quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A Rua dos Arneiros em Meados do Século XX




A Rua dos Arneiros que, a partir do Outeiro, liga à Ataíja de Baixo, é um caso curioso já que, por um lado, aparenta ser um caminho, digamos, recente, uma vez que não aparece representado no Mapa elaborado em 1791 para a construção da estrada de Rio Maior a Leiria, a Estrada de D. Maria Pia e, por outro lado, foi o primeiro caminho desta borda da serra a ser classificado como Estrada Municipal, o que aconteceu, como já disse no texto O Caminho do Concelho, pelo Decreto de 28 de Julho de 1894.

Se a classificação de 1894 se compreende no âmbito de um processo de criação de ligações radiais das povoações à sede do concelho, (na mesma data foram criadas as estradas para Chequeda e Molianos e Maiorga, Casalinho, Fanhais[i] e Pataias, entre outras) a ausência do mapa de 1891 significará que, muito provavelmente, não existia naquela data, o que implicaria que as relações entre as Ataíjas eram de baixa intensidade, talvez por um efeito barreira criado pelo olival dos frades que as separava. 

Arneiro, dizem os dicionários, é um lugar areento e estéril. Aqui, não me parece que seja especialmente areento, antes, argiloso o que, aliás, não é incompatível. E, estéril não é mas é pouco produtivo. Isso, deve-se sobretudo à pouca espessura do solo arável, sendo comum encontrar pedra a pouca profundidade (o meu pai intentou, há menos de quarenta anos, plantar uma vinha no Serrado. Além de, numa parte do terreno, ter encontrado uma grande quantidade de pedra, a vinha foi sempre muito fraca, tendo durado, apenas, cerca de vinte anos. De modo semelhante, já na Figueira Pedral, a Aire Mármores construiu recentemente um parque de estacionamento e aí se viu bem que o solo arável tinha menos de trinta centímetros de espessura, e assentava sobre uma cama contínua de pedra).

No texto A Rua das Seixeiras em Meados do Século XX, já deixei uma descrição de como era a Rua dos Arneiros naquele tempo. Vejamos agora como ela era habitada, pouco depois de eu nascer:

Começando pelo Outeiro, a primeira casa que ali existia, e ainda existe, era a de José Veríssimo e Maria da Graça (Maria da Serra), agora desabitada. Ali moravam os proprietários e dois filhos, estando os mais novos ainda por nascer.
Até ali, nenhumas construções existiam senão o pátio e eira da casa de António Matias e, do lado da serra, agora nos cómodos do José Planeta, um poço, propriedade de José Ribeiro.

Desse lado da serra, seguia-se a casa onde viviam os irmãos António e Manuel Ângelo, o primeiro conhecido pela alcunha de Rospiço, alcunha essa que é, aparentemente, corruptela de Respício, que já encontrámos como nome próprio feminino (Respícia dos Santos) e apelido. O dicionário online Priberam diz que respício significa criança magra e enfezada.
O que inicialmente era para mim uma estranha alcunha terá, assim, algo a ver com o aspecto físico da criança que foi António Ângelo.
O irmão Manuel, esse, foi conhecido por o Piquete.

Após um curto intervalo de terra agrícola, seguia-se e segue-se a casa agora de António Salgueiro e, então, de Augusto Ribeiro. Logo, colada, a casa de Maria Jorge e de seu marido António Constantino, o Toni. Ela, sobrinha do Augusto.
Em frente, um antigo lagar de vinho, propriedade do Augusto, o único lagar de vara que conheci na Ataíja de Cima. Já não trabalhava, mas ainda lá estava tudo: o lagar, a vara, o fuso e o peso.
Era uma construção ampla tendo, quer do lado do caminho quer do terreno, portões largos, por onde cabia um carro de burro e se fazia a serventia de uns terrenos encravados que ali havia, entre eles um que era propriedade de José Henrique que foi conhecido por José Neto e José Diabo.
Quando o José Diabo se resolveu a casar, era aquele o único terreno que possuía onde pudesse construir uma casa.
O Augusto já tinha falecido, a sua viúva, Maria Adelaide regressara ao Casal Pardo de onde era natural e o proprietário do lagar era agora José Veríssimo que recusou a pretensão do Diabo de fazer passar os materiais para a construção pelo seu terreno, ao lado do lagar. Que não. Que passasse por onde sempre se tinha passado. Que a serventia era pelo lagar e não lhe dava outra.
O caso só se resolveu quando o Tribunal mandou que se mudasse a construção uns metros para o lado, como ainda lá está, pagando o Diabo as despesas.

E, foi assim que nasceu a Travessa dos Arneiros.

Ao tal lagar seguia-se, menos de um metro depois (deixando apenas uma estreita passagem até à cisterna que ainda lá está, embora muito arruinada) a casa de Luís Barra e Ana Dionísio, (Denísia, dizíamos), agora em irreversível ruína.
Seguia-se, onde o meu primo João Porfírio teve o palheiro do burro, a casa onde vivia a, então, ainda jovem viúva Joaquina Cordeiro e, depois, a casa, agora também devoluta, de João da Graça Salgueiro e de sua mulher Ana Lourenço da Silva que todos conhecemos por Ana Patoixa, que aí viviam com os dois filhos. Num dos seus anexos funciona, actualmente, a Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça.
Seguiam-se a casa e os cómodos dos pais da Ana, Francisco Dionísio e Joaquina Lourenço e, depois, a casa onde eu nasci.

A Rua do Martins era, então, a Azinhaga do Martins, um caminho estreito, onde só cabia um carro de vacas entre paredes de pedra solta, e não tinha casas. Apenas olivais. O olival da Burra, o olival do Guincho, o Olival do Brilhante. Uma parte deste, onde os Faxia têm agora as suas casas era, naquele tempo, propriedade de uma irmã do meu avô Quitério que morava em Valbom e era tão cerrado que o sol quase não chegava ao chão.
Voltando à Rua dos Arneiros, passada a Azinhaga do Martins havia a casa de José Dionísio e de sua mulher Joaquina Nazaré (Joaquina, filha da Nazaré) e, logo a seguir a que tinha sido do pai dela, João Maurício, sobre a qual o Pérides, neto dele, mais tarde construiu a sua.

Voltando um pouco atrás e ao lado de Aljubarrota, a casa dos meus pais, construída em 1946, tinha (e tem) uma parede comum com a adega do meu avô, adega essa que, por sua vez, tinha sido construída, em finais do Século XIX, por um irmão da minha avó que dela queria fazer residência. Nunca o chegou a ser porque ele veio a falecer na tropa. Dizia minha avó, que de desgosto.

Seguia-se o quintal de António Lourenço, onde pontificava uma já então velha figueira que ainda lá está hoje e, estávamos na entrada da Rua das Covas.
Na esquina do lado sul, já lá estava, desde 1945, a casa de José Coelho Vigário, o José Guilhermino (o José da Guilhermina) e, dentro do seu pátio, a casa de alpendre onde ainda vivia a sua mãe, Guilhermina Vigário então já viúva do meu tio-avô António Quitério, o Mal-das-Vinhas.
Tendo falecido recentemente (05-02-2019) a ti’ Maria Marques, viúva de José Guilhermino, esta é mais uma casa inabitada.

Continuando na Rua das Covas, seguia-se o Quintal da Rosalia onde havia a única casa com o chão ainda em terra que conheci habitada na Ataíja. Aí morava então, de empréstimo, José Maurício que foi conhecido por José Rebolão, a sua mulher Emília Mariano, natural do Cadoiço e a filha mais velha, nascida no mesmo dia que eu.

Do outro lado da rua a casa de António Lourenço, o Ária e de sua mulher, Maria Quitério, minha tia-avó.
Ele também era parente, em grau que ainda não apurei, pelo lado da minha avó paterna mas, mais do que isso tinha a fama e, parece, o proveito, de ter dinheiro, fruto, talvez, dos tempos em que trabalhou como capataz ou feitor para o Raposo de Magalhães na sua quinta dos Ganilhos ou do Mirante (da estrada ainda se consegue ver, no meio do campo, por detrás de uma urbanização recente, uma pequena torre ameada, o Mirante, que servia para o capataz, lá de cima, vigiar terras, culturas e servos).
Certo é que o meu pai, quando quis fugir da vida sem horizontes da aldeia que lhe não permitia alimentar decentemente três filhos pequenos, pensou comprar uma venda de leite em Lisboa e pediu dez contos ao Ária, que lhos emprestou com dez por cento de juro a serem pagos, anualmente, em dia de Todos-os-Santos.
A minha mãe não gostava dele porque, um certo dia, falando do lado de lá da pequena parede que separava ambos os quintais, ele lhe terá dito que aquilo ainda havia de ser tudo dele, porque o João dela não ia conseguir pagar o que lhe devia.

À do Ária seguia-se a casa que tinha sido do meu bisavô e ao lado da qual um neto, o meu tio António Sapatada, tinha construído a sua, servindo agora a do avô para arrumos e como casa do ofício de sapateiro de onde lhe vinha a alcunha.

Voltando à Rua dos Arneiros, do lado da serra, depois da casa de João Maurício havia apenas um poço, o poço do Fialho. A rua onde agora são as casas do Rogério Sabino e do Carlos da Ilda e uma outra de um cidadão estrangeiro, não existia. Era uma mera serventia agrícola.
Reparei agora que, apesar de habitada, esta rua ainda não tem nome, ou pelo menos placa. Mas, bem lhe ficaria o nome de Rua do Serrado, porque por Serrado eram conhecidos aqueles terrenos.

Seguia-se a casa que ainda lá está mas também já desabitada,  de António da Graça  e Ilda Lourenço, que a construíram para  o seu casamento, celebrado em 29-10-1949.
Logo depois, havia uma antiga casa, então há muito desabitada, que tinha sido propriedade do Combasteiro e, então, já era propriedade do seu sobrinho José Lourenço, pai da Ilda.
Seguia-se, na esquina da Rua das Pedras Brancas, a casa de Francisco Machado e Luísa Gomes, ele conhecido por O Faxia e, em frente, na esquina oposta, escondida dentro de um pátio, a casa de António Catarino e Joaquina Cordeiro, conhecida por Joaquina Benta (julgo que por ser filha de um Bento), que aí viviam com os seis filhos então, ainda, todos solteiros.
No quintal do Faxia, já em plena Rua das Pedras Brancas, estava a construir-se a casa onde a filha dele, felizmente ainda viva e de boa saúde iria, logo em 1951 formar um casal com José da Graça.

Do lado de Aljubarrota, à casa de José Guilhermino seguia-se uma sequência de 3 casas: a de António Guilhermino que aí criou dez filhos, a do seu primo António Quitério que foi conhecido por António Piedade (António, filho da Piedade) e a de seus pais, a dita Piedade e o meu tio-avô José Quitério.
Nesse tempo, esta última casa era habitada pela filha solteira do casal, Joaquina, de alcunha Joaquina Piedade ou Baguinho de Milho. Posteriomente, no início da exploração do Vidraço de Ataíja, num anexo, aí morou e teve a sua forja um emigrante que exercia a profissão de ferreiro, então insdispensável, além do mais, para afiar ponteiros e picões.
Mais adiante, era a casa de José Lourenço e Ana Caseira, uma casa à maneira tradicional, oferecendo a empena à rua e à serra e com os vãos abertos a sul.  O pátio desenvolvia-se em frente à fachada principal, esta protegida por um pequeno telheiro e separada do pátio por um patim a que se acedia directamente da rua.

A seguir, ainda se vê o que resta das ruínas da casa que foi de uma sua filha que ali viveu casada com António Orelha (filho) e morreu nova. Mas, em 1950 eles ainda eram solteiros e quem ali vivia era uma irmã dele, casada com um tal Henrique, ao que parece oriundo da zona do Vimeiro. Tendo ela morrido nova, o viúvo saiu da aldeia e a casa passou a propriedade do irmão dela.

Por fim, uns cinquenta metros depois, estava e ainda está O Poço do Moura  e, junto dele, acabada de construir, no ano de 1949, como atesta a pedra da era sobre a porta de entrada, a casa onde moraram António Maurício, conhecido por António da Silvina e Maria de Matos Ângelo, conhecida por Maria Rosa.


Dali até à Ataíja de Baixo mais nenhuma construção existia.


Ou seja, cerca de 1950, havia na Rua dos Arneiros (e nas Rua das Covas) um total de vinte e três casas habitadas e uns oitenta e cinco habitantes.


A casa que foi de António Lourenço, numa foto de 2010. A porta em primeiro plano é a da adega. A casa, construída nos últimos anos do séc. XIX, não tem janelas. A única janela é da adega, está sobre o lagar e a pedra cravada na parede (poial) serve para apoiar o pé da pessoa que faz a trasfega das uvas, da tina para o lagar.







[i] No Decreto de 28 de Julho de 1894 diz-se Fanhões. É lapso. Trata-se, sem dúvida, de Fanhais que então pertencia ao concelho de Alcobaça.


terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Início da Construção do Centro Pastoral – Sala de Velório




No post que dedicámos ao 19º Almoço Anual do Salão Cultural Ataijense  
aqui publicado em 27 de Janeiro de 2018, referimos que foi aí publicamente anunciado que, como aliás já tinha sido publicado na Folha Paroquial, foram celebradas as escrituras de compra e a de doação feita pelos nossos amigos Rogério e Luís Vigário dos edifícios onde foram a casa e cómodos de seus avós Sabino Vigário e Joaquina Baptista para aí serem instaladas uma Casa de Velório e outros serviços ligados à paróquia e à Capela de Nossa Senhora da Graça, designadamente instalações para a Catequese.

Mais foi dito que, atenta a grande área que assim fica disponível para o serviço da comunidade, pretende-se elaborar um projecto de grande qualidade que, muito provavelmente, há-de ser construído por fases, ao ritmo da capacidade da comunidade ataijense.

A Câmara Municipal de Alcobaça disponibilizou-se para oferecer o projecto, o qual foi elaborado por CS Laureano Arquitectos. Lda.
 
Estes assuntos, naturalmente sob a orientação e direcção do Sr. Padre Dr. Adelino Filipe Guarda, estão a cargo da comissão da Capela de Nossa Senhora da Graça que tem desenvolvido um intenso trabalho com vista, designadamente, à recolha de fundos necessários ao financiamento da construção.


Dois anos decorridos e como foi publicitado no final do ano passado, as obras cujo valor ultrapassa os 200.000 €, foram adjudicadas a Emídio Honório Luís Construções, do Carrascal e, começaram na passada, com o início da demolição do existente.

Agora, para além do trabalho de construção, há muito a fazer, já que é preciso continuar a angariar fundos para fazer face a tão elevados encargos.
Pela minha parte, já participei em dois almoços de angariação de fundos e, correndo o risco de engordar, espero poder estar presente no próximo e nos seguintes.



Início das demolições no local de construção da obra (foto de 26-01-2020)





Planta do conjunto a construir, vendo-se a sala de velório, e as áreas de apoio com copa, arrumos e wc, incluindo wc acessível e salas para a catequese e outras reuniões



O excelente projecto pode ser melhor visto (CTRL+Clik) no vídeo seguinte, que se encontra publicado nas páginas de Facebook de CSLaureano Arquitectos, Lda, em
Ou




quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

21º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense




Realizou-se no passado domingo, dia 19, o 21º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense.
Assim acontece, sem interrupção, desde o ano de 2000. 

O terceiro Domingo de Janeiro é, sempre, dia de almoço no Salão.

Este ano, responderam à chamada mais de 250 ataíjenses e amigos o que, com os convidados e  os muitos voluntários que asseguraram todo o serviço, soma mais de 280 pessoas e, com as crianças menores de seis anos que, por não pagarem, não foram contabilizadas (e, são muitas, – só eu levei três) leva os números para bem perto das trezentas pessoas.
Um tal número só pode ser motivo de orgulho para o Salão Cultural Ataíjense e para todos os que têm contribuído para o seu funcionamento e desenvolvimento. Afinal, qual é a associação da nossa região que consegue juntar tanta gente num evento com estas características?



 
 
 
Quatro aspectos do Salão durante o almoço


 A equipa directiva


 O Presidente da Direcção, com o Vereador da CMA João Santos no uso da palavra


 A Tesoureira presta contas


 
Começar a almoçar quando os outros já desceram para o café.


Obrigado a todos os que contribuíram para a realização deste dia.
Foi para mim um grande prazer poder estar presente, pela 21º vez, nos almoços anuais do Salão e foi um maior prazer poder fazê-lo na companhia dos meus filhos e netos.

Para o ano, no dia 17 de Janeiro de 2021, se tudo correr como desejamos, cá estaremos no 22º almoço anual do Salão.


terça-feira, 31 de dezembro de 2019

A Rua das Seixeiras em Meados do Século XX



A Rua das Seixeiras que prolonga, a partir do Outeiro, a Rua dos Arneiros seguindo em direcção aos Casais de Santa Teresa é parte, como já referi mais de uma vez, da Estrada Municipal que ligava os Casais de Santa Teresa à Lameira, pelas Ataija de Cima e de Baixo e Carvalhal e foi classificada como estrada municipal de 2ª classe pelo Decreto de 28 de Julho de 1894, durante o governo de Hintze Ribeiro.
Em verdade, pelo menos na parte entre ambas as ataíjas, parece-me bem que tal estrada nunca saiu do papel pois, ainda há menos de setenta anos tudo era uma estrumeira pegada que ia, com poucos intervalos, desde o Outeiro à Senhora dos Enfermos. Um caminho estreito, onde apenas cabia um carro de bois entre paredes de pedra solta, que não obedecia aos requisitos técnico-legais mínimos, designadamente a largura de livre trânsito de 4 metros, exigida no Decreto de 31 de Dezembro de 1864.
Em meados do Século XX, as mulheres e as crianças andavam na sua maioria descalças (poucos homens também) e quando as estrumeiras eram novas, frequentemente com carrascos  e outras plantas de folhas espinhosas, alagavam-se algumas pedras das paredes para criar um passadiço (na verdade, para avisar o dono da estrumeira que, invariavelmente era o da parede, a ter um pouco de cuidado e atenção aos seus vizinhos). Podemos ter uma noção do que eram essas estrumeiras se soubermos que, alguns anos antes, em meados da década de 1940, quando José Vigário ainda fazia estrumeira no Adro da Capela resolveu, em vésperas de festa, colocar aí uma estrumeira nova e para que as gentes pudessem circular sobre ela, contratou um rancho – onde estava a minha mãe – para a malhar a mangual, amaciando assim as suas partes mais agrestes.




Há setenta anos a Rua das Seixeira distinguia-se por melhor razão. 
Nos anos de 1930 um comerciante alcobacense, Diamantino dos Santos Vazão, investiu fortemente num lagar de azeite que se situava entre a Ataija e os Casais de Santa Teresa, perto da estrada de D. Maria Pia. Uma parte do(s) edifício(s) ainda lá estão, logo a norte do IC9 e, há alguns anos, aí funcionava (não sei se ainda funciona) uma oficina de torneiro.
Para garantir um bom acesso ao lagar, o Diamantino mandou reparar e calçar a pedra e seixos toda a Rua das Seixeiras e a vereda que, a partir do pinhal do Vigário para a direita, passou a ser conhecida por Estrada do Diamantino.


Em meados do Século XX, a primeira casa da Rua das Seixeiras, pelo poente, era a de João Luís e Rosalía de Carvalho que aí viviam com a filha solteira Maria Rosalía, a “enfermeira” da terra. 
Logo, separada por um estreito beco, uma casa antiga, de alpendre, onde vivia Maria Catarina que sempre conheci velha e só. 

A Maria Catrina tinha um medo pânico de qualquer espécie de bestas e veículos, fosse um carro de vacas ou de burro, uma bicicleta ou um raro automóvel, chegando a derrubar paredes na ânsia de deles fugir, o que fazia dela alvo de impiedosa chacota.

Do outro lado da rua, também só, vivia a Benedita. Era viúva e tinha uma filha, mas a essa não me lembro de jamais ter visto. O marido, ao que parece, tinha morrido (ou veio a morrer) na América, onde andava emigrado e terá ganho os dólares que justificaram o pequeno luxo que são as cantarias de verga arredondada, como ainda hoje se vê no que agora são arrumos do António Sabino.


Seguia-se a casa e taberna do Petinga, onde este vivia com a mulher e sem filhos e agora está a de uma sua sobrinha e, do outro lado da rua, uma pequena casa recuada onde viveu Francisca Félix, viúva de Matias Ângelo e onde o neto Manuel Félix teve oficina de sapateiro. Seguia-se a casa mais recente construída para o casamento da filha Maria Matias ou Maria Félix, que aí viveu com o marido Francisco dos Casais e onde criaram os dez filhos.

(falamos, até agora de seis casas e, curiosamente, em cada uma delas havia uma pessoa que não era natural da aldeia. Mas, isso é assunto para quando tratarmos de fluxos migratórios).


Seguia-se a casa onde viviam a minha tia Angélica com o marido e a filha. Desta casa já falei no post  Ataijenses na(s) América(s) 


No sítio onde agora está a casa do Zé Frade e antes esteve o moinho de que falei no post O Moleiro, estava então a casa do pai do Zé, João Frade.

Junto ao caminho, a casa, hoje muito degradada, de Manuel Luís e Maria da Graça, pais do João e de mais oito filhos (os que sobreviveram de doze partos), entre eles o Quim Velho e o Luis da Graça
Entre ambas as casas, a bela cisterna a que me referi no post A Cisterna.

Seguia-se a casa de que hoje só restam ruínas, onde António Maria da Silva, o Orelha e Joaquina Porfíria criaram, pelo menos, sete filhos.

Do outro lado da rua, as casas de duas filhas do Manuel Luís. Primeiro, a de Luísa da Graça, casada com Joaquim Minderico, um Constantino que herdou a alcunha do avô materno. Depois, construída em 1941, a de Rosalía casada, em segundas núpcias dele, com José António Maurício de alcunha o Zé Alemão, o qual tinha ficado viúvo de uma irmã dela, Conceição, tragicamente desaparecida.


E, só nos Casais de Santa Teresa voltávamos a ver casas.

Tudo visto, em 1950, havia na Rua das Seixeiras 12 casas e cerca de 40 moradores.


De onde vem o nome da Rua das Seixeiras



segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A Rua de Traz em meados do Século XX



  
Cerca de 1950 estava a construir-se entre o Outeiro e o Lugar, em aterro, o troço da actual Estrada do Lagar dos Frades que havia de substituir a velha calçada, situada uns metros mais a norte, junto ao então quintal da Benedita, (agora de António Sabino), como ainda se vê, mas interrompido no final pelo monumento aos Combatentes.
Em frente, onde agora é o supermercado, estava a casa da Calçada, uma casa antiga e pequena para onde se subia através de três ou quatro degraus de pedra. Aí, de porta sempre aberta para aproveitar a luz exterior, o Pirisca exercia o seu ofício de sapateiro.
Para a direita acedia-se à estrada e à Rua de Nossa Senhora da Graça. Pela esquerda, era a Rua de Traz.

Onde hoje é propriedade do José Luís e a casa do Abílio era a taberna, a casa e os demais cómodos de um outro José Luís, avô daquele e pai do Abílio, felizmente ainda vivo, do Petinga que seguindo as pisadas paternas também foi taberneiro, do Padre Tomás de quem já falei mais de uma vez, designadamente no post Gente da Ataíja de Cima - O Padre Tomás e de duas raparigas, uma Maria, que ficou solteira e acompanhou o irmão Padre, e uma Luísa, que casou no Cadoiço com Joaquim Vitorino.
A dita taberna foi, como contei no post Gente da Ataíja de Cima - Joaquim Rôzo,  a sala de aula onde o meu pai, o Padre Tomás e outros rapazes do seu tempo, aprenderam a ler e escrever.

De seguida, a rua faz uma curva apertada, a noventa graus para a direita. Do lado norte, o pátio, a casa nova e uma velhíssima casa de alpendre, eram os cómodos de Luísa Ribeiro que, em 1947, ficara viúva com 2 filhos e grávida da terceira, a Joaquina a quem dediquei o post Gente da Ataíja de Cima - Joaquina Ribeiro Vigário. Apesar de ter casado, em 2as núpcias, pouco tempo depois, com José Maneta, a Luísa Ribeiro ficou para sempre conhecida como A Viúva.
O pátio e as casas ainda lá estão. O Pátio onde agora se criam ervas, ainda rodeado dos numerosos palheiros, estábulos e arrecadações de toda a espécie, a maioria deles já sem telhado e a caminho da ruína, testemunhas de um tempo e de um modo de exploração da terra que não voltam. A casa velha, está mais velha. A casa nova, construída para as 1ªs núpcias da viúva, está agora desprovida do patim que lhe permitia um minúsculo jardim e, sobretudo, a protegia de bestas, carros e carradas.
O seu único habitante é um cidadão ucraniano, há muitos anos emigrado em Portugal, operário numa oficina de pedra.

Do outro lado da rua era a casa, já desaparecida, do meu tio-avô João da Graça, dito o João Redondo, que aí vivia com a sua mulher Emília, natural de Aljubarrota. Não tiveram filhos.
Ele era sapateiro e deslocava-se a casa dos clientes, onde ficava a trabalhar por vários dias, consertando todo o calçado da família e, por vezes, fazendo obra nova. Assim me lembro de o ver, exercendo o seu ofício, no alpendre da casa de José Ribeiro.

Seguia-se uma antiga casa de habitação que naquele tempo também era propriedade da Luísa Ribeiro que a usava como armazém de azeite. Por isso há, ainda, quem a recorde como a Casa das Pias.
Logo, pegada, uma antiquíssima casa que ainda resiste e onde vivia Maria (da) Serafina, a Maria Pequena para se distinguir de uma irmã mais velha, também Maria. Naquele tempo era casada em 2ªs núpcias, com Eleutério dos Santos, mas julgo que já não viviam juntos. Lá em casa moravam, pelo menos, duas filhas e um neto mas ele morava numa casa pequenina que havia no quintal da Rosalia, na Rua das Covas.
Este Eleutério dos Santos terá sido o último enjeitado que houve na Ataíja de Cima mas dele, no entanto, não encontrei, até agora, rasto no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (diga-se, aliás, que nem todos os enjeitados passaram pela SCML).

Voltando ao lado norte da rua, às casas de Luísa Ribeiro segue-se o portão de um pátio, ao fundo do qual, numa pequena casa de que agora só restam ruínas, vivia a família de José Constantino que aí criou, pelo menos, sete filhos, entre eles, a Perna Torta.

Logo depois a casa, hoje também em ruínas, onde viviam os irmãos, meus tios-avós, Maria Marreca a Manuel Mariola, tal como o João Redondo, meios irmãos da minha avó paterna. A alcunha de Marreca devia-a ela a uma grande corcunda, resultado de uma grave fractura da coluna sofrida quando bébé, uma vez que o irmão Manuel, também uma criança, a pegou ao colo e a deixou cair da janela da casa para a rua.
Terá sido este mesmo episódio que lhe valeu a ele a alcunha de Mariola.

Seguia-se uma estreita casa, com um pequeno alpendre, onde então ainda vivia o velho Porfírio dos Santos, oriundo da zona da Nazaré mas vivente na Ataíja desde criança, onde chegou na condição de enjeitado ou criado de servir, o que não era muito diferente.
E, logo, a casa recente (construída em 1946) da sua neta Joaquina Méla. Esta casa ostenta uma curiosa Pedra da Era, com a representação de um machado e um serrote, instrumentos da profissão do marido, Manuel Sarrador.

Seguia-se a casa de Manuel Casal que então aí vivia com a sua mulher Luisa Vigário, a Pisa Flores, por vezes também dita A Farricha e o filho António. A casa já não existe e no seu lugar o bisneto Joel está a construir uma nova.

Em frente abre-se um largo por onde se estabelece ligação à Rua de Nossa Senhora da Graça, à antiga Rua da Penicheira e ao Beco onde está a casa de José Luís, no lugar onde naquele tempo havia a casa do Padrinho Fialho, então já falecido.
Aí havia também umas antigas casas que a Luísa Ribeiro usava como palheiros e para aí davam as traseiras da casa do João Redondo, uma arribana, lugar do ofício quando o trabalho era em casa e o portão do pátio da casa do meu avô Quitério, da minha casa de infância.
E, ainda, de costas para a taberna do Manuel Luís, a casa da viúva Felismina, a parteira da aldeia que também sabia de rezas e curas. 
Não sei se foi ela que me ajudou a vir ao mundo (poderá ter sido a outra parteira, a Silvina) mas sei que, aquando de umas aquando de umas febres que me atacaram, durante a epidemia da gripe asiática, ela me esfregou o peito e a barriga com azeite da candeia, enquanto entoava umas ininteligíveis rezas. (Os curiosos podem saber mais sobre a gripe asiática lendo o seguinte texto:
 (https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/gripe-em-lisboa-1957-e-2008-pdf.aspx) 
Com a Felismina, aí viviam o seu filho José Quépão e a mulher e os filhos destes, meus primos.

Tudo era um lagedo (o Lugar está construído sobre uma imensa pedreira), nesse beco, usava formar-se uma pequena lagoa quando chovia e, nós os pequenos, conhecedores do chão que pisávamos, íamos com gravetos, arames e pregos, limpar um pequeno buraco que havia numa das pedras e, quando o conseguíamos desobstruir, a água desaparecia em vórtice.

Retornando à Rua de Traz e continuando pelo norte, à casa de Manuel Casal seguia-se uma estreita e antiga casa, que aliás naquele tempo já não era uma casa, mas ainda existe, disfarçada atrás de uma parede de pedra sem reboco (que oculta uma minúscula divisão, talvez uma antiga corte do porco) e de um pequeno alpendre ou arribana. Era propriedade do meu avô José Agostinho da Graça que a usava como palheiro e estábulo do burro. O burro era preso ao pau de fuste que suportava o cachorro da chaminé e a lareira era a mangedoura. A porta da casa tinha um postigo e, como há ainda quem se lembre, às vezes via-se o burro, cabeça enfiada no postigo, observando o movimento da rua.

Seguia-se uma outra antiga casa, naquele tempo usada pelo José Ribeiro como palheiro e que mais tarde foi recuperada por um neto e, agora, é propriedade de um casal de cidadãos canadianos que aí vivem.
Segue-se a casa do meu avô Agostinho e da minha avó Carlota. Aí vivem agora a Celeste Rebolão e o marido.

Do lado sul, desde o largo atrás referido, eram antigas casas, com entrada pela Rua da Penicheira, onde já não vivia ninguém e funcionavam como palheiros e adega de Sabino Vigário. Seguia-se outra que tinha entrada pela Rua de Traz e era, creio propriedade de José Ribeiro, também usada como palheiro. Foi há uns anos remodelada e esteve habitada. Agora, todas esses telhados estão em vias de ser demolidos, para no seu lugar surgir o novo grande objectivo da comunidade, a construção do Centro Paroquial e Casa Mortuária.

Seguia-se, e ainda segue, uma pequena construção onde o meu avô Agostinho fazia adega, e abria-se uma travessa que ligava à Rua da Penicheira, à Rua de Nossa Senhora da Graça e ao Adro da Capela. A Travessa ainda lá está, mas o acesso à Rua da Penicheira foi cortado na segunda metade dos anos de 1970 quando a população decidiu autorizar o José Rebolão a construir aí, por troca com um espaço do outro lado da rua.
Pelo lado sul, o último quarteirão da Rua de Traz, entre a dita Travessa e o Fundo da Igreja, eram traseiras das casas de Maria da Serra (depois, de José Rebolão), de Manuel Maurício e sua mulher Silvina e da viúva Maria Constantino ou Maria Serafina e, ainda, de uma antiga casa, onde naquele tempo ainda se via a chaminé e uma divisória em tabique, que José Ribeiro usava como palheiro ou arrumos e o neto agora usa ou usou como garagem. 
Fecha o quarteirão, já com entrada pelo Fundo da Igreja, um antigo lagar, que depois disso já foi palheiro de vacas e agora é garagem.
Pelo Norte, à de meu avô seguia-se a casa de Manuel Morgado, dito o Manuel Lérias, carpinteiro, natural de Boieira, mas filho de uma ataijense e de sua mulher Maria Machada que aí viviam com os 4 filhos. Já no Fundo da Igreja, a casa dos Machado a que já me referi no post A Rua das Hortas em Meados do Século XX e onde viviam a minha tia Papoila, o marido e os três filhos.


Em meados do Século XX, a Rua de Traz tinha 14 casas habitadas nas quais moravam de mais de 50 pessoas.

Hoje, as casas habitadas são seis e residentes contei nove (um terço deles, estrangeiros).

Estado actual (15-12-2019) das casas de Luísa Ribeiro


Nota para os mais distraídos:
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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

A Rua das Hortas em Meados do Século XX



A Rua das Hortas parte do Fundo da Igreja para o lado norte, numa curva apertada entre o muro do pátio da casa que foi do Pote Serrano e onde, em 1952, o João Pereira começou a fazer barbearia e a casa do Machado, antiga e bela casa de alpendre, semelhante à casa de José Ribeiro, situada em frente, do outro lado do largo e, talvez, contemporânea dela.
Quando tratarmos da Rua de Traz havemos de voltar a falar desta casa do Machado onde, naquele tempo vivia, de empréstimo, a minha tia Papoila, irmã mais velha do meu pai, com o seu marido João Coelho, dito João Felismino e os três filhos. Gente pobre. Também de juízo.
Em pleno fundo da Igreja e ao lado da casa do Pote Serrano havia de, pouco depois (a pedra da era indica 1952 como data de construção) ser construída a casa da sua neta, casada com o dito João Pereira, ele vindo da Ataíja de Baixo, filho de Francisca Crispa, de quem me lembro por ser a proprietária do único porco barrasco que havia por estas bandas.
Quando a porca aluava lá iam, o animal e duas pessoas, pela Rua dos Arneiros, até à Figueira Pedral e ao Casal de Ordem, tomando o caminho da Lagoa Cova e virando depois à direita até à casa da Francisca Crispa.
À frente do animal ia um adulto ou adolescente com uma saca de milho que agitava a espaços, chamando a porca. Tiá! Tiá! Qnina!
A fechar o cortejo, um adulto com uma verdasca providenciava que o animal não voltasse para trás, não saísse do caminho, ou não se esquecesse de andar.
Se tudo corresse bem, a porca havia de emprenhar e parir uma bela ninhada que, criada até aos dois meses e vendida, havia de ser um excelente complemento do rendimento familiar.
Voltando à Rua das Hortas, à casa do Pote Serrano seguia-se e segue-se e ainda é habitada, a casa dos Veríssimo, onde então moravam a viúva Maria Ribeiro e os filhos Joaquina e João.
Trata-se de uma rara casa de dois pisos que vem do Século XVIII, mas que sucessivas intervenções descaracterizaram por completo, não existindo hoje sinais evidentes da sua antiguidade.
Seguia-se a casa de João Salgueiro, onde agora está a de uma neta e, logo, a Azinhaga do Jogo, então uma mera serventia agrícola, no início da qual Francisco Salgueiro tinha erguido, em 1939, a casa onde vivia com a mulher Joaquina “da Serra” e os três filhos.
Esta Azinhaga, hoje Rua do Jogo, chama-se assim por, contava-me a minha avó, no Século XIX aí haver um baldio onde aos domingos, jogavam a péla.
Voltando. Um pouco à frente, do lado poente e ostentando ainda a pedra da Era que nos indica que foi construída, ou reconstruída, nos anos de 1940, a casa de José Gomes Machado, que foi conhecido por José Faxia e, de seguida, o que naquele tempo já eram arrumos de José Bernardo, e foram pertença de uns Almeida, gente de fora que por aqui foram proprietários de olivais. Aqui funcionou antes um lagar de azeite, o lagar do José de Horta.
Em frente, a casa que foi de José Bernardo que aí viveu com a sua mulher e filhos. A casa está hoje recuperada com gosto e nela habita a família de um neto.
Seguia-se a casa, também construída ou reconstruída nos anos de 1940, onde viveram Francisco Rosa, a mulher Umbelina e os filhos e hoje se encontra fechada e sem uso e, logo, do outro lado do caminho, a casa, dentro de um pátio, onde José Dias, recentemente falecido e irmão mais velho do Francisco, viveu com a sua mulher Joaquina Cordeiro Ribeiro, que todos conhecemos por Joaquina Maurício e, em frente, a casa, também erguida na década de 1940, do irmão dela, António Maurício que foi casado com uma Maria da Conceição que foi de todos conhecida pela curiosa alcunha de Quites.
Voltando ao lado poente da rua, outra casa resguardada dentro de um pátio, casa ainda hoje habitada, onde vivia a viúva Maria Branca e a sua filha Joaquina casada com Joaquim Henriques, conhecido por Joaquim Neto. Virada à Rua, ainda lá está uma notável e hoje rara parede de pedra seca, ou pedra insonsa como também lhe chamam, quer dizer, tecida sem uso de qualquer argamassa. Disse-me um dia a ti’ Joaquina Branca que tinha sido mandava fazer por seu pai, a uns pedreiros que vieram de “traz da serra”.
Por último, uma casa alta que nunca o chegou a ser e então era, apenas, paredes sem telhado e vãos vazios.
Foi construída por um José Lourenço a quem chamavam o Combasteiro, o qual saiu da aldeia e nunca a acabou. Agora, vi-o há dias, tem telhado e os vãos emparedados.
Quem continuar para norte pode encontrar, à esquerda, a Pia da Senhora e, ao chegar perto do IC9 que agora corta o caminho, virar à direita e chegar à Rua de Traz do Muro, ou virar à esquerda e, caminhando pela Estrada do Diamantino, agora irreconhecível, chegar à Rua das Seixeiras e ao viaduto que liga aos Casais de Santa Teresa.

Tudo visto, em 1950 havia na Rua das Hortas (ou nas Hortas) nove casas habitadas e cerca de trinta moradores.



Parede de pedra seca


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

A Estrada do Lagar dos Frades em Meados do Século XX




A ligação de Aljubarrota à Ataíja de Cima fez-se, secularmente, por um caminho que saía de São Vicente, descia às Marmeleiras e aos Fiais de Deus, passando ao lado do cabeço do Murtal até cruzar a Rigueira que agora chamam de Ribeira do Mogo e, vinda dos lados das Pedreiras, percorre todo o vale até ao Poço Suão e a Chequeda, para aí ganhar águas permanentes e se transformar no rio Alcoa.

Na leve descida que vai do Murtal à Rigueira, rebentavam olhos de água nos tempos de chuva. Carros e bestas passavam a rigueira a vau e os peões, por uma estreita ponte, feita de uma única laje. Aí, na parede do que era o olival da ponte, então de José Ribeiro, ainda se via, em meados do século passado, o fuste de um antigo cruzeiro das Almas, local de descanso dos cortejos fúnebres.

Atravessada a Rigueira, abria-se ao lado esquerdo, uma inclinada ladeira, coberta de lages, a Azinha da Cucanha, que subia à Charneca da Várzea e às Figueirinhas e por onde os habitantes dos Casais de Baixo iam à missa a São Vicente.

O caminho para a Ataíja era o que hoje chamamos Rua da Ponte e dali continuava subindo pelas Tibarôas e Rossanas, até desembocar no Outeiro.

Foi assim durante séculos.  Mas, em 1897, o Governo de Hintze Ribeiro, que já três anos antes tinha classificado como estrada municipal o caminho entre a Lameira e os Casais de Santa Teresa, por Carvalhal, Ataíja de Baixo e Ataíja de Cima, mandou adicionar ao número de estradas municipais de 2ª classe, a ligação entre a Ataíja de Cima, o Cadoiço e Aljubarrota.

Pouco a pouco, o novo caminho foi-se impondo e, em data que desconheço passou a ser a estrada municipal n.º 553, o que julgo ser ainda a sua designação oficial e, no final dos anos de 1940, sofreu um grande impulso com a macadamização. Macadame de má qualidade, diga-se, porque uns dez anos depois já estava muito deteriorado, sobretudo nos pontos mais críticos: A ladeira grande, a chegar a Aljubarrota, a ladeira pequena, onde agora está a fábrica da Marmalcoa, a ladeira do Faca e a dos Caramelos e o Fundo da Igreja, eram tudo sítios onde do macadame já só havia vestígios entre as velhas lages que, de novo, brilhavam ao sol.

Só após o 25 de abril, então com o piso ainda muito mais degradado, pelo tempo e, nos últimos anos, pelo trânsito dos camiões de transporte dos blocos de Vidraço da Ataíja que, entretanto, começara a ser explorado é que, por iniciativa da população, como relatado no post Oalcatroamento da Estrada do Lagar dos Frades,  se vieram a iniciar as diligências que resultaram no alcatroamento da estrada.


Em meados do século XX, para quem vinha de Aljubarrota, a povoação da Ataíja de Cima começava a meio do pequeno planalto que encima a ladeira dos Caramelos. Aí residiam o Ti’ José Tomé e a sua mulher Maria Rosa ou Maria Carlos, conhecida por Maria “Metina”, por ser filha de uma Emilitina. A arruinada casa ainda lá está.

Seguia-se a casa recém-construída de Manuel Branco e Maria Florinda e, já na esquina com a falada Rua da Ponte, a casa de Luís Gomes que foi conhecido por Luís Francelino. A casa também ainda lá está e já falamos dela neste blog, num post com o título O Pátio

Na Rua da Ponte havia uma única casa que também ainda lá está, envolta num emaranhado de vegetação que mal a deixa ver. Aí moravam uma Alice, filha de Alfredo Ângelo da Silva e o seu marido Joaquim “Minderico”, oriundo do Casal do Rei.
Nessa casa funcionou o primeiro telefone que houve na Ataíja de Cima.


Voltando à Estrada do Lagar dos Frades, seguiam-se, já na subida, as casas de Tomé Ribeiro e de sua mulher Maria Jorge (Jorza, como dizíamos), onde agora está a casa de uma sua bisneta.
Em frente, era a casa, que também ainda lá está, de António Bernardino (António do Casal) e de sua mulher Joaquina “Guilhermina”, que aí viveram com os seus dez filhos. No pátio existe ainda uma notável cisterna com cobertura de duas águas.

E, estávamos no Outeiro.
Aí dominava e domina a casa alta onde moravam os irmãos Joaquim e António Matias (são duas casas independentes) e antes tinham morado os seus pais António Matias e Joaquina Carvalha, ela natural dos Casais de Santa Teresa (Casais de Baixo), ainda viva em meados do século. Ele, faleceu aquando da Pneumónica, tal como a sua filha Delfina.
A casa, essa, corre actualmente riscos de ruína, o que é pena pois se trata de uma das casas mais antigas (século XVII) da Ataíja de Cima e tem evidente valor arquitectónico.


Do outro lado da rua a casa que José Sabino (José Coelho) tinha erguido, cerca de 1944 para o seu casamento com Joaquina Rosalia e hoje é propriedade de um dos seus filhos.

Seguia-se uma extensão de cerca de 100 metros de terrenos agrícolas antes de entrarmos no núcleo central da aldeia, o “Lugar”.
Aí, tínhamos as casas de Alfredo Ângelo da Silva, onde está o supermercado e, em frente, uma casa baixa onde funcionava uma taberna que também tinha sido do Alfredo e, comprada pelo Sarrano (Manuel Rei de Carvalho, natural da Bezerra, também conhecido por Manuel Sarrano ou Manuel dos Ovos) foi objecto, logo no início dos anos cinquenta, de obras profundas que aumentaram a área de implantação e lhe acrescentaram um segundo piso, como, no essencial, ainda lá está.
Seguia-se a casa que agora é de Manuel Tomé (desta e da casa do Alfredo falei já no recente post A Rua de Nossa Senhora da Graça ) e, pelo norte e até ao Adro da Capela, tudo eram traseiras de casas da Rua de Nossa Senhora da Graça.

Pelo Sul seguia-se a casa, que ainda lá está, habitada, de Manuel Matias que aí vivia com a sua mulher Maria Cordeira, os filhos e a sogra, primitiva proprietária, uma Ana de alcunha a Riteira.
Pegada, a casa que a viúva Maria Coelho tinha acabado de construir ou reconstruir e agora está a ser objecto de obras que lhe hão-de propiciar uma nova vida.

Mais terreno agrícola e, no Adro, dentro de um pátio, a casa que ainda lá está e foi de João Cordeiro, de quem já falei várias vezes, por ter sido o doador do edifício onde, durante quarenta anos, funcionou a escola da aldeia e eu aprendi a ler e escrever.
Encostada, a casa construída por Joaquim d’Avó, onde ainda vive a sua viúva e, de seguida, a que foi do avô do Joaquim, o “Vigário Velho”, onde agora está a de sua bisneta Deolinda.
Encostada a esta, a casa de José Ribeiro, uma casa antiquíssima que vem pelo menos do século XVIII como o atesta uma inscrição na padieira. Uma casa felizmente ainda viva.

Seguia-se a casa alta, também de José Ribeiro, onde agora está a casa do seu neto Rafael. Mas, naquele tempo já não era propriamente uma casa. O rés-do- chão funcionava como palheiro e o primeiro andar só era usado no tempo da azeitona, servindo de quartel ao rancho que o José Ribeiro costumava contratar para o lado dos Montes. No telhado rodava o moinho de vento que produzia a electricidade para o funcionamento da primeira telefonia que houve na Ataíja de Cima e, julgo, a Amélia ainda conserva.

Colada, onde agora o Rafael tem a garagem, a pequeníssima casa onde António Dias, o Pato Marreco, por alguns também conhecido por Rabo-Loiro, morava com a sua mulher Antónia Rosa e uma extensa família.

Seguia-se, no sítio onde António Faustino Ribeiro, o Mosca, construiu a sua casa e ainda vive a sua viúva, uma casa que então já estava abandonada, a casa do Jorge.
Coisas da infância, lembro-me dela como se fosse hoje: a casa recuada, na sombra de uma arribana, de telha vã e chão de terra, que ocupava toda a frontaria. Ao centro, para ajudar a suportar o telhado, um pilar, um tronco de madeira junto ao qual havia um pequeno maroiço de pedras, onde despontavam silvas.

Vinha depois a casa de António Pereira, o Tita. Um personagem peculiar e um pouco louco que bebia demais, batia na mulher e nos filhos e passou algumas vezes pela prisão. A seguir à casa havia uma enorme figueira de onde ele lançava imprecações e gritos ameaçadores.
Eu tinha um medo terrível dele e dos seus gritos.
Na frente da casa havia um pequeno patim onde, às tantas, o Tita resolveu cravar um eucalipto para servir de mastro e, aos domingos, içava a bandeira nacional, a que prestava honras com um pau de vassoura a servir de espingarda, cerimónia  a que, algumas vezes, obrigou a mulher e os filhos a assistir perfilados. O Regedor quis pôr termo à cena, mas não se tendo provado qualquer desrespeito à bandeira, o juíz mandou o Tita em paz.

Em frente, estavam as casas, hoje a caminho da ruína, de José Salgueiro e Conceição Neto e, antes, uma mais antiga onde morava o irmão dela, José Henriques, também conhecido por José Neto e pela alcunha de O Carago e, então, ainda era solteiro.

De novo do lado sul, havia o pombal, como lhe chamava a minha avó.
Tratava-se da casa de dois pisos onde vivia a minha tia Pequena e que foi consumida por um incêndio. Era o pombal por ter sido construída, mas não acabada (tendo ficado de vãos vazios, como um pombal), por António da Graça, um meio irmão da minha avó que acabou por casar e ir viver nos Milagres e a quem, por isso, chamávamos o Ti’António dos Milagres.


Do outro lado da estrada, era a casa – que ainda está viva e habitada – de outro António Agostinho, também conhecido por António Cláudio e, mais vulgarmente, o Russo, que aí vivia com a sua mulher Delfina e uma extensa prole.
No pátio havia uma frondosa nogueira e na eira, que também ainda existe, estava um certo verão uma amoreia de cereal para ser debulhado.
O Padre, na missa, tinha anunciado que corria entre os coelhos uma doença infecciosa (era a mixomatose, vulgarmente chamada lepra dos coelhos) e que era preciso tomar medidas para evitar o alastramento da doença: Devia abrir-se uma cova no quintal, para enterrar os animais doentes que deviam ser mortos, regados com petróleo e queimados.
Um jovem José Russo quiz fazer tudo direitinho mas esqueceu-se de matar o coelho que, sentindo-se a arder, saltou da cova e foi a correr enfiar-se na amoreia que estava na eira, dando origem a um grande incêndio que foi debelado pela acção abnegada de quase toda a aldeia que, sem auxílio de bombeiros e com a escassa água a ser passada “à formiga”, em baldes, conseguiu confinar e controlar o fogo.


Finalmente, na Serrada, a casa que fora de Matias de Horta e Maria Botas, naquele tempo já desabitada e na posse de José Bernardo, por o Matias e a sua mulher terem, entretanto, sido internados no Asilo.

Tudo visto, por volta de 1950, moravam na Estrada do Lagar dos Frades mais de 100 pessoas.


A casa do Outeiro terá, actualmente, mais de trezentos anos