São Vicente (e, agora, não há desculpa para não abranger a freguesia de Prazeres) e, por vezes, é absolutamente necessário ir até às freguesias vizinhas, como é o caso de Évora, Évora de Alcobaça que, aliás, sempre partilhou com as freguesias de Aljubarrota a povoação dos Molianos, ou da Pedreira como, durante séculos, foi chamada.
É por isso que, depois de ler e reler as respostas que o Coadjutor Luis Ferreira Fragoso deu ao inquérito pombalino de 1958[i], acabei por transcrever[ii] as ditas respostas e aqui as partilho com os eventuais interessados

(S. Tiago Maior - Baixo relevo na fachada lateral da sua Igreja em Évora de Alcobaça)

Évora de Alcobaça nas Memórias Paroquiais (1758)

Esta vila de Évora pertence à província da Estremadura do Patriarcado de Lisboa, Comarca de Leiria termo da mesma vila e freguesia.
Sam donatários dela os religiosos do Real Mosteiro de Santa Maria da Vila de Alcobaça
Compreende em si o número de trezentos e oitenta vizinhos tem pessoas de salvamento mil e vinte e menores duzentas e dez
Está situada em Monte donde se descobrem a Villa de Alcobaça, que dista meya légoa, o lugar da Vestearia que dista huma legoa, e a Villa da Cella, que também dista huma legoa
Tem termo seu o qual comprehende nove casais, o Casal da Ortiga que consta de cento e trinta e duas pessoas o Casal do Pereira que tem cinquenta e duas pessoas o Casal de Mendalvo que tem sessenta e nove pessoas, o Casal do Abegão que tem quarenta e oito, o Casal do Pinheiro que consta de cinquenta e três, o Casal dos Fragosos e Acipreste que tem cento e vinte e nove, o Casal do Arieiro que consta de cento e quarenta e uma pessoas,
O lugar da Pedreira e Portela tem cinquenta e quatro pessoas
A sua Parochia esta situada dentro da Villa.
O seu Orago e o Apostolo Sam Tiago Mayor, tem sinco altares, o Altar do Sacramento; hum de Nossa Senhora do Rosario; outro de Sam Sebastiam; outro da Santa Ana; e outro de Santo Andre; tem duas naves a Igreja; e tem quatro confrarias; huma do Santíssimo; outra da Senhora do Rosario; outra de Sam Sebastiam; e outra das Almas.
O Parocho da sua Igreja he Vigario, cuja apresentaçam he do Dom Abbade Geral do Mosteiro de Alcobaça; e tem de Renda duzentos mil Reis pouco mais ou menos.
Nam tem beneficiados.
Nesta Freguesia há hum Convento de Religiosos Arrabidos, de quem sam padroeiros os Religiosos de Sam Bernardo de Alcobaça.
Tem hospital esta villa do qual he Administradora a Santa Casa da Misericórdia, nam tem mais que quarenta alqueires de trigo e sete centos e sincoenta em dinheiro.
A dita Santa Casa da Misericordia nam há noticia da sua origem, por ser antigua, e tem de Renda sento e cinquenta mil Reis, e nenhuma das Referidas Casas tem cousa notável para referir.
Tem duas Ermidas ambas situadas fora desta villa, a saber huma de Sam Vicente outra de Santa Marta, pertencem, esta aos Relegiosos de Sam Bernardo, aquela aos moradores desta villa.
Nam concorre nellas gente de romagem antes por arruinadas, nem nellas estam os sanctos há alguns anos.
 A terra tem suficiente abundancia de todo o género de ...(?)… ainda que a mayor seja de frutas, azeite e trigo
He governada por dois juízes ordinários e pela Câmara da mesma villa
Nam he couto nem cabeça
Nam há memoria de que houvessem homens insignes em armas, letras e so de opinada (?) virtude Frei Joseph da Esperança Relegioso Arrabido
Nam festas nesta villa mais do que huma que (?) na feira no dia do orago da freguesia, a qual dura poucas horas e se cobra somente portagem
Nam tem correyo, e se serve do de Alcobaça, que dista desta Villa meya legoa.
Dista dezouto legoas da cidade de Lisboa, capital do Patriarcado, a que pertence esta villa.
Em si nam conserva previlegio, antiguidade, nem cousa digna de memoria.
Nam tem lagoa, nem fontes celebres, antes he falta de agoas, nas quais nam se tem examinado qualidades especiais.
De porto de mar esta distante duas legoas.
Nam he murada, praça de armas, nem em seu destrito há castelo nem torre antigua.
No terremoto de mil sete centos e cinquenta e sinco
Nam cahio casa alguma, e ainda que ficaram algumas paredes arruinadas, athe ao presente se nam tem feito nellas mais reparo, que alguns espeques que logo lhes puzeram.
No destrito desta freguesia e seu termo se nam comprehende de serra mais do que huma legoa, aonde tem dous pequenos lugares, e nella nam ha cousa alguma notável das referidas no Interrogatorio.
Nem tem rios de agoa nativa, mas tem dois que nam tem outra agoa, mays que a que recebem no tempo do Inverno.
O Coadjutor Luís Ferreira Fragoso



[i] O inquérito pombalino de 1758 tinha por objectivo averiguar dos prejuízos que o terramoto de 1755 tinha provocado por todo o país e, de caminho, recolhia-se um precioso conjunto de informações relativas a cada freguesia: se tinha rios, fontes, lagoas ou serras, castrelos, conventos ou outros edifícios notáveis, as pricipais produções agrícolas, as povoações que a constituíam e respectiva população, a que distância de situava das principais terras em redor, etc., etc.
Enviado, através dos Bispos diocesanos, a todos os párocos do Reino, as suas respostas foram reunidas num conjunto que ficou conhecido por Memórias Paroquiais, as quais constituem o maior acervo de dados que existe sobre o Portugal do Séc. XVIII e permitem construir um retrato bastante rigoroso do país naquela época.
As Memórias Paroquiais encontram-se digitalizadas e são de acesso livre no site da Torre do Tombo.
[ii] Eventuais erros ou deficiências da transcrição são, assim, da minha inteira responsabilidade.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A Rua da Penicheira

Uma antiga rua da Ataíja de Cima


Durante muito tempo dei voltas à cabeça pelo nome de uma das ruas mais antigas da Ataíja de Cima. Perguntei e ninguém me respondia. Eu sabia, lembrando-me das histórias que a minha avó me contava, nos serões à lareira da velha casa onde viviamos, que era um nome terminado em eira mas nada mais do que isso.

Finalmente, um dia que puxei ao António Matias por histórias antigas, ele lembrou-se: Rua da Penicheira!

Lembro-me bem desta rua, já então sem uso público e todas as casas que a marginavam do lado norte (nordeste, melhor dizendo) já sem habitantes e usadas como palheiros.

Trata-se, no entanto, de uma das ruas mais antigas da aldeia, da qual só resta um pequeno beco e desenvolvia-se entre e paralelamente às ruas de Trás (agora chamada de Santo António) e à agora chamada Rua de Nossa Senhora da Graça, nas trazeiras das casas que foram do Couto, de Porfírio Coelho e de Sabino Vigário.

Sobre uma das suas portas, informa-me o Arnaldo que conhece bem o sítio, por aí ter sido criado, está inscrita uma data do Séc. XVIII (ainda não tive oportunidade de confirmar a data exacta), o que atesta bem a sua antiguidade.

Há duzentos anos, talvez menos, a Ataíja de Cima era isto. O Lugar que se comprimia nestas três ruas paralelas e numa quarta que se começava a desenhar a sul. Em dezenas de casas pequenas, fortemente encostadas umas às outras, partilhando, muitas vezes, a parede divisória, viviam quase duzentas pessoas, entre a Calçada, onde agora é o supermercado da Lúcia e o fundo da Igreja, onde o largo era marcado pelas casas, mais abastadas, do Veríssimo, do Machado, do Pote Serrano e de Joaquim Heitor.

Já havia a casa alta do Outeiro, uma ou duas casas nas Seixeiras e outras tantas nos Caramelos e nos Arneiros e, talvez, o mesmo nas Hortas. Mas isso, eram arredores.

Já viveria nas Hortas o Horta que deu o nome ao sítio? Ou as hortas já lá se faziam e foi o sítio que apelidou o habitante?

E quem seria a penicheira, cuja memória ainda há uns cinquenta anos perdurava no nome de uma rua que já não existe? Ainda não sei, mas tenho esperança de lá chegar. Até agora, só encontrei Gisela Salvador  uma amiga de Joaquina Rosalia que, em 1944, lhe escreveu de Peniche. Terá uma coisa a ver com a outra? Talvez sim, ou talvez não que, quando vasculhamos na história, tropeçamos, frequentemente, em pistas falsas… e algumas são tão boas que, com o tempo, passam a verdadeiras.

Planta cadastral do Lugar, tendo assinalada, a vermelho, a Rua da Penicheira.


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