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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A Rua de Traz em meados do Século XX



  
Cerca de 1950 estava a construir-se entre o Outeiro e o Lugar, em aterro, o troço da actual Estrada do Lagar dos Frades que havia de substituir a velha calçada, situada uns metros mais a norte, junto ao então quintal da Benedita, (agora de António Sabino), como ainda se vê, mas interrompido no final pelo monumento aos Combatentes.
Em frente, onde agora é o supermercado, estava a casa da Calçada, uma casa antiga e pequena para onde se subia através de três ou quatro degraus de pedra. Aí, de porta sempre aberta para aproveitar a luz exterior, o Pirisca exercia o seu ofício de sapateiro.
Para a direita acedia-se à estrada e à Rua de Nossa Senhora da Graça. Pela esquerda, era a Rua de Traz.

Onde hoje é propriedade do José Luís e a casa do Abílio era a taberna, a casa e os demais cómodos de um outro José Luís, avô daquele e pai do Abílio, felizmente ainda vivo, do Petinga que seguindo as pisadas paternas também foi taberneiro, do Padre Tomás de quem já falei mais de uma vez, designadamente no post Gente da Ataíja de Cima - O Padre Tomás e de duas raparigas, uma Maria, que ficou solteira e acompanhou o irmão Padre, e uma Luísa, que casou no Cadoiço com Joaquim Vitorino.
A dita taberna foi, como contei no post Gente da Ataíja de Cima - Joaquim Rôzo,  a sala de aula onde o meu pai, o Padre Tomás e outros rapazes do seu tempo, aprenderam a ler e escrever.

De seguida, a rua faz uma curva apertada, a noventa graus para a direita. Do lado norte, o pátio, a casa nova e uma velhíssima casa de alpendre, eram os cómodos de Luísa Ribeiro que, em 1947, ficara viúva com 2 filhos e grávida da terceira, a Joaquina a quem dediquei o post Gente da Ataíja de Cima - Joaquina Ribeiro Vigário. Apesar de ter casado, em 2as núpcias, pouco tempo depois, com José Maneta, a Luísa Ribeiro ficou para sempre conhecida como A Viúva.
O pátio e as casas ainda lá estão. O Pátio onde agora se criam ervas, ainda rodeado dos numerosos palheiros, estábulos e arrecadações de toda a espécie, a maioria deles já sem telhado e a caminho da ruína, testemunhas de um tempo e de um modo de exploração da terra que não voltam. A casa velha, está mais velha. A casa nova, construída para as 1ªs núpcias da viúva, está agora desprovida do patim que lhe permitia um minúsculo jardim e, sobretudo, a protegia de bestas, carros e carradas.
O seu único habitante é um cidadão ucraniano, há muitos anos emigrado em Portugal, operário numa oficina de pedra.

Do outro lado da rua era a casa, já desaparecida, do meu tio-avô João da Graça, dito o João Redondo, que aí vivia com a sua mulher Emília, natural de Aljubarrota. Não tiveram filhos.
Ele era sapateiro e deslocava-se a casa dos clientes, onde ficava a trabalhar por vários dias, consertando todo o calçado da família e, por vezes, fazendo obra nova. Assim me lembro de o ver, exercendo o seu ofício, no alpendre da casa de José Ribeiro.

Seguia-se uma antiga casa de habitação que naquele tempo também era propriedade da Luísa Ribeiro que a usava como armazém de azeite. Por isso há, ainda, quem a recorde como a Casa das Pias.
Logo, pegada, uma antiquíssima casa que ainda resiste e onde vivia Maria (da) Serafina, a Maria Pequena para se distinguir de uma irmã mais velha, também Maria. Naquele tempo era casada em 2ªs núpcias, com Eleutério dos Santos, mas julgo que já não viviam juntos. Lá em casa moravam, pelo menos, duas filhas e um neto mas ele morava numa casa pequenina que havia no quintal da Rosalia, na Rua das Covas.
Este Eleutério dos Santos terá sido o último enjeitado que houve na Ataíja de Cima mas dele, no entanto, não encontrei, até agora, rasto no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (diga-se, aliás, que nem todos os enjeitados passaram pela SCML).

Voltando ao lado norte da rua, às casas de Luísa Ribeiro segue-se o portão de um pátio, ao fundo do qual, numa pequena casa de que agora só restam ruínas, vivia a família de José Constantino que aí criou, pelo menos, sete filhos, entre eles, a Perna Torta.

Logo depois a casa, hoje também em ruínas, onde viviam os irmãos, meus tios-avós, Maria Marreca a Manuel Mariola, tal como o João Redondo, meios irmãos da minha avó paterna. A alcunha de Marreca devia-a ela a uma grande corcunda, resultado de uma grave fractura da coluna sofrida quando bébé, uma vez que o irmão Manuel, também uma criança, a pegou ao colo e a deixou cair da janela da casa para a rua.
Terá sido este mesmo episódio que lhe valeu a ele a alcunha de Mariola.

Seguia-se uma estreita casa, com um pequeno alpendre, onde então ainda vivia o velho Porfírio dos Santos, oriundo da zona da Nazaré mas vivente na Ataíja desde criança, onde chegou na condição de enjeitado ou criado de servir, o que não era muito diferente.
E, logo, a casa recente (construída em 1946) da sua neta Joaquina Méla. Esta casa ostenta uma curiosa Pedra da Era, com a representação de um machado e um serrote, instrumentos da profissão do marido, Manuel Sarrador.

Seguia-se a casa de Manuel Casal que então aí vivia com a sua mulher Luisa Vigário, a Pisa Flores, por vezes também dita A Farricha e o filho António. A casa já não existe e no seu lugar o bisneto Joel está a construir uma nova.

Em frente abre-se um largo por onde se estabelece ligação à Rua de Nossa Senhora da Graça, à antiga Rua da Penicheira e ao Beco onde está a casa de José Luís, no lugar onde naquele tempo havia a casa do Padrinho Fialho, então já falecido.
Aí havia também umas antigas casas que a Luísa Ribeiro usava como palheiros e para aí davam as traseiras da casa do João Redondo, uma arribana, lugar do ofício quando o trabalho era em casa e o portão do pátio da casa do meu avô Quitério, da minha casa de infância.
E, ainda, de costas para a taberna do Manuel Luís, a casa da viúva Felismina, a parteira da aldeia que também sabia de rezas e curas. 
Não sei se foi ela que me ajudou a vir ao mundo (poderá ter sido a outra parteira, a Silvina) mas sei que, aquando de umas aquando de umas febres que me atacaram, durante a epidemia da gripe asiática, ela me esfregou o peito e a barriga com azeite da candeia, enquanto entoava umas ininteligíveis rezas. (Os curiosos podem saber mais sobre a gripe asiática lendo o seguinte texto:
 (https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/gripe-em-lisboa-1957-e-2008-pdf.aspx) 
Com a Felismina, aí viviam o seu filho José Quépão e a mulher e os filhos destes, meus primos.

Tudo era um lagedo (o Lugar está construído sobre uma imensa pedreira), nesse beco, usava formar-se uma pequena lagoa quando chovia e, nós os pequenos, conhecedores do chão que pisávamos, íamos com gravetos, arames e pregos, limpar um pequeno buraco que havia numa das pedras e, quando o conseguíamos desobstruir, a água desaparecia em vórtice.

Retornando à Rua de Traz e continuando pelo norte, à casa de Manuel Casal seguia-se uma estreita e antiga casa, que aliás naquele tempo já não era uma casa, mas ainda existe, disfarçada atrás de uma parede de pedra sem reboco (que oculta uma minúscula divisão, talvez uma antiga corte do porco) e de um pequeno alpendre ou arribana. Era propriedade do meu avô José Agostinho da Graça que a usava como palheiro e estábulo do burro. O burro era preso ao pau de fuste que suportava o cachorro da chaminé e a lareira era a mangedoura. A porta da casa tinha um postigo e, como há ainda quem se lembre, às vezes via-se o burro, cabeça enfiada no postigo, observando o movimento da rua.

Seguia-se uma outra antiga casa, naquele tempo usada pelo José Ribeiro como palheiro e que mais tarde foi recuperada por um neto e, agora, é propriedade de um casal de cidadãos canadianos que aí vivem.
Segue-se a casa do meu avô Agostinho e da minha avó Carlota. Aí vivem agora a Celeste Rebolão e o marido.

Do lado sul, desde o largo atrás referido, eram antigas casas, com entrada pela Rua da Penicheira, onde já não vivia ninguém e funcionavam como palheiros e adega de Sabino Vigário. Seguia-se outra que tinha entrada pela Rua de Traz e era, creio propriedade de José Ribeiro, também usada como palheiro. Foi há uns anos remodelada e esteve habitada. Agora, todas esses telhados estão em vias de ser demolidos, para no seu lugar surgir o novo grande objectivo da comunidade, a construção do Centro Paroquial e Casa Mortuária.

Seguia-se, e ainda segue, uma pequena construção onde o meu avô Agostinho fazia adega, e abria-se uma travessa que ligava à Rua da Penicheira, à Rua de Nossa Senhora da Graça e ao Adro da Capela. A Travessa ainda lá está, mas o acesso à Rua da Penicheira foi cortado na segunda metade dos anos de 1970 quando a população decidiu autorizar o José Rebolão a construir aí, por troca com um espaço do outro lado da rua.
Pelo lado sul, o último quarteirão da Rua de Traz, entre a dita Travessa e o Fundo da Igreja, eram traseiras das casas de Maria da Serra (depois, de José Rebolão), de Manuel Maurício e sua mulher Silvina e da viúva Maria Constantino ou Maria Serafina e, ainda, de uma antiga casa, onde naquele tempo ainda se via a chaminé e uma divisória em tabique, que José Ribeiro usava como palheiro ou arrumos e o neto agora usa ou usou como garagem. 
Fecha o quarteirão, já com entrada pelo Fundo da Igreja, um antigo lagar, que depois disso já foi palheiro de vacas e agora é garagem.
Pelo Norte, à de meu avô seguia-se a casa de Manuel Morgado, dito o Manuel Lérias, carpinteiro, natural de Boieira, mas filho de uma ataijense e de sua mulher Maria Machada que aí viviam com os 4 filhos. Já no Fundo da Igreja, a casa dos Machado a que já me referi no post A Rua das Hortas em Meados do Século XX e onde viviam a minha tia Papoila, o marido e os três filhos.


Em meados do Século XX, a Rua de Traz tinha 14 casas habitadas nas quais moravam de mais de 50 pessoas.

Hoje, as casas habitadas são seis e residentes contei nove (um terço deles, estrangeiros).

Estado actual (15-12-2019) das casas de Luísa Ribeiro


Nota para os mais distraídos:
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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

A Rua de Nossa Senhora da Graça em Meados do Século XX




A agora chamada Rua de Nossa Senhora da Graça vai, a breve prazo, sofrer uma alteração profunda e duradoura com a construção do Centro Paroquial e Casa Mortuária, que vão ocupar a totalidade do espaço dos edifícios que foram propriedade de Sabino Vigário e, ainda, o que sobra do que foi a Rua da Penicheira, chegando à Rua de Traz.

É, por isso, adequado deixar aqui uma memória de como era, em meados do Séc. XX, aquela foi uma das principais ruas da aldeia e, naquele tempo, já tinha algumas peculiaridades. 
Desde logo, o nome que nunca soube ou que, de todo, me não lembra. E, no entanto, os homens precisam de dar nomes às coisas, pelo que é certo que aquela rua há-de ter tido um outro nome, antes de há cerca de vinte anos ter recebido o actual.
Depois, porque a rua era em alguns pontos mais estreita, por ter um piso mais acidentado, incluindo uma espécie de degrau, em frente da porta da escola, e uma enorme lage que a estrangulava em frente da casa de Manuel Branco (esta casa não tinha alicerces e assentava sobre a dita lage), ou por não haver nela qualquer portão de pátio, (salvo o pequeno portão que se vê na foto junta), o certo é que a rua era, na prática, pedonal.

Começando lá por baixo, pelo largo do Fundo da Igreja:
Do lado direito, a norte, havia um lagar. O edifício ainda lá está e funciona agora como garagem do Diamantino Pereira. Tratava-se, certamente e vistas as suas dimensões, de um lagar de vinho. As virgens onde articulava a vara ainda são bem visíveis na parede que, precisamente, confina com a nossa rua. Há sessenta anos, essa parede não era rebocada e as virgens eram visíveis do exterior, embutidas na parede, no que me parecia, quando ainda não conhecia o interior, uma antiga e estreita porta emparedada.
Do lado sul, a capela. Sem a sacristia que, naquele tempo era do outro lado, provocando um estrangulamento da estrada que só foi eliminado na segunda metade dos anos de 1970, aquando do alcatroamento e da construção da sacristia actual.
Ao lagar seguia-se a casa de Maria Serafina ou Maria Constantina (era filha de Serafina dos Santos e de Constantino dos Santos, ambos enjeitados) que aí vivia viúva e só, estando a filha Delfina já casada na Rua dos Arneiros.
Logo, adossada, a casa de Manuel Maurício e da sua mulher Silvina. Esta era natural do Lorvão e foi a parteira que ajudou a nascer muitos ataíjenses. Naquele tempo, ainda ali viviam alguns dos filhos que foram, ao que julgo, quatro. Um Manuel, uma Zaida, uma Isaura e o António (da Silvina) que já estava casado, nas Pedras Brancas, num casal que fora da bisavó da sua mulher, e tem um poço, O Poço do Moura, de que já falamos neste blog.
Estas duas casas, as da Silvina e as da Maria Serafina são hoje propriedade de João Salgueiro, foram objecto de obras profundas e estão unidas em uma única residência.
Segue-se uma antiga casa de habitação que naquele tempo já era um palheiro de José Ribeiro, hoje do neto Vitor que a utiliza ou utilizou, como garagem e a casa que era da viúva Maria “da Serra” que foi casada com António Agostinho, meu tio-avô. Tiverem três filhos. O António Agostinho, a Joaquina “da Serra” que foi casada com Francisco Salgueiro e a Maria “da Serra” que foi casada com José Veríssimo. Esta casa foi, posteriormente, adquirida por José “Rebolão” e até há pouco tempo aí viveu a sua viúva, falecida em 1.1.2018.
Segue-se uma pequena travessa que liga à Rua de Trás e ligava, também, à desaparecida A Rua da Penicheira.

Seguem-se uns palheiros que hoje são do José Constantino (Zé Gordo) e, depois, o lugar onde eram as casas que foram de Sabino Vigário e onde este vivia com a sua esposa Joaquina Baptista e os filhos, António “Sabino” e Arnaldo, ainda solteiros, enquanto o mais velho, José, estava “lá para Lisboa”. Seguiam-se mais duas casas do mesmo dono. Uma, pequena, que sempre conheci sem telhado e, entre esta e a de residência, havia uma outra casa onde ele fazia biscates de sapateiro e, por isso, a família chamava de casa do ofício, mas outros chamavam de A Casa do Couto, por a certa altura ter sido propriedade de um comerciante alcobacense desse nome.

Do lado sul, à igreja segue-se o adro que, naquele tempo, era bastante mais pequeno pois lá faltam a  A Escola e o palheiro ou casa do Mira.
Segue-se adega que foi de José Ribeiro e hoje é do neto Rafael mas que não tem acesso senão pela Estrada do Lagar dos Frades. Segue-se a casa onde, naquele tempo, vivia, ainda solteiro, José Henriques, Também conhecido por José Neto e, vulgarmente, por Zé Diabo, primo de um outro José Henriques, também José Neto, conhecido por José Carago. Esta casa foi depois vendida e aí viveu a Badalhoiça com o seu filho Francisco “Casalinho”. 
Encostada, ainda lá está uma pequena casa que pertenceu aos pais do dito José Diabo. Casa antiga onde foi criado o enjeitado Tomé dos Santos, avô de Francisco Rosa Tomé e de Manuel Carlos Tomé que aí estão, vivos, felizmente e de, pelo menos, três raparigas, já falecidas.
Vem, depois, a casa onde viviam o “Cuco”, a sua mulher Teresa Neto, falecida de Tétano, e três filhos. Encostada a esta última estava a casa da “Viana” ou da “Biana”, que o meu tio Porfírio Coelho usava como arrecadação. 
Estas duas casas estão hoje recuperadas e unidas e nelas reside o Paulo Carreira, “o Rodinhas”.
Seguia-se (segue-se) um espaço onde antes houve casas, mas que nos anos cinquenta já era local de depósito de lenhas e, depois, uma pequena construção que agora tem dois pisos mas, naquele tempo, era apenas o palheiro onde vivia o burro do ti Manuel Branco.
Voltando ao lado norte da rua, aos cómodos de Sabino Vigário segue-se a casa que foi do meu tio Porfírio Coelho que então aí vivia com a sua segunda mulher, a minha tia Luísa e cinco filhos e no pátio da qual foi, posteriormente, construída a casa onde hoje vive a viúva do meu primo João “Porfírio”. 
A seguir, uma  travessa que liga ao largo que se forma na Rua de Trás e para onde dão o que resta da Rua da Penicheira e um beco onde havia a casa de O Padrinho Fialho , então já falecido, aquela onde vivia a minha tia Ana como o marido, dois filhos e a sogra viúva e o alpendre das traseiras da casa do ti João Redondo, hoje, tudo, propriedade do José Luís.
Voltando à Rua de Nossa Senhora da Graça, a seguir à dita travessa vem a casa, que ainda lá está, de António Daniel, o ti António Seabra, que aí vivia, julgo que já viúvo, com as três filhas e um filho, todos ainda solteiros.
Agora que a filha Maria, que a habitou nas últimas décadas, está internada num lar de idosos, o destino da casa está, talvez, traçado. O que é pena porque se trata como se vê a um simples olhar, de construção antiquíssima, uma das mais antigas, das poucas antigas que se mantém de pé na Ataíja de Cima. Ora, nesta coisa de conservar edifícios antigos, os mais fáceis de conservar são os mais ricos. A evidente modéstia da casa do Seabra fará, talvez, com que espíritos práticos achem que não merece ser conservada. É pena.
Seguiam-se a casa de Manuel Branco e Maria Custódia que sempre conheci sozinhos. Conheci-lhes, pelo menos, um filho. Um Manuel “Custódio” que morava para os Covões ou Lagoa do Cão, se me não falha a memória. A casa era minúscula e possuía um pequeno pátio nas traseiras. Não havendo outra serventia, tudo entrava e saía do pátio pela porta da casa.
No dito pátio viveu uma porca que, um dia, comeu o braço de uma criança filha do casal. 
Encostada, estava a casa dos meus avós paternos, onde vivi entre os meus três e dez anos de idade e, depois disso passei muitas vezes, as férias grandes. Mas, isso, são contas de outro rosário.
Esta casa já estava no pequeno largo formado pelo entroncamento com a Estrada do Lagar dos Frades, mas sendo esta muito mais recente, temos de considerar que a nossa rua seguia até onde está o supermercado da Lúcia “do Serrano”, onde, naquele tempo, eram as casas de Alfredo Ângelo da Silva. Antes dela, a casa, que agora é de Manuel Tomé e Francelina e, nos anos de mil novecentos e cinquenta, era de Maria “Caseira” e de seu marido Manuel “Barra”, no que eram as segundas núpcias dela, que tinha perdido o primeiro marido nas trágicas circunstâncias que descrevo no post Tétano, já acima mencionado.

Tudo visto, moram actualmente nesta rua umas oito pessoas. 

Há sessenta anos moravam aí mais de quarenta 


Vista actual (8-9-2019), da casa que foi de António Daniel, O Seabra




quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A Rua da Penicheira

Uma antiga rua da Ataíja de Cima


Durante muito tempo dei voltas à cabeça pelo nome de uma das ruas mais antigas da Ataíja de Cima. Perguntei e ninguém me respondia. Eu sabia, lembrando-me das histórias que a minha avó me contava, nos serões à lareira da velha casa onde viviamos, que era um nome terminado em eira mas nada mais do que isso.

Finalmente, um dia que puxei ao António Matias por histórias antigas, ele lembrou-se: Rua da Penicheira!

Lembro-me bem desta rua, já então sem uso público e todas as casas que a marginavam do lado norte (nordeste, melhor dizendo) já sem habitantes e usadas como palheiros.

Trata-se, no entanto, de uma das ruas mais antigas da aldeia, da qual só resta um pequeno beco e desenvolvia-se entre e paralelamente às ruas de Trás (agora chamada de Santo António) e à agora chamada Rua de Nossa Senhora da Graça, nas trazeiras das casas que foram do Couto, de Porfírio Coelho e de Sabino Vigário.

Sobre uma das suas portas, informa-me o Arnaldo que conhece bem o sítio, por aí ter sido criado, está inscrita uma data do Séc. XVIII (ainda não tive oportunidade de confirmar a data exacta), o que atesta bem a sua antiguidade.

Há duzentos anos, talvez menos, a Ataíja de Cima era isto. O Lugar que se comprimia nestas três ruas paralelas e numa quarta que se começava a desenhar a sul. Em dezenas de casas pequenas, fortemente encostadas umas às outras, partilhando, muitas vezes, a parede divisória, viviam quase duzentas pessoas, entre a Calçada, onde agora é o supermercado da Lúcia e o fundo da Igreja, onde o largo era marcado pelas casas, mais abastadas, do Veríssimo, do Machado, do Pote Serrano e de Joaquim Heitor.

Já havia a casa alta do Outeiro, uma ou duas casas nas Seixeiras e outras tantas nos Caramelos e nos Arneiros e, talvez, o mesmo nas Hortas. Mas isso, eram arredores.

Já viveria nas Hortas o Horta que deu o nome ao sítio? Ou as hortas já lá se faziam e foi o sítio que apelidou o habitante?

E quem seria a penicheira, cuja memória ainda há uns cinquenta anos perdurava no nome de uma rua que já não existe? Ainda não sei, mas tenho esperança de lá chegar. Até agora, só encontrei Gisela Salvador  uma amiga de Joaquina Rosalia que, em 1944, lhe escreveu de Peniche. Terá uma coisa a ver com a outra? Talvez sim, ou talvez não que, quando vasculhamos na história, tropeçamos, frequentemente, em pistas falsas… e algumas são tão boas que, com o tempo, passam a verdadeiras.

Planta cadastral do Lugar, tendo assinalada, a vermelho, a Rua da Penicheira.


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quarta-feira, 15 de junho de 2022

Inauguração do Centro Pastoral e Casa Mortuária

 

Só hoje me é possível dar aqui a notícia da inauguração formal do Centro Pastoral e Casa Mortuária, que teve lugar no passado sábado, dia 11 de Junho de 2022.

Porque a vida e a morte não esperam, a Casa Mortuária cumpriu pela primeira vez o fim para que foi construída, em Outubro do ano passado, ainda mal estava acabada e não mobilada.
Começámos por aí velar, com poucos dias de intervalo, a dois grandes ataíjenses e outros se seguiram, nove até agora, cujos nomes aqui ficam para memória futura:

Luís da Graça de Sousa

António Baptista Vigário

António Carlos Cordeiro

Manuel Coelho Matias

Joaquim Lourenço Machado

Abílio Tomás de Sousa

José Gonçalo de Figueiredo Pais

Daniel Tomás de Sousa

José Tomás Coelho

A casa mortuária era uma necessidade há muito sentida, uma vez que a cave da igreja só muito deficientemente podia desempenhar tal função.
Temos agora um espaço amplo e digno onde velar os nossos mortos, o que só foi possível, desde logo, porque os irmãos Rogério e Luís Vigário decidiram adquirir todo o edificado que foi a casa e cómodos de seu avô, colocando-o à disposição da comunidade e permitindo assim a construção da Casa Mortuária e do Centro Pastoral, este dispondo de salas para catequese e outras actividades, casas de banho, incluindo para pessoas com mobilidade reduzida e cozinha equipada.

O projecto, um excelente projecto, diga-se, foi desenvolvido pelo Sr. Arqº Carlos Laureano do atelier CSLaureano Arquitectos, Lda e ocupa sensivelmente a mesma implantação e volumetria do antecedente, mantendo, agora como pátio, o espaço que pertenceu à antiga Rua da Penicheira e guarda a memória da antiguidade das construções que existiam no local, preservando uma padieira de porta com a inscrição da data de 1795, bem como a fachada da casa que foi de Sabino Vigário e Joaquina Baptista através da sua integração no alçado principal e contempla, ainda, um belíssimo terraço de onde se alcança uma imponente vista sobre a serra dos Candeeiros.

Foi ainda possível preservar, na execução do projecto, uma antiga prensa de lagar de vinho e um peso de lagar de varas, ambos integrados nos arranjos exteriores do lado da Rua de Trás (Rua de Santo António) e,

Mais importante, foi possível preservar integrando-o na cabeceira da Casa Mortuária, o nicho original de Nossa Senhora da Graça, o qual guardou a imagem da padroeira durante cerca de 300 anos e se encontrava no adro desde que foi substituído aquando das obras na Capela no ano de 2003.

À cerimónia da inauguração compareceram, além de muita população e do arquitecto autor do projecto, o Vereador da Câmara Municipal de Alcobaça, Sr. João Santos e o Presidente da Junta de Freguesia de Aljubarrota, Sr. José Lourenço em representação das autarquias que apoiaram a construção, a qual só foi possível através de muitos contributos da população e do esforço da comissão constituída por

Luís Santos

Rui Santos

Pedro Bernardino

Seguiu-se uma visita às instalações, que mereceram muitas manifestações de agrado e um lanche-convívio que se prolongou pela tarde fora e para mim foi especialmente saboroso porque me permitiu conversar largamente com muitos dos presentes, todos amigos, alguns com quem já há muito tempo me não encontrava.

 

                                                     A placa comemorativa da inauguração


Uma padieira que se encontrava sobre uma porta virada à Rua da Penicheira (actual pátio do Centro Pastoral) demonstrando a antiguidade das construções que existiram no local e como essa rua era, em finais do séc. XVIII, uma das principais da aldeia.


O nicho de Nossa Senhora da Graça integra agora a cabeceira da sala de velório

 

Vista tirada da Rua de Trás (Rua de Stº. António)

A imponente vista sobre a Serra dos Candeeiros que se alcança do terraço



domingo, 15 de setembro de 2024

Uma casa na Rua de Trás

 

A Rua de Trás, agora chamada de Rua de Santo António, é uma antiquíssima rua que fecha pelo norte o núcleo central da aldeia, o Lugar.

Quando eu era pequeno, nos anos cinquenta ou sessenta do século passado, ainda ali viviam mais de 40 pessoas, em 10 casas habitadas.

Nos anos entretanto decorridos as transformações foram profundas. As pequenas casas, umas sem quintal e apenas um pequeno pátio nas traseiras, outras com quintais minúsculos, coladas umas às outras, estreitinhas, algumas delas sem outra serventia que não a porta da rua, deixaram de satisfazer as necessidades e os interesses das novas gerações que preferiram fazer casas fora desde núcleo central, estendendo-se pela beira dos antigos caminhos.

A decadência da Rua de trás, não começou, deve dizer-se, apenas há 70 anos. Naquele tempo, já algumas das casas antes habitadas se encontravam vazias, por morte dos últimos habitantes ,e na sua maioria, tinham já sido adaptadas a novos usos e serviam como arrecadações ou palheiros.
Quando, vindo do Largo do Monumento aos Combatentes, a rua vira à direita para o lado da serra, estavam, desse lado direito, além da casa da esquina, pelo menos mais três. Uma, propriedade de Luísa Ribeiro era usada como armazém de azeite e por isso chamada de Casa das Talhas. Haviam a casa onde então moravam João Redondo e a sua mulher e, aquela, agora em obras, onde moravam Eleutério dos Santos, com a sua mulher Maria Constantina, ou Maria Serafina, também conhecida por Maria Pequena, filha de Constantino dos Santos e de Serafina dos Santos e Pequena por ter uma irmã mais velha também Maria.

Em frente, uma antiquíssima casa que ainda lá está, propriedade de Luísa Ribeiro que ao lado construiu a sua e aquela ficou desabitada e apenas um complemento da nova.

Continuando encontrávamos, pelo norte, além da que motiva este texto, mais duas casas desabitadas. Uma que lá continua, tal e qual, agarrada às obras do Joel Pereira, era propriedade do meu avô José Agostinho. Estreitinha, escondida atrás de um pequeno alpendre onde existe uma minúscula divisão onde, talvez, há muitos anos, dormisse o porco. Entrando, segue-se, do lado esquerdo, a grande chaminé que servia de manjedoura ao burro que naquele tempo ali vivia.

A casa que imediatamente se lhe segue e está hoje recuperada, é umas das duas casas habitadas da rua. Era, então, propriedade de José Ribeiro que a usava como palheiro e lhe chamava a Casa da Quitéria.

Do outro lado da rua já tudo eram arrumos de Sabino Vigário e tinham entradas pela Rua da Penicheira, esta ainda então com saída para a pequena travessa que liga a Rua de Trás ao Adro.

Seguiam-se quatro casas de habitação, todas com traseiras para a Rua de Trás mas entrada principal virada à agora chamada Rua de Nossa Senhora da Graça. Hoje são três, a saber:

A que teve Emília Mariano por último residente e onde então vivia a ti’Maria da Serra, viúva do meu tio-avô António Agostinho.

A que se segue e sempre conheci sem gente, também feita arrecadação de José Ribeiro que lhe chamava a Casa do Catrino.

As duas seguintes, onde conheci a ti’Silvina e a ti’Maria Serafina, avó dos Delfinos, são agora uma única.

 

É toda esta viagem pela memória motivada por que, no passado dia 8, vindo do Festival das Sopas, deparei com a Casa do Porfírio arrasada.

Apertada entre a casa que foi dos meus tios-avós Mariola e Marreca e aquela que os mais novos conheceram por do Cai-Bem, bisneto do Porfírio, a casa esteve entaipada largas décadas e só olhos atentos vislumbravam, sob a cal, o desenho do alpendre, um alpendre como era comum nas casas ataíjenses de séculos passados.

Daqui a pouquíssimo tempo, olhares distraídos verão apenas a passagem para o pequeno quintal das traseiras da casa do Cai-Bem e poucos acreditarão que ali houve, por séculos, uma casa.


Mas, eu lembro-me de, pequeno ainda, aí ver o velho e viúvo Porfírio dos Santos, debruçado no parapeito do alpendre, observando o movimento da rua.

Este Porfírio, que a minha avó dizia que era enjeitado, não era bem enjeitado, antes, era natural da Pederneira e filho de mãe solteira tendo vindo cedo para a Ataíja, certamente como criado.

Casou aos vinte anos de idade e, disse então o padre, era sapateiro. A mulher, a minha tia-bisavó Maria de Jesus, andava pelos trinta anos e estava viúva, com dois filhos de José Ribeiro, tio-avô da Amélia Ribeiro, um casamento que tinha durado apenas sete meses, tendo o segundo filho nascido já o pai era morto.

Estes rapazes, foram, como já contei noutro texto, dois dos muitos portugueses que emigraram para o Brasil, para a Amazónia, atrás do boom da borracha. Um deles, morreu ao fim de pouco tempo. O outro passou ao Rio de Janeiro onde constituiu família que, julgo, já vai em trinetos.

Juntos, o Porfírio e a Maria de Jesus tiveram uma filha que os mais velhos conheceram por Joaquina Porfíria, a qual casou com António Orelha, viveram na Rua das Seixeiras, numa casa agora também em ruínas, tiveram um rancho de filhos e deles existe hoje larga descendência.

Com o desaparecimento da Casa do Porfírio, como também recentemente da Casa da Maria Pequena, é cada vez menos o que sobra de uma Ataíja antiga, muito antiga.

É assim a vida.

Como cantava o Fausto Bordalo Dias:

atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir