terça-feira, 30 de outubro de 2018
Gente da Ataíja de Cima - Emília Florinda - A Perna-Torta
Emília Florinda, filha de José Constantino, nascida em data que não logrei apurar, na primeira metade da década de 1930 e falecida em data que, igualmente, desconheço, tinha a alcunha de A Perna-Torta devido à deficiência física de que sofria.
Era de estatura diminuta, já que sofria de nanismo desproporcional severo e ambas as tíbias apresentavam forte curvatura, o que justificava a alcunha e a obrigava a um andar bamboleante.
A primeira vez que vi um espectáculo circense, algures por meados dos anos de mil novecentos e cinquenta, foi com um pequeno grupo, uma família de saltimbancos que se deslocava em modesta carroça puxada por uma mula velha e com ar de estar mal alimentada.
Foi ao lado da taberna do Sarrano e encostado à parede do quintal da Riteira - Riteira era a alcunha de uma senhora já velha e viúva de quem nunca soube o nome (Ana, talvez, mas não tenho certezas) e que sempre conheci vivendo com a sua filha Maria Cordeira e o genro Manuel Matias - a tal parede delimitava o terreno no exacto sítio onde hoje se encontra a casa do Pirata, aliás, irmão da Perna-Torta e foi em plena rua, aproveitando o pequeno largo que ali se forma, que a troupe montou o seu estaminé e lá foi fazendo as suas habilidades, à luz de um petromax, enquanto um passo atrás, mesmo colada à parede, a mulher mais velha ia preparando, numa trempe, a ceia da companhia.
As labaredas ajudavam à iluminação do ambiente já que, naquele tempo as noites, salvo as de luar, eram puro breu, pois não havia electricidade na Ataíja de Cima.
O palco era na traseira da carroça, o que permitia ao chefe esticar o braço lá para dentro e retirar algum adereço necessário à função. Os espectadores dispuseram-se em semi-círculo ao redor, as crianças colocadas à frente, misturadas com os mais precavidos, estes, sentados em cadeiras ou tripeças que tinham trazido de casa.
Um dos números precisava de um anel ou aliança, coisa que quase ninguém usava.
A Perna-Torta, naturalmente, estava na fila da frente e tinha um anel que, depois de muitas insistências, disponibilizou ao mágico o qual, obviamente, o fez desaparecer no lenço.
Seguiram-se outros números e do anel, nada.
Às tantas, quando o espectáculo se aproximava do final e o speaker já anunciava que a troupe iria comer a ceia que a velha tinha preparado, a inquietude da Perna-Torna alastrou-se à assistência e levantou-se um grande sururu, com toda a gente a reclamar a devolução do anel.
As coisas estavam quase a azedar e em vias de fazer perigar a integridade física dos artistas, (o chefe da troupe, experiente, esticou a corda até quase ao limite) quando, em milagre muito aplaudido, o anel, afinal, estava dentro de uma das batatas acabadas de cozer.
Nota: Uma primeira versão deste texto, que agora se substitui, foi aqui publicada em 24-10-2010
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
Um livro do Séc. XVIII na Ataíja de Cima
Conhecedora das minhas deambulações pelo passado ataíjense, mão amiga fez-me chegar um livro publicado há 233 anos.
Trata-se do “THESOURO BIBLICO, OU DICCIONARIO HISTORICO, E ETYMOLOGICO DOS Nomes próprios dos Póvos, Provincias, e Cidades, com as suas respectivas interpretações. E relação succinta das noticias, e acções principaes da maior parte das pessoas, que se encontrão nos veneráveis Livros da Sagrada Escritura. OBRA UTILISSIMA PARA A MELHOR INTELLIGENCIA DO ANTIGO, E NOVO TESTAMENTO E ASSIM MESMO PARA A LIÇÃO DA HISTORIA DA SANTA IGREJA, Lisboa, na oficina de Simão Thadeu Ferreira, ANNO M.DCC.LXXXV, Com Licença da Real Mesa Censoria”. (teve uma reedição, impressa no Porto, Typographia da Revista, em 1869)
O longo título e subtítulo que, como era uso naquela época preenche toda a página de rosto (acima reproduzida), é só por si esclarecedor do conteúdo do livro: Trata-se de, sob a forma de dicionário, explicar resumidamente, o essencial sobre as pessoas, povos, locais e factos referidos na Bíblia.
A necessidade deste tipo de livros – que, por outro lado, se inserem no movimento de publicação de dicionários e enciclopédias que, por aquele tempo, no chamado século das Luzes, percorreu a Europa – resulta do facto de a Bíblia não se encontrar traduzida e de os actos litúrgicos serem proclamados em latim.
O autor, que no livro é referido, apenas, pelas iniciais do seu nome: F.F.D.J.M.S., foi Frei Francisco de Jesus Maria Sarmento, frade e provincial da Ordem Terceira de São Francisco, o qual publicou diversas obras de cariz religioso e foi um dos responsáveis pela reconstrução do Convento de Jesus (onde, actualmente, funciona a Academia das Ciências de Lisboa) cujos edifícios sofreram, com o terramoto de 1755, gravíssimos danos que o deixaram inabitável.
O livro encontra-se disponível na internet em
http://books.google.com/books?id=qs4pAAAAYAAJ&pg=PA260&lpg=PA260&dq=thesouro+biblico&source=bl&ots=3tVTeWopPe&sig=mfqFq9hFsJgWbj78zja_U0w6sZs&hl=pt-PT&ei=M6UPTYTbD8K4jAfl5JzEDg&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=4&ved=0CCYQ6AEwAw#v=onepage&q&f=false, digitalizado a partir de um exemplar existente na Harvard University Library e é, também, passível de ser encontrado em alfarrabistas.
Não é isso, no entanto, o que nos leva a falar dele neste blog mas, antes, o facto extraordinário de o exemplar que temos presente ter sido preservado e em razoável bom estado, durante tanto tempo, sobretudo, quando sabemos que foi encontrado no espólio hereditário de uma ataijense que, apesar de ser analfabeta, o conservou durante dezenas de anos, durante toda a vida.
O livro foi encontrado, após a morte da proprietária, em casa da que foi conhecida por Maria Marreca, a qual era meia-irmã da minha avó e o terá recebido o livro por herança paterna.
O livro contém, manuscritas, três indicações de propriedade: No verso da capa, a tinta, “este livro he de ..(ilegível) .. Cortez”, e uma outra, a lápis, “Este livro he” (sem indícios de ter sido escrito o nome que, naturalmente, devia seguir-se). No verso da contra-capa, perfeitamente legível, a terceira marca: “Este livro é de António Maria Cláudio”.
Pela grafia (é em vez de he) deve presumir-se que esta terceira marca é a mais recente.
Quem seria este António Maria Cláudio?
A minha avó falava-me do seu avô João Cláudio que combateu nas tropas anglo-portuguesas durante a Terceira Invasão Francesa e, com Wellington, atravessou toda a Espanha na perseguição aos exércitos napoleónicos.
Assim, talvez o António Maria Cláudio fosse descendente do João Cláudio e, por isso, meu familiar, talvez tio-avô ou tio-bisavô.
Hei-de investigar isso melhor quando e se me decidir a entrar a sério pelos caminhos, sempre tortuosos, da genealogia.
Até lá, resta-me agradecer à actual proprietária do livro e desejar que ela e os seus descendentes o saibam conservar, por mais 233 anos, como o souberam fazer os seus ancestrais.
(Reprodução das págs. 92 e 93 do Thesouro nas quais se vê, entre outras, uma descrição moral da figura bíblica de Caim)
Nota: O presente texto substitui uma primeira versão que foi publicada neste blog em 07-01-2011
domingo, 16 de setembro de 2018
Uma foto da 1945
Com o recente texto O Moleiro, que aqui publiquei em 24 de Agosto passado, atingiu o blog Ataíja de Cima o redondo número de 333 posts ou mensagens
publicadas.
De algum modo, achei que aquele interessante número das 333
mensagens publicadas merecia ser assinalado e isso fez com que tivesse andado a
pensar em qual havia de ser o tema do 334º post, questão que ficou, agora,
resolvida porque mão amiga me fez chegar uma deliciosa fotografia, de um grupo
de 14 jovens ataíjenses, tirada na festa de S. João, nos Olheiros, talvez em
1945.
À frente, da esquerda para a direita: Maria Jorge, Piquete, Maria Carlota, João Veríssimo, Joaquina Jorge.
Atrás, pela mesma ordem: Maria Tomé, Luísa (filha de José Ribeiro), Teresa Neto, Joaquina Tomé, Maria (filha de José Ribeiro), Maria Florinda, Manuel Branco, Joaquina Júlia, Francisco Rosa
Atrás, pela mesma ordem: Maria Tomé, Luísa (filha de José Ribeiro), Teresa Neto, Joaquina Tomé, Maria (filha de José Ribeiro), Maria Florinda, Manuel Branco, Joaquina Júlia, Francisco Rosa
Dos jovens aqui representados todos os homens já faleceram
e, das mulheres, julgo que estão vivas apenas duas. Os outros, alguns cedo de
mais, foram falecendo como é da ordem natural das coisas.
Duas das mulheres faleceram, precocemente.
A segunda, julgo que também ainda nos anos de 1950, foi a Teresa Neto (era irmã do recentemente falecido José Henriques ou José Neto, mais conhecido por Zé Diabo), a qual casou com um natural do Valado dos Frades que conhecíamos por Joaquim Cuco, residiu na casa que actualmente é do Paulo Carreira (Rodinhas) e foi a última camponesa da Ataíja de Cima a falecer de tétano, tal como contámos no post, Tétano.
À excepção do Piquete (Manuel Ângelo), que morreu solteiro e
conheci a viver com o irmão António na casa que tinha sido de seus pais, na Rua dos Arneiros, onde hoje
está a casa de um dos netos do João Veríssimo, todos os demais casaram e deixaram
descendência, mas apenas dois dos retratados, a Maria Florinda e o Manuel
Branco, formaram entre si um casal.
Note-se que quatro das raparigas nem para ir à festa
largaram o lenço da cabeça e assim denunciam a sua condição de camponesas
pobres. Não são, aliás, as únicas camponesas pobres presentes na foto. A minha
mãe, Maria Joaquina da Graça que foi conhecida por Maria Carlota (a Maria filha
da Carlota), ao centro à frente, não era menos pobre. Mas sempre a conheci
opiniosa, preocupada com o próprio aspecto e o do seu João. Lembro-me, por ex.,
do cuidado com que passava a ferro e apertava os grandes laços com que atava os
aventais que usava na venda do leite e isso torna-me mais feliz a sua memória.
No trajar do conjunto das raparigas as blusas brancas, que
todas usam, denunciam que se trata de um dia de descanso, que o uso do branco era
incompatível com o trabalho do campo. Talvez os lenços sejam mais bonitos do
que parecem na foto e o que julgamos preto seja, antes, azul escuro e os lenços
tenham cornucópias, volutas ou flores, mas, seja como for, uma rapariga solteira
queria-se discreta e casta e, para isso, o branco chega.
Os
homens, esses, como galos de crista no ar ou pavões de leque, podem ser mais
vaidosos e têm melhores condições para o mostrarem. Vão vestidos para a festa.
Penteados cuidados, camisas brancas, casaco e, dois deles, até gravata. Gostos
e dinheiro para os sustentar obtidos, certamente, nas maltesias das vindimas no
Bombarral e das quintas de Lisboa.
As
duas filhas de José Ribeiro, como conta a ti Luísa Emília, ainda felizmente
viva, foram à festa sem o pai saber.
___________
Um penhorado agradecimento à Maria Amélia Cordeiro, ilustre
ataijense e querida amiga, através da qual a foto me chegou às mãos e ainda me
ajudou a identificar a grande maioria dos fotografados.
Agradeço aos leitores ataíjenses que me informem de qualquer
erro ou imprecisão que deva ou mereça ser corrigida. Como lhes agradeço que me
emprestem as fotos interessantes que, certamente, andam lá por casa.
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
O Moleiro
Ainda estão vivos alguns que se podem lembrar de ter ouvido
os seus búzios assobiar ou de ter visto as suas velas a rodar ao vento, mas as
memórias começam a ficar difusas e, dele, não se conhecem fotografias ou
desenhos, mas não havia de ser muito diferente (ao menos no que diz respeito ao
mecanismo de moagem) do que se mostra no desenho abaixo, o moinho de vento que,
algures pelos finais dos anos 30 ou inícios dos anos 40 do século passado, o ti
Manuel Luís mandou construir no quintal.
Teve curta duração e dele não há ruínas ou quaisquer indícios que atestem a sua existência, já que se erguia no lugar onde depois foi construída a casa de João Frade, filho do proprietário, mesmo ao lado de onde agora está a do neto Zé Frade, um lugar alto aonde o vento podia chegar, sem obstáculos, de todas as direcções.
Ali se moía o milho de que se fazia a broa dos vizinhos e o
próprio e das maquias com que se alimentava a numerosa prole e algum trigo para
o pão-alvo dos domingos e dias santos.
Mas, naqueles dias de Agosto, havia mais de uma semana que
sobre a terra tinha caído uma calmaria tal que nem as folhas das nogueiras
buliam. Nada, nem uma brisa ligeira. Apenas, dia sobre dia, aquele calor seco
que tão bem conhecemos, quando o sol queima na pele, os pássaros não voam, os
cães se arrastam nas sombras e só o canto das cigarras rasga o silêncio.
Era Domingo. Talvez no ano de 1941 ou 1942, quando a Europa
sofria sob a guerra e Portugal sofria sob a pobreza de sempre, agora agravada
pelo racionamento. Na casa da ti Maria da Graça o pão, fossem os restos do
pão-alvo do domingo passado, fosse a broa semanal, já tinham acabado. Nem uma
côdea sobrava na arca.
O Padre Casimiro marcava as missas em São Vicente para muito
cedo, quase de madrugada, o que por outro lado era bom que, assim, não tinha a
gente de torrar sob o sol naquela viagem de seis quilómetros, ida e volta.
Estava todo o povo na missa, as mulheres e as crianças pequenas no corpo da igreja, os homens ocupando a capela-mor e o coro, como era uso naquele tempo e ainda me lembra e o meu pai contava-me que, quando ele era pequeno e ainda ficava com a mãe no corpo da igreja, que se os homens se ajoelhavam, (apenas o joelho esquerdo no chão, mão direita segurando firmemente o pau, cotovelo apoiado na coxa) ficava a capela-mor feita uma floresta de paus. Nos anos cinquenta os paus já tinham desaparecido – pelo menos da missa - mas o resto mantinha-se muito parecido.
Estava o povo na missa, dizia eu, e o ti António da Graça,
então um jovem dos seus dezoito ou dezanove anos, assistia no coro quando ouviu
lá fora o rumor de uma rabanada de vento. Benzeu-se à pressa, desceu à rua e,
não havia dúvidas, fazia um vento suão que levantava a poeira seca dos
caminhos.
Não pensou duas vezes: desatou a correr quanto pode e, num ápice, galgou os três quilómetros que o separavam de casa e do moinho. Despiu a camisa domingueira que o suor colara ao corpo e foi-se ao moinho. Verificou brevemente o engenho. Desenrolou as velas e amarou-as às varas das escotas. Despejou a saca de trigo no tegão. Manobrou o sarilho, fazendo girar o capelo para alinhar as velas com a direcção do vento.
Sob a força da entrosga todo o engenho rangeu e a mó andadeira começou a rodar, o grão a escorrer pela calha e a farinha a surdir no panal.
Acabada a missa, a ti Maria da Graça vasculhou o adro em
busca do filho que não encontrou. Levantou o rosto para sueste e os seus olhos saltaram
o vale e chegaram ao seu moinho e pode ver, destacando-se no cenário de fundo
da serra dos Candeeiros, as velas brancas a girar.
Graças a Deus!
O meu António já tem o moinho a trabalhar!
Estugou o passo e, também ela, chegou ofegante a casa e ao
moinho onde o António já tinha a farinha suficiente. Peneirou-a e amassou-a
brevemente, abafou-a com uma manta para levedar mais depressa e, usando o azeite que, esse, felizmente, ainda abundava na talha,
fez filhoses que polvilhou moderadamente com açúcar e esse foi o almoço de
todos.
Corte longitudinal de um moinho de vento, permitindo ver o
mecanismo
(imagem retirada, com a devida vénia, de Museu da Memória Rural, uma
realização da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, com um excelente site
na internet, in https://museudamemoriarural.pt/)
quarta-feira, 25 de julho de 2018
Há um problema de segurança em Alcobaça?
Motivados por uma desusada vaga de assaltos a residências na Ataíja de Cima, publicámos no semanário Região de Cister, de 22 de Março de 2018, um texto com o título acima.
Depois disso, têm-se multiplicado quer na imprensa local quer, sobretudo, nas redes sociais, relatos de uma persistente criminalidade, relativa a assaltos, roubos e tráfico de drogas, entre outros.
Depois disso, têm-se multiplicado quer na imprensa local quer, sobretudo, nas redes sociais, relatos de uma persistente criminalidade, relativa a assaltos, roubos e tráfico de drogas, entre outros.
Tudo perante o silêncio das autoridades municipais e policiais e a ausência de notícias que nos digam que os criminosos vão sendo
apanhados, julgados e condenados, ou de estatísticas que nos mostrem que as
coisas estão a melhorar (e não a piorar como parece ser o sentimento geral).
É por tudo isso que me parece que mantém pertinência a
pergunta e se justifica a republicação, aqui no blog, do referido texto.
Há um problema de
segurança em Alcobaça?
Há muitos anos, calhou-me integrar a associação de pais de
uma escola secundária, então frequentada pelos meus filhos.
Uma das questões recorrentes era o enorme rol de queixas relativas a pequenos furtos que afectavam os alunos e, quase sempre, apontavam numa direcção: um ou dois bairros próximos da escola onde, a par com habitação social, existiam muitas casas clandestinas e algumas habitações precárias.
Uma das questões recorrentes era o enorme rol de queixas relativas a pequenos furtos que afectavam os alunos e, quase sempre, apontavam numa direcção: um ou dois bairros próximos da escola onde, a par com habitação social, existiam muitas casas clandestinas e algumas habitações precárias.
Um dos colegas da direcção era um prestigiado militar que
não só conhecia bem as questões de segurança como quem tinha o dever de a
garantir naquela área e lá fomos ambos falar com o então Chefe da esquadra da
PSP do Campo Grande, a quem demos conta dos problemas existentes,
solicitando-lhe que reforçasse o patrulhamento no local.
Depois de nos escutar atentamente, o responsável deu-nos
conta dos meios que tinha à disposição, em homens e viaturas e um mapa da parte
da cidade cuja segurança pública era sua responsabilidade. O dito mapa mostrava
com clareza as zonas onde realmente existiam os problemas de segurança a que a
PSP tinha de dar atenção. A área da escola dos meus filhos não era uma dessas
áreas, porque o volume de queixas, fossem relativas a furtos e roubos fosse a
outros crimes contra as pessoas ou a propriedade, era absolutamente residual.
Resumindo, havia muitas queixas na associação de pais e
poucas na PSP.
Não sei qual é a situação no que respeita a Alcobaça e aos
crimes contra a propriedade. Não sei se a PSP e a GNR têm muitas ou poucas
queixas, nem as zonas do concelho onde são mais ou menos frequentes.
Mas sei que no curto espaço de cerca de treze meses, entre
os primeiros dias de fevereiro de 2017 e meados de março de 2018, numa única
aldeia do concelho, numa única rua e na curta distância de 300 metros, houve
seis furtos com arrombamento, a um estabelecimento comercial e a cinco
residências e seus anexos.
Nesses furtos, além dos danos provocados nos edifícios para
arrombamento, desapareceram dinheiro, alimentos e bebidas, ferramentas,
máquinas, e até a porta do estabelecimento assaltado e veículos motorizados,
tudo no valor de muitos milhares de euros.
Num dos casos, quando a GNR chegou ainda o ladrão se
encontrava dentro da casa assaltada.
Não muito longe, há uns poucos meses atrás, furtaram equipamentos
em pedreiras. Num caso, com ameaças a uma pessoa. Noutro caso, foi identificada
a viatura em que se deslocavam os assaltantes e, consequentemente, os próprios
assaltantes.
Ou seja, em pelo menos dois dos casos referidos conhecem-se
os autores e sabe-se onde habitualmente param e com quem andam.
Na época da azeitona foi furtado pelo menos um motosserra
que, por pouco tempo, tinha sido deixado num olival.
E, há outros casos, como aquele do estrangeiro residente no
Casal do Rei a quem, - obviamente sabendo que ele se tinha ausentado para ir à
sua terra, - levaram todo o recheio da casa, incluindo a mobília.
Ou o estabecimento comercial, na mesma aldeia, onde furtaram
as bilhas de gás que ali estavam para venda.
Talvez a GNR não tenha tido conhecimento da totalidade
destes furtos, mas sei que recebeu as correspondentes queixas da maioria deles.
Talvez não haja um problema de segurança em Alcobaça. Mas,
os factos que acabo de relatar mostram, inequivocamente, que existe um problema
de segurança em algumas partes do concelho de Alcobaça.
Na Ataíja de Cima, claramente, há um problema de segurança.
18-03-2018
sábado, 30 de junho de 2018
Ainda sobre o nome Ataíja
(Ataíja e Atalaia, em
Vestígios da Língua Arábica em Portugal)
Quando andava à procura de coisa absolutamente diferente,
tropecei no 3º volume do curioso livro intitulado TENTATIVA ETYMOLOGICO-TOPONYMICA
ou Investigação da Etymologia ou Proveniencia dos Nomes das Nossas Povoações,
por Pedro Augusto Ferreira, bacharel formado em Teologia, continuador do
Portugal Antigo e Moderno e Abade de Miragaya aposentado, Terceiro Volume,
Porto, Typographia Mendonça (a vapor), Rua da Picaria 30, 1915.
Só o longo título é todo um programa pelo que não resisti a
dar uma vista de olhos e, a páginas 64, deparei com uma, para mim, nova
explicação para a origem do nome Ataíja, a qual não resisto a partilhar com os
leitores do blog.
Atalaia é, diz o nosso abade aposentado, vigia, torres
maiores ou menores que se faziam outrora em sítios altos e algo distantes das
praças de guerra, como vedetas[i],
sentinelas ou guardas avançadas para vigiar o movimento dos invasores e evitar
surpresas. Aproveitavam-se mesmo algumas vezes penhascos nativos, próximos das
praças e com vistas largas, para suprir as atalaias.[ii]
Quanto à origem da palavra, cita Cândido de Figueiredo que ”no
seu Novo Dicionário da Língua Portugueza
diz que atalaia vem do árabe at-talia”
mas, contrapõe, Viterbo diz que dos árabes nos ficou esta palavra que eles
pronunciavam atalaia, vinda do verbo tália
que na oitava conjugação significa vigiar” e, acrescenta o nosso autor em nota
que, nos Vestígios da Língua Arábica em
Portugal[iii] lê-se
Atalaia, Attallaâ. Vila da Província
da Estremadura, Patriarcado de Lisboa. Significa lugar alto. Torre de onde as
vigias descobrem o campo. Lugar eminente. Deriva-se do verbo tálea, subir, e na VIII conjugação é
vigiar, olhar ao longe, descobrir com a vista. Também se chamam atalaias os
homens que vigiam os campos, fortalezas, praças e presídios.
Delas (as atalaias)
tomaram o nome talvez mais de cem povoações nossas, mencionadas na Chorographia Moderna.[iv]
Taes
são: Atalaia, Atalaias, Atalainha, Ataia, por Atalaia, ; Ataija por Ataya, o
mesmo que Ataia ; Taias por Ataias ; Taijas por Ataijas ; Talaeiros por
Atalaeiros ; Talaia por Atalaia ; e Tayão, aferese do Atalaião, augmentativo de
Atalaia.[v]
E, aqui está como o nome Ataíja pode
provir da palavra árabe attllaâ,
atalaia, com o significado de vigiar, olhar ao longe, descobrir com a vista e,
também, os homens que vigiavam os campos, ou os lugares altos donde o faziam.
É com o mesmo significado que a
palavra subsiste, até hoje, na língua portuguesa. Veja-se o Priberam:
a-ta-lai-a (árabe atalai’a, plural de talaaiâ, lugar alto para vigilância, sentinela) substantivo feminino
a-ta-lai-a (árabe atalai’a, plural de talaaiâ, lugar alto para vigilância, sentinela) substantivo feminino
1. Torre, guarita ou lugar alto donde se vigia.
substantivo de dois géneros 2. Pessoa que está de vigia. = SENTINELA
(Estar de) atalaia • De vigia a ou à espera de algo ou alguém.
Numa posição ou postura que permite estar a espreitar ou alerta para algo.[vi]
Ora, em toda esta região não há melhor atalaia que a
serra dos candeeiros. De facto, dela se alcança o mar e, por muitos quilómetros
em redor, uma vastíssima extensão de território.
É, pois, bem plausível que o nome Ataíja venha daí, como é
igualmente plausível que provenha, como sustentou Frei João de Sousa[vii],[viii], de
uma outra palavra árabe, como já dissemos no post A Origem do Nome Ataíja, aqui publicado em 17de Novembro de 2009.
Em qualquer caso, será à serra que a Ataíja vai buscar o seu nome.
[i] Vedeta,
diz-nos o dicionário online Priberam, é italiano e significa lugar elevado onde
se colocava uma sentinela mas, também, em terminologia militar antiga,
sentinela a cavalo.
[ii] Pág.
61.
[iii] Vestígios da Língua Arábica em Portugal, ou
Lexicon Etymologico das palavras e nomes portuguezes que tem origem arábica,
por Fr. João de Sousa, Lisboa, na oficina da Academia Real das Sciências, anno MDCCLXXXIX.
Edição (fac-smille) de A. Farinha de Carvalho, 1981.
[iv] Chorographia Moderna do Reino de Portugal,
por João Maria Baptista, Coronel de Artilharia Reformado, Coadjuvado por seu
filho João Justino Baptista de Oliveira, Volume I, Lisboa, Typographia da
Academia Real das Sciencias. Obra em vários volumes, o primeiro saído em 1864 e
o quarto, que contém a Província da Estremadura, em 1876.
[v] Pág. 64.
[vi] "atalaia", in
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/atalaia [consultado
em 14-06-2018]
[vii]
Op.Cit. na Nota iii
[viii] Ver (ler) imagem acima.
terça-feira, 19 de junho de 2018
5º Aniversário da Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça
A Escola de
Concertinas Aldeias de Alcobaça nascida da curiosidade do Zé da Ilda que,
passados já os sessenta anos, quis realizar o desejo de aprender a tocar
concertina, tornou-se um projecto sério que cresceu de um modo que os seus
iniciadores nunca terão previsto e, passados apenas cinco anos, mantém essa
vertente de escola de música, agora mais viva do que nunca e despertando
mais interesse do que nunca e, por outro lado, é um grupo de concertinistas
capaz de se apresentar em publico com êxito e agrado geral, o que vem
acontecendo cada vez mais amiúde e em diferentes palcos.
Este pessoal das
concertinas, digamos assim, é gente que gosta de se divertir e de conviver e,
por isso, o convívio entre grupos de concertinistas é uma vertente importante
da actividade.
É assim que, para comemorar o 5º aniversário da Escola, foi possível reunir no passado domingo, dia 17 de Junho de 2018, no Largo do Cabouqueiro, na Ataíja de Cima, um grande número de muitas dezenas de concertinistas, pertencentes a 14 grupos diferentes, que abaixo listamos como forma de agradecimento pela excelente tarde que lograram propiciar às centenas de pessoas que acorreram a assistir ao espectáculo.
É assim que, para comemorar o 5º aniversário da Escola, foi possível reunir no passado domingo, dia 17 de Junho de 2018, no Largo do Cabouqueiro, na Ataíja de Cima, um grande número de muitas dezenas de concertinistas, pertencentes a 14 grupos diferentes, que abaixo listamos como forma de agradecimento pela excelente tarde que lograram propiciar às centenas de pessoas que acorreram a assistir ao espectáculo.
Escola de Concertinas
aldeias de Alcobaça
Grupo de Concertinas
de Machio (Pampilhosa da Serra)
Grupo de Concertinas
da Barrenta
Grupo de Concertinas
de Santa Maria da Feira
Grupo de Concertinas
Sons da Serra (Oliveira do Hospital)
Grupo de Concertinas
da Casa do Benfica da Charneca da Caparica
Concertinas João Tomás
Grupo de Concertinas
de Dornes (Ferreira do Zêzere)
Grupo de Concertinas
Michel Neves, de Vila Facaia (Pedrógão Grande)
Grupo Verde Minho
(Loures)
André Vieira (Pero
Negro)
Escola de Concertinas
Filipe Oliveira (Sintra)
Augusto e Filipe
Martinho
Escola de Concertinas
da Cabeça Veada
Há igualmente que
agradecer todos os apoios e patrocínios, quer os institucionais, Câmara
Municipal de Alcobaça e Junta de Freguesia de Aljubarrota, quer as muita
pessoas da Ataíja que com o seu trabalho e esforço contribuíram para a
realização do evento quer, ainda, às cerca de quarenta empresas sem cujo
patrocínio tudo teria sido mais difícil.
Ficam algumas fotos que
fizemos durante a festa.
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